Crise nos EUA

Dos Proud Boys ao QAnon: o exército de Trump

FBI pede ajuda para identificar os invasores do Capitólio, seguidores da extrema direita e do movimento supremacista branco

Membros do grupo de extrema direita Proud Boys seguem para o Capitólio, em 6 de janeiro.
Membros do grupo de extrema direita Proud Boys seguem para o Capitólio, em 6 de janeiro.SPENCER PLATT / AFP

O FBI pediu na quinta-feira a colaboração da população, e especificamente das testemunhas do ataque ao Capitólio, para identificar os insurgentes. Qualquer prova por imagem ou audiovisual do tumulto postada nas redes sociais pode ajudar a agência do Departamento de Justiça a identificar os indivíduos que na quarta-feira aviltaram a sede da representação popular em uma tentativa incivil de impedir que Joe Biden fosse confirmado como presidente dos Estados Unidos.

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Os peões, a tropa de choque, integram o movimento MAGA (acrônimo de Make America Great Again, o lema do mandato de Donald Trump), mas a retaguarda ideológica corresponde a velhos conhecidos no mundo da extrema direita, da direita alternativa, ou alt-right, e do movimento supremacista branco, como ficou evidente pelas bandeiras confederadas que alguns manifestantes agitavam. A tropa de choque incluía Ashli Babbitt, 35, uma veterana da Força Aérea que foi ferida por um tiro de um policial e morreu pouco depois no hospital. Três outras pessoas, cujas identidades ainda são desconhecidas e sobre as quais não há informações nem mesmo nas plataformas da extrema direita na Internet, precisaram de atendimento médico de emergência durante a invasão e acabaram morrendo.

Que o FBI peça ajuda para identificar os agitadores não é surpreendente: muitos entraram no Capitólio disfarçados de personagens dos mais raros, e não por capricho do figurinista, que produziu um elenco a meio caminho entre Coração Valente e Dersu Uzala, mas pela necessidade de esconder as armas de fogo que depois sacaram dentro do edifício.

Dado que o espetáculo de quarta-feira não é o primeiro ― e para muitos, não será o último, mesmo com Donald Trump fora da Casa Branca―, a lista de insurgentes abarca os habituais suspeitos do trumpismo. Em primeiro lugar estão os Proud Boys, um grupo da direita alternativa cujo líder, Enrique Tarrio, foi preso na véspera do ataque por vandalizar símbolos do movimento Black Lives Matter em uma igreja da comunidade negra, precisamente durante um comício anterior de Trump.

O FBI vincula o grupo, que o presidente republicano sempre evitou condenar, ao nacionalismo branco e ao exercício militante da misoginia. Formado somente por homens, depois de beber nos esgotos do ódio da Internet, ocupou o centro das atenções nos tumultos de Charlottesville em 2017, quando um neonazista jogou seu carro contra uma manifestação antirracista, matando uma pessoa e ferindo cerca de vinte.

Os Proud Boys surgiram em 2016, ano em que Trump ganhou a eleição. Data da mesma época o movimento QAnon, ainda mais viscoso e inespecífico ― isto é, menos articulado― do que os Proud Boys. Suas teorias sobre a existência de uma rede de pedófilos que satisfaz as elites mundiais e sobre a substituição da civilização branca pela imigração em massa de outras raças não só se enraizaram no corpo e no discurso dominante do Partido Republicano, como também estão ligadas a numerosos atos de violência e conspirações desse terrorismo considerado até recentemente de baixa intensidade, o doméstico, mas que já constitui uma ameaça maior do que o islamista.

Os Proud Boys e o QAnon se desenvolvem no pântano do movimento Boogaloo. A meio caminho entre corrente cultural e milícia, esta doutrina partidária em favor de provocar uma segunda guerra civil viveu a sua consagração em 2020. Porque outra das características deste magma ultrapopulista é que, durante o mandato de Trump― e também graças a ele―, deixou de estar relegado aos confins da Internet para alcançar um protagonismo que chega até horário nobre da televisão, como demonstra a transmissão ao vivo do assalto ao Capitólio.

Todos eles compartilham a visão messiânica do redentor obrigado a impedir os atos do mal (uma suposta fraude eleitoral ou o suposto controle de uma vacina) em benefício de uma massa indefesa diante do poder das elites. Mais do que ideologia, exalam um estado emocional, em episódios de radicalização em massa ― 75% dos republicanos acreditam que houve roubo das eleições ― que os retroalimentam tanto como as arengas insidiosas de Trump. “O republicano perdeu a presidência, mas ainda tem seu exército”, concluiu uma análise de um blog de informações políticas no site da rede de televisão NBC na quinta-feira.

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