Telegram, o novo refúgio da extrema direita no Brasil

Aplicativo de mensagens vira rota de fuga para políticos radicais e apoiadores que sofreram sanções em outras plataformas digitais

Sérgio Spagnuolo (Núcleo)

É comum ouvir comparações de aplicativos de mensagem com redes sociais. Serviços como o WhatsApp ficaram tão grandes e onipresentes na sociedade que a associação até faz sentido, embora com uma grande diferença: nesses rincões digitais a fiscalização e a moderação de conteúdo são praticamente inviáveis no formato atual ―seja por questões técnicas (como a criptografia), seja por falta de ação das empresas.

Isso mostra o difícil equilíbrio entre a necessidade de privacidade e a exigência no combate a excessos, uma constante ambivalência que resulta tanto em ferramentas de comunicação segura quanto em ambientes propícios para que o extremismo floresça com poucas preocupações.

Um aplicativo em especial tem conquistado adeptos da extrema direita no Brasil: o Telegram. Com o endurecimento das medidas de grandes empresas de tecnologia contra desinformação, discurso de ódio e organização de atos violentos, o Telegram tem se tornado um refúgio (mesmo que ainda modesto se comparado às grandes redes sociais ou ao WhatsApp) para figuras que foram ou correm o risco de ser sancionados em outras plataformas.

Proibidos no Facebook, no Twitter e nas maiores redes por seu potencial de dano no mundo real, canais e grupos que abraçam teorias conspiratórias ou discurso de violência podem ser facilmente encontrados com uma simples busca por palavra-chave no aplicativo.

Nos EUA, por exemplo, o grupo supremacista branco Proud Boys e extremistas que exploram a teoria conspiratória QAnon possuem canais com dezenas de milhares de seguidores. No Brasil, canais alinhados com a direita radical ―do tipo que espalha mentiras sobre a pandemia de covid-19, clama por intervenção militar ou pede prisão de juízes do Supremo Tribunal Federal— continuam tocando seus negócios normalmente.

Recentemente o Telegram ultrapassou a marca de meio bilhão de usuários ativos mensais, em parte atraídos por políticos e personalidades sancionados por ―ou insatisfeitos com― ações e políticas adotadas em outras redes sociais. Num período de 72 horas na segunda semana de janeiro, a plataforma ganhou 25 milhões de novos usuários, pouco após o ex-presidente dos EUA Donald Trump ter sido expulso do Twitter e suspenso do Facebook por incitar atos antidemocráticos contra o Congresso norte-americano.

Veio a favor do Telegram também o mal estar causado por uma atualização nos termos de privacidade do WhatsApp, que escancarou a política já existente de compartilhamento de dados de usuários com outras empresas pertencentes ao Facebook, o que desagradou muita gente. Não à toa o Telegram foi o aplicativo mais baixado do mundo em janeiro, de acordo com seu fundados e CEO, o russo Pavel Durov.

Para entender essa migração da extrema direita para o Telegram, o Núcleo analisou cerca de 600 mil mensagens de 15 grupos e canais de direita por cerca de um mês, e observou os padrões de uso e compartilhamento, assim como o aumento no número de inscritos no período. Esse grupos, apenas uma pequena amostra da presença da direita por lá, foram escolhidos por serem de políticos ou comunicadores conhecidos, assim como pelo volume de inscritos.

ANÁLISE DO NÚCLEO

Dados consolidados da observação e análise de 15 grupos e canais do Telegram

15 grupos e canais

12,3k usuários com posts

643k mensagens

199k links totais

1.555 arquivos de mídia

Nome canal ou grupo
Carla Zambelli carlazambellioficial
Bia Kicis biakicisoficial
BOLSONARO PRESIDENTE BOLSONARO_APB
Dep Luiz Philippe Oficial luizphilippe
Eu Sou de Direita eusoudedireita
Jair Bolsonaro, eu Apoio! Bolsonaro2Me22
Deputado Helio Lopes depheliolopes
Jair M. Bolsonaro 1 jairbolsonarobrasil
FLÁVIO BOLSONARO senadorflaviobolsonaro
Filipe G. Martins filgmartin
CARLOS BOLSONARO bolsonarocarlos
Eduardo Bolsonaro depeduardobolsonaro
Carlos Jordy carlosjordy
Allan Dos Santos allandossantos
Bernardo P Küster bkuster

O presidente Jair Bolsonaro lançou seu canal oficial dia 12 de janeiro e em 15 de fevereiro já possuía 420 mil inscritos (em 18 de janeiro eram 355 mil) ―o segundo maior número entre líderes mundiais verificados pela ferramenta. Claro, não chega nem perto dos 13,8 milhões de seguidores do Facebook, dos 18,3 milhões do Instagram ou dos 6,6 milhões no Twitter, mas é impressionante para um mês de existência de um canal ainda pouco promovido pelo próprio presidente.

O ponto principal do Telegram agora tem sido mais a organização e referência do que puramente o volume. É ali que os apoiadores podem se reunir para consumir conteúdo (inclusive desinformação) de outras redes e se organizar com pouco medo de retaliação da plataforma, como foi o caso de ataques contra o STF em 2019 ou do grupo extremista 300 do Brasil. Nos EUA, esse tipo de organização também foi registrado recentemente.

Não é por acaso que, segundo análise do Núcleo, quase dois em cada três dos 200 mil links compartilhados nesses 15 grupos direcionavam para:

  • o YouTube (44% do total de links analisados);
  • o Twitter (12%);
  • o Facebook (5%).

Ou seja, levavam os inscritos às bases já consolidadas em outras redes. Como num loop, o inverso também acontece: influenciadores e políticos usam essas mesmas redes para aumentar seus seguidores no Telegram.

“Eles estão fazendo um esforço para levar essa audiência que já têm no Twitter, no Facebook e até no WhatsApp para o Telegram”, disse ao Núcleo o pesquisador David Nemer, professor da Universidade de Virgínia, nos EUA, que estuda consumo de desinformação em aplicativos de mensagem e tem acompanhado a migração para o Telegram. “Vejo muita propaganda de link levando para o Telegram.”

Trata-se, então, de uma movimentação em massa, mas ainda não consolidada. Embora seja uma alternativa como um espaço da extrema direita, a adoção dessa tecnologia ainda enfrenta resistências:

  • Da dificuldade na mudança de cultura na adoção de novos aplicativos, considerando a onipresença do WhatsApp;
  • Com a desconfiança de parte dos usuários após o hack escancarado de procuradores no caso da Vaza Jato;
  • E na falta de meios de monetização desses canais para produtores de conteúdo;


Um dos motivos pelos quais muitas figuras da extrema direita ainda não adotaram firmemente a ferramenta foi a dificuldade de fazer dinheiro com conteúdo no Telegram. Soluções para isso estão se esboçando. O Telegram anunciou em dezembro que vai começar a aceitar anúncios em grandes canais de transmissão, embora não nos chats nem com a utilização de dados pessoais, como é praxe na maioria das empresas de tecnologia.

Pode ser um modelo interessante para produtores de conteúdo buscando uma nova forma de ganhar dinheiro, mas é um assunto antigo entre quem acompanha o tema: como remunerar quem produz conteúdos potencialmente nocivos?

Por muito tempo, canais de YouTube com vídeos extremistas e sites reconhecidamente difusores de mentiras conseguiram monetizar seu conteúdo utilizando ferramentas de remuneração do Google, por exemplo. A empresa norte-americana, pressionada por inquéritos judiciais, anunciantes e projetos como o Sleeping Giants, tem apertado o cerco contra esses canais.

O YouTube retirou, por exemplo, o canal Terça Livre do ar, iniciando uma disputa judicial. De acordo com análise do Núcleo, isso afetou pouco o bolsonarismo, mas foi um golpe forte contra um canal conhecido por discurso violento.

Medidas como essa deixam apreensivas iniciativas e personalidades que exploram o direito de liberdade de expressão para faturar com a divulgação de mentiras nocivas para a sociedade e discursos antidemocráticos. Daí a necessidade de um lugar que apresenta menos riscos.

Isso joga a favor do Telegram agora, assim como outras duas motivações:

  • As atualizações nos termos de uso do WhatsApp;
  • As políticas de zero rating (quando operadoras de telefonia não cobram por acesso a certos apps) que passaram a incluir o aplicativo.

“A partir do momento em que rolou acordo com operadoras era natural a direita migrar”, disse ao Núcleo a pesquisadora Yasodara Córdova, do Harvard Ash Center. Essa prática já era comum com o WhatsApp e outros produtos do Facebook, mas passou a incluir o Telegram há poucos anos, dependendo da operadora e do plano de dados adquirido.

Sobre os termos de uso, segundo reportagem da BBC Brasil, pouca coisa de fato mudou, e as atualizações refletem o lançamento de um novo serviço para gerenciamento de conversas entre empresas e consumidores, mas as alterações recentes do WhatsApp escancaram as práticas de compartilhamento de dados de produtos do Facebook, uma empresa já vista com desconfiança por todos os lados do espectro político.

“Anti-desplataformização”

Não é que não exista desinformação e discurso de ódio em outras redes. Antes de ser preso, o deputado federal bolsonarista Daniel Silveira, o sujeito que quebrou a placa da vereadora assassinada Marielle Franco e vibrou com isso, publicou no YouTube um vídeo no qual defendeu o mecanismo de repressão democrática AI-5, usado na ditadura, assim como o fechamento do STF. A plataforma de vídeos removeu o conteúdo, mas ele continua a viver em aplicativos de mensagem, como no canal de Silveira no Telegram, onde tem mais de 8 mil inscritos.

O Telegram é uma boa ferramenta para evitar a “desplataformização” ―palavra que abalou as políticas declaradas sobre liberdade de expressão nas redes sociais e deixou o radicalismo de cabelo em pé, sob ameaça de perder suas bases da noite para o dia.

A eleição norte-americana de 2020 e o ataque de militantes de extrema direita ao Congresso dos EUA em 6 de janeiro de 2021 foi um marco que definiu para as maiores plataformas os limites aceitáveis da liberdade de expressão, assim como sua separação da desinformação e do discurso de ódio.

Além disso, reacendeu com força o debate sobre a necessidade de moderação ativa por parte das plataformas, sob o argumento de que alguns discursos são perigosos demais para a democracia. Afinal, liberdade de expressão não significa pregar abertamente pela violência ou o planejar um golpe de estado. Se antes as plataformas estavam dispostas a banir apenas os grupos e personalidades mais grotescas, como o comunicador Alex Jones (Infowars), nos últimos poucos anos passaram a punir autoridades e até presidentes, incluindo Bolsonaro.

Os poucos lugares que restaram para a profusão de desinformação e discurso de ódio passaram a sofrer pressão por moderação de conteúdo, a ponto de a Amazon não permitir mais que a rede social Parler utilizasse seus servidores, além de ser expulsa das lojas de aplicativos da Apple e do Google, causando o colapso da rede social por várias semanas.

O Gab, outra rede social com profusão de grupos de direita, embora tenha ganhado 600 mil novos usuários logo após os problemas do Parler, também teve, já há alguns anos, seus aplicativos removidos das lojas da Apple e do Google, os dois maiores ecossistemas de smartphones do mundo, o que limitou bastante sua usabilidade em dispositivos móveis e, consequentemente, seu crescimento.

A rede social Clapper, quase um clone do TikTok, mal virou um novo destino da extrema direita e já começou a se movimentar para moderar conteúdo, por exemplo banindo conteúdo relacionado a QAnon, a fim de evitar sanções potencialmente catastróficas para a empresa.

Uma coisa importante de notar é que o Telegram não é um aplicativo que se identifica como abrigo para a extrema direita, tal como o Parler e o Gab se propuseram a ser sob o manto da liberdade de expressão.

O aplicativo foi lançado em 2013, muito coisa aconteceu por lá até essa migração da direita. Há, entre muitas outras coisas, veículos de imprensa, lojas online, grupos religiosos, comunidades de alimentação saudável e, claro, até militantes de esquerda. Um canal sobre o reality show Big Brother Brasil 21 tem 250 mil inscritos e virou referência para outras redes.

Iniciativas de dados e tecnologia há tempos usam a ferramenta. O site de dados abertos Brasil.io possui um canal lá para informar sobre os dados mais recentes da pandemia de coronavírus no Brasil. Por permitir automação, tem até bot com dados da pandemia. A iniciativa Direitos na Rede, que fala sobre direito digital no Brasil, também está lá, assim como diversas organizações.

Rede de mensagem ou mensageiro social?

Mas aplicativos de mensagem possuem regras um pouco diferentes. Embora, é claro, as empresas digam que não toleram discurso de violência e ódio, elas só podem mesmo monitorar esse tipo de coisa em canais abertos, não em grupos fechados e chats secretos, sob a proteção da criptografia.

Nas redes sociais, as regras de comunidade e a própria natureza desses espaços virtuais não comportam, em teoria, nada totalmente secreto.

No começo de janeiro, a equipe de moderação do Telegram começou a receber um número alto de relatos sobre atividade pública relacionada aos EUA. A equipe agiu de forma decisiva ao tomar ações contra canais norte-americanos que promoviam violência.
Pavel Durov, CEO do Telegram, no seu canal

O Telegram possui, de fato, uma equipe de moderação. Mas enquanto o Twitter e o Facebook baniram dezenas de milhares de perfis e grupos extremistas em janeiro de 2021, o Telegram baniu 15 canais. Pavel, CEO do aplicativo, narrou que, durante os ataques ao Congresso dos EUA, o Telegram removeu “centenas” de conteúdos nocivos, o que não é muito.

Essas medidas podem ter algum efeito para aplacar os ânimos tanto daqueles que defendem ação direta de plataformas contra discursos perigosos, como também reafirmar aos defensores de segurança da informação que é possível tomar algum tipo de ação sem mexer em políticas de privacidade ou em criptografia.

Importante ferramenta de privacidade e comunicação segura, com usos inclusive muito legítimos e necessários, a criptografia dá uma camada extra de molho para o argumento de que moderação total é difícil ou quase impossível, considerando que o Telegram possui recursos de grupos privados e chats secretos entre dois usuários. “É muito improvável que isso aconteça [aumento na moderação]. O que vendem hoje essas plataformas é poder ter esses grupos e essa privacidade, [moderar conteúdo] vai contra o modelo de negócio deles”, disse Nemer.

Seja como for, o Telegram já mostrou não gosta muito de interferências externas. A empresa atualmente tem sede em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, onde as regulamentações do setor de TI são bastante opacas, após ter sido fundado na Rússia e ter passado pela Alemanha, Reino Unido e Cingapura, os quais deixou por não se adaptar às regras locais, como o diz seu próprio site.

Ausências notáveis

O Telegram pode estar a meio caminho de se consolidar para a direita, mas aparentemente está a um caminho inteiro de virar destino para a esquerda: não há grandes canais ou grupos, pelo menos não se comparados com a direita ―mobilização online nunca foi um ponto forte da esquerda.

O Partido dos Trabalhadores entrou em julho de 2020 e possui um canal com cerca de 4,5 mil inscritos, enquanto o PSOL tem 2,6 mil ―bem abaixo dos influenciadores de direita. O canal oficial da campanha de Guilherme Boulos e Luiza Erundina à prefeitura de São Paulo tem 669 inscritos e não publica nada desde dezembro.

Com uma simples busca, é possível achar grupos e canais de conteúdo radical, como da teoria conspiratória QAnon, que foi banida das maiores redes sociais.

Algo semelhante acontece com veículos de jornalismo. Apesar de ter ferramentas e recursos mais amigáveis para publicação, algumas redações só começaram a entrar agora na plataforma, como a Folha de S.Paulo e o Poder360, que entraram em 2021. A BBC Brasil é um caso à parte: possui mais de 18 mil inscritos e publica no Telegram desde 2015. O Núcleo Jornalismo também tem um canal por lá.


Análise: Renata Hirota e Sérgio Spagnuolo / Dados: Felippe Mercurio e Lucas Gelape / Gráficos: Rodolfo Almeida / Edição: Alexandre Orrico

Este texto foi originalmente publicado no site do Núcleo Jornalismo.