Pandemia de coronavírus

O Sul do Brasil encontra a face mais dura da pandemia

Região que tinha a seu favor um sistema de saúde mais forte, e onde o vírus demorou mais a ganhar força, agora tem hospitais lotados, fila de espera por UTI e dificuldade para contratar profissionais de saúde

Equipe médica socorre um paciente com covid-19 internado em estado grave na UTI do hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, em 19 de novembro.
Equipe médica socorre um paciente com covid-19 internado em estado grave na UTI do hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, em 19 de novembro.DIEGO VARA / Reuters

Quando a pandemia do novo coronavírus começou a se espalhar pelo Brasil no início do ano, a região Sul parecia ter armas privilegiadas para contê-la. Tinha sistemas de saúde mais fortes diante da conjuntura de desigualdade que assola o país e via a pandemia crescer de forma mais lenta. Governantes impuserem restrições para frear contágios e ter tempo de preparar o sistema de saúde. Enquanto ampliavam leitos hospitalares, a curva de novos casos ainda seguiu achatada até o início de junho, na contramão da maioria das regiões do Brasil. Depois disso, o país demonstrou um breve arrefecimento da pandemia, mas agora observa uma nova alta, que tem um certo protagonismo do Sul. Juntos, os três Estados que formam a região são responsáveis por um terço de todos os novos casos registrados no Brasil durante a última semana epidemiológica ―que vai de 13 a 19 de dezembro. Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina também concentram 26% das mortes registradas neste período, segundo dados do Ministério da Saúde.

O índice de contágio no Sul do Brasil chegou a ser o maior do país em novembro (1,8) e conseguiu reduzir a 0,95 no dia 13 de dezembro, a data mais recente do monitoramento do Info Traker, ferramenta que acompanha o avanço dos casos de covid-19 no país. Este índice indica uma possível desaceleração de novos contágios, mas na prática a região vive uma situação complicada ―com hospitais lotados, fila por uma UTI em alguns locais e dificuldade de contratar mais profissionais de saúde para ampliar a assistência. De região menos afetada pelo coronavírus, foi a uma das mais preocupantes e agora vive situação tão grave como em outros locais do país. Dados da mesma ferramenta apontam que o Sul tem o maior tempo médio de resolução de casos de hospitalizados do país, de 20 dias, assim como o Nordeste.

O Paraná tem sentido uma forte pressão da covid-19 sobre seu sistema de Saúde. Na última semana, a população do noroeste do Estado viu os leitos atingirem sua capacidade máxima e se criar uma fila de espera para receber cuidados intensivos. O Estado até suspendeu a desativação de leitos de UTI específicos para o tratamento da doença no mês passado, mas ainda assim tem uma taxa de ocupação de 89%. Em Curitiba, a capital, esta taxa sobe para mais de 90%. E há problemas para ampliar a assistência. Na região oeste do Estado, respiradores e monitores ficaram parados por conta de dificuldades para contratar profissionais de saúde.

O Paraná é o Estado que apresentou os piores indicadores da região na última semana: somou 44.567 novos casos e 507 mortes por covid-19. O Governo estadual trabalha para ampliar leitos antes da temporada do verão, e o governador Ratinho Júnior (PSD) tem feito apelos para que a população colabore com o distanciamento social. Há uma forte preocupação com os festejos de Réveillon. No ano passado, somente Guaratuba, Matinhos e Pontal do Paraná ―no litoral paranaense― reuniram juntas mais de 2,5 milhões de pessoas nas festas da virada. Nesta terça (22), o Governo de São Paulo estabeleceu que a cidade de Presidente Prudente ―próxima ao norte do Paraná― retome à fase mais restritiva da quarentena. Diante da subida de casos e da escassez de leitos hospitalares, só serviços essenciais estão liberados na região.

O Rio Grande do Sul, que tem uma população semelhante ―também em torno de 11 milhões de habitantes, como o Paraná― também vê os casos de covid-19 acelerarem. Com 29.008 novas infecções e 485 óbitos na última semana, o Estado está com 81% dos leitos de UTI ocupados. E 96% da população está em elevado risco de contágio, em localidades na bandeira vermelha das medidas de distanciamento social. A capital Porto Alegre, com cerca de 90% de lotação de leitos de UTI, se preparava para o risco de ver seu sistema de saúde colapsar em janeiro, mas, diante da velocidade de contágio, prevê que o esgotamento pode chegar antes. Porto Alegre até conseguiu reativar cerca de 60 leitos nas últimas semanas, mas enfrenta problemas para continuar a ampliação diante da dificuldade de contratação das equipes de saúde. Como alternativa, estuda ampliar restrições ao comércio na semana do Natal.

Santa Catarina, cuja população é de cerca de 7 milhões de pessoas, também vivencia a alta de casos de coronavírus. O sistema de saúde sofre uma pressão preocupante: 87,6% dos leitos de UTI do SUS estão ocupados. Ainda assim, as medidas restritivas foram afrouxadas nesta semana. Das 16 regiões do Estado, 15 estão classificadas como em risco gravíssimo para a doença. Mas mesmo assim cinemas, eventos com público e congressos passaram a ser permitidos, ainda que com o máximo de 30% do público. Hotéis podem operar com 100% de sua capacidade, apesar dos números.

“O Governo de Santa Catarina está atento ao sentimento dos catarinenses e à luta por um equilíbrio entre o enfrentamento da pandemia e o bem-estar socioeconômico”, argumentou em nota a gestão estadual, que considerou a presença de turistas no Estado uma “realidade inexorável, para a qual não se pode fechar os olhos”. O caso foi parar na Justiça, que deu 48h, a partir desta terça, para que o Estado amplie as restrições e suspenda a permissão para 100% da ocupação hoteleira. Em caso de descumprimento da decisão judicial, sofrerá pena de multa diária no valor de 10.000 reais.

O litoral catarinense, que tradicionalmente vê suas praias lotarem de turistas para as festas de Réveillon, teve seus shows musicais e pirotécnicos cancelados pelos prefeitos ― é o caso, por exemplo, das festas da virada em Florianópolis e Balneário Camboriú. Com o início do verão, o cenário observado no litoral catarinense tem sido o de praias cheias, apesar dos altos índices da pandemia. A ocupação da UTI para covid-19 do Hospital Municipal Ruth Cardoso, de Balneário Camboriú, está acima de 90%. Na região metropolitana de Florianópolis, a taxa de ocupação dos leitos de UTI do SUS é de 81,3%. A capital catarinense chegou a ficar quase um mês sem registrar nenhuma morte por covid-19 em maio, mas agora sente a pressão da pandemia. Para tentar conter o avanço do vírus, a prefeitura tem intensificado o trabalho de triagem a turistas.

Na tarde desta terça (22), viralizou um vídeo do presidente Jair Bolsonaro pescando com o apresentador Ratinho. Ambos estão em um barco com outras pessoas, sem usar máscaras ou respeitar as normas de distanciamento. Bolsonaro tem passado alguns dias em São Francisco do Sul sem agenda oficial, depois de visitar o Estado pelas fortes chuvas que deixaram 15 pessoas mortas. Na segunda-feira, também provocou aglomerações após um mergulho no mar. Bolsonaro chegou a cumprimentar a população, tirar fotos e pegar crianças no colo. Na última live, o presidente já havia anunciado que tiraria alguns dias de folga para pescar.

O protagonismo da região Sul neste momento de repique da pandemia mostra que agora todas as regiões brasileiras vivenciam cenários de transmissão preocupantes, já que as velocidades muito diversas do começo da crise no imenso território nacional se aproximaram. O cenário projetado para todo o país no início do ano que vem tem levado gestores de todas as regiões a ampliaram as medidas restritivas, especialmente por conta das festas de fim de ano. Nunca é demais lembrar os cuidados preventivos, como o uso de máscara, higienização das mãos e medidas de distanciamento.

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