Estados Unidos

História da conspiração que levou ao assalto do Capitólio. Assim funciona o QAnon

Um movimento que agrupa uma miríade de teorias da conspiração deu asas à farsa da fraude eleitoral e foi um dos propulsores da invasão do Capitólio em 6 de janeiro, nos Estados Unidos. Recebe o nome de QAnon e espalha histórias delirantes como a da existência de uma rede de pedofilia comandada pelos líderes do Partido Democrata. Como um embuste desses consegue chegar tão longe?

Manifestantes da teoria da conspiração QAnon protestam contra a recomendação de ficarem em casa, em 1 de maio de 2020, em San Diego, Califórnia.
Manifestantes da teoria da conspiração QAnon protestam contra a recomendação de ficarem em casa, em 1 de maio de 2020, em San Diego, Califórnia.SANDY HUFFAKER/AFP/GETTY IMAGES / AFP via Getty Images

Uma das histórias mais populares no QAnon, um movimento vago que agrupa uma miríade de teorias da conspiração nos Estados Unidos, é na verdade mais antiga do que o próprio grupo. É sobre uma suposta rede de pedofilia comandada pelos líderes do Partido Democrata ― com Hillary Clinton e seu chefe de campanha, John Podesta, na chefia ― e que opera em uma conhecida pizzaria em Washington chamada Comet Ping Pong. Absurdo para a maioria da população, a brincadeira se tornou uma obsessão para um pai de família da Carolina do Norte, Edgar Maddison Welch, que em 4 de dezembro de 2016 pegou seu carro, um rifle AR-15, uma pistola, 29 cartuchos de munição e foi para o local para “investigar por si mesmo” ―segundo contou à polícia― o complô Pizzagate. Ele abriu fogo e, por sorte, não feriu ninguém. Quando examinou o restaurante, viu que não havia crianças escravas em lugar nenhum, mas famílias aterrorizadas com sua presença, e se rendeu.

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Mas a história de abuso de menores pelos políticos progressistas na capital sobreviveu, em grande parte, pela ação de movimentos como o QAnon. Se esses ultrajes não ocorriam na pizzaria, então devia ser em outro lugar. A primeira postagem detectada de “Q”, o ser misterioso por trás do movimento, é de 28 de outubro de 2017. Naquele dia, ele publicou na plataforma 4chan ― um espaço habitual para criminosos digitais e agitadores extremistas ― que Hillary Clinton iria ser presa. E, embora nada disso tenha acontecido, a ideia de que ele possuía boas informações ganhou força nas redes. Isso também serviu para propagar o boato dos abusos, bem como denunciar satanistas que rondariam os órgãos federais ou acusar Barack Obama de espionar Donald Trump.

As mentiras de QAnon foram se espalhando como uma mancha de óleo e, neste 2020 tão insólita, propício à irrealidade, pressionaram o acelerador com uma farsa pertinente, já que a fraude eleitoral é um medo recorrente entre os conservadores, com um apóstolo de luxo: o próprio presidente dos Estados Unidos. Quando uma turba trumpista invadiu o Capitólio em 6 de janeiro para boicotar a confirmação da vitória eleitoral do democrata Joe Biden, muitos olhos se voltaram para o QAnon. Alguns de seus membros, como Jacob Chansley, mais conhecido como Jake Angel ou o xamã de QAnon (nas imagens, com o rosto pintado e chifres), fizeram parte da revolta. Agora, com a justiça perseguindo os insurgentes, o sangue derramado de cinco pessoas e a rendição de Trump, alguns dos promotores das teorias começam a recolher as velas. A questão que se coloca é o que acontecerá a partir de agora.

“O movimento QAnon em si não é grande nem está crescendo, é um daqueles fenômenos que estão atraindo mais atenção da mídia do que merecem”, alerta Joseph Uscinski, professor de Política da Universidade de Miami, especializado no estudo de movimentos conspiratórios. “Na verdade, é um movimento que reúne todas aquelas teorias de conspiração que existem há muito tempo ―a do 5G, as dos antivacinas..., mas grandes grupos da população acreditam nesses relatos, é algo que sempre aconteceu ao longo da história.”

Em março de 2020, uma pesquisa da Pew Research, o principal centro de estudos sociológicos nos Estados Unidos, constatou que 76% dos cidadãos tinham ouvido falar de QAnon e, em agosto de 2019, outro estudo, da Emerson, observou que apenas 5% acreditavam em suas teorias. Nas manifestações dos partidários de Trump contra as supostas “eleições roubadas”, muitos entrevistados ou não tinham ouvido falar do QAnon ou não acompanhavam muito as redes, mas seguiam de pés juntos a farsa da fraude. Na verdade, mais da metade dos eleitores de Trump ―e foram 74 milhões― acredita que Joe Biden ganhou de forma ilegítima.

O que a QAnon conseguiu, com sua rede robusta de redes e membros ativos, foi aglutinar todo o submundo conspiratório sob um guarda-chuva cada vez mais notório que conseguiu colocar claras seguidoras e porta-vozes ―como Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, ou Lauren Boebert do Colorado― na Câmara dos Representantes. Em uma nota interna antes do ataque ao Capitólio, o FBI classificou o QAnon como uma ameaça de terrorismo nacional. Independentemente do futuro, “seus seguidores continuarão a acreditar em todas essas conspirações, não importa o que aconteça”, diz Uscinski.

Os Estados Unidos têm uma longa história de teorias da conspiração, seja pelo assassinato de John F. Kennedy ou dos ataques de 11 de setembro. O fascínio por elas se conecta com os movimentos populistas e antiestablishment porque se baseia na ideia de mãos obscuras movendo os cordões do mundo de forma coordenada com interesses espúrios. Elea também respondem à necessidade humana de certezas existenciais. “Essas teorias tendem a florescer em tempos de crise, as pessoas procuram explicações que as ajudem a enfrentar a situação quando se sentem inseguras e impotentes. Elas também podem estar procurando respostas simples que as façam se sentir melhor, embora isso não funcione”, explica por e-mail Karen Douglas, professora de Psicologia Social da Universidade de Kent, Reino Unido.

A fraude eleitoral, aliás, é um tipo de embuste suficientemente amplo e recorrente para garantir seu sucesso. A teoria da fraude em massa não aponta para uma operação centralizada e pessoal fácil de identificar e, portanto, refutar, como a de uma suposta trama de pedofilia em uma pizzaria de Washington administrada pelos democratas. Nesse caso, um acúmulo interminável de irregularidades é apontado em todo o território dos Estados Unidos (votos jogados no lixo; outros, contados duas vezes; cédulas de pessoas falecidas lançadas nas urnas ...) que colocam o ônus da prova em uma massa informe de acusados. Além disso, faz referência a um medo antigo e, portanto, plausível, o da irregularidade nas urnas. E, como se isso não bastasse, dezenas de políticos em Washington lhe deram combustível, a começar por Trump.

Um estudo do Network Contagion Research Institute, uma organização sem fins lucrativos independente, e da American University rastreou o que aconteceu em maio no Twitter com a hashtag #subpoenaObama (a petição para intimar Obama a depor por, supostamente, ter espionado Trump durante a eleição de 2016) e revelou um poder multiplicador surpreendente. Em 13 de maio, um usuário a postou pela primeira vez e encorajou os fãs do QAnon a reproduzi-la. Durante aquele dia e o seguinte, chegou a ser tuitado cerca de 4.000 vezes por hora. Algumas vozes proeminentes do mundo conservador e conspiratório, como Glenn Beck ou as irmãs Diamond e Silk, fizeram eco. Em 14 de maio, na mesma rede social, Donald Trump instou o senador republicano Lindsey Graham a convocar Obama para testemunhar. O relatório do estudo, publicado algumas semanas antes do assalto ao Capitólio, alertava sobre o potencial desse movimento no futuro imediato por conta dos boatos sobre fraudes eleitorais.

Para alguns, foi até um negócio. David Hayes, um ex-profissional de saúde do Arizona que fica online com o nome de PrayingMedic, acumulou 300.000 seguidores no Twitter e outros tantos em seu canal no YouTube. Na Amazon ele vendeu um livro sobre o assunto por 15 dólares (82 reais). O próprio Trump arrecadou 170 milhões (930 milhões de reais) durante o mês seguinte às eleições de 3 de novembro, após pedir doações para sua batalha judicial malsucedida contra o escrutínio. A maior parte desse dinheiro foi para um comitê cujo objetivo principal é financiar sua atividade política futura.

Após o assalto e o cerco judicial, muitos promotores da grande farsa começam a recuar. Ron Watkins, ex-administrador da plataforma 8chan ― uma das grandes passarelas da QAnon ― serviu por meses como um teórico de referência nas acusações infundadas de fraude, conseguindo retuítes do próprio presidente republicano e a atenção da mídia de sua mesma tendência política, como a One America News Network.

Ele também foi identificado como um possível colaborador ou autor das publicações do misterioso “Q”. Em 20 de janeiro, quando Joe Biden foi empossado, Watkins deu o assunto por liquidado: “Precisamos retornar às nossas vidas o melhor que pudermos”, escreveu no Telegram, “temos um novo presidente e é nossa responsabilidade como cidadãos respeitar a Constituição, independentemente de concordarmos ou não com os novos cargos públicos”. “Agora que estamos entrando na nova Administração, por favor, lembrem-se dos nossos amigos e dos bons tempos dos últimos anos”, finalizou.

As redes sociais também desconectaram muitos de seus porta-vozes. Cinco dias após o assalto ao Capitólio, o Twitter anunciou que havia removido cerca de 70.000 contas que promoviam as teorias de QAnon. O Twitter e o Facebook também tomaram a polêmica decisão de fechar o perfil de Trump em seus últimos dias de mandato.

O que tudo isso significa? É o começo do fim para QAnon ou, apesar de tudo, está apenas começando? O pesquisador Jared Holt, da organização Atlantic Council, que estudou esse movimento extremista, diz que esse episódio “pôs à prova a fé dos crentes do QAnon em um nível que eu nunca tinha visto antes”. “Para alguns, este teste foi um fardo grande demais para carregar e eles estão começando a duvidar da verdade do movimento, mas é improvável que o QAnon desapareça em curto prazo. Embora a figura de ‘Q’ passe para um segundo plano, muitas das teorias que promove seguirão em frente. Provavelmente lidaremos com seus efeitos residuais durante anos.”

Congressistas como Marjorie Taylor Greene e Lauren Boebert têm dois anos pela frente no Capitólio. E muitos outros legisladores, embora não se tenham vinculado tanto aos slogans específicos deste microcosmo, apoiam a teoria da fraude, como o senador Josh Hawley, do Missouri, que saudou a multidão com o punho levantado no dia do assalto . “Eu ficaria surpresa se esse fosse o fim da história do QAnon”, diz a professora Karen Douglas. “Acho que seus seguidores provavelmente estão esperando que algo aconteça, como algumas palavras do ex-presidente, para decidir o que fazer a seguir.”

Trump fez seu último discurso como presidente na manhã de 20 de janeiro na Base Aérea de Andrews, em Maryland. Alguns seguidores do movimento notaram que 17 bandeiras estavam hasteadas no local. Segundo publicou The Washington Post, naquele dia, houve quem visse um sinal muito claro: a 17ª letra do alfabeto é Q. “17 bandeiras! Vamos lá, isto é uma loucura “, disse alguém em um dos fóruns habituais dos seguidores desta teoria. “Não sei quantos sinais mais terão de nos enviar para que acreditemos ‘no plano’”, disse outro. A excentricidade continuou por algumas horas, mas o republicano já estava voando com a mulher, Melania, para sua mansão em Palm Beach, Flórida.

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