Assessor de braço direito de Bolsonaro é investigado por suspeita de incitar ameaças contra Debora Diniz

Secretário do deputado Helio Lopes e tido como integrante do “gabinete do ódio”, Guilherme Julian foi responsável por alavancar campanha digital bolsonarista no Ceará

Guilherme Julian em reunião com o vereador Carlos Bolsonaro.
Guilherme Julian em reunião com o vereador Carlos Bolsonaro.Reprodução

Vivendo fora do Brasil desde 2018 por causa de seguidas ameaças de morte, a professora e antropóloga da Universidade de Brasília (UnB), Debora Diniz, processou o secretário parlamentar Guilherme Julian Victor Freire, 28, por injúria, difamação e ameaça. Ele trabalha no gabinete do deputado federal Helio Lopes, braço direito do presidente Jair Bolsonaro, e é integrante do grupo que coordena redes sociais bolsonaristas, investigado na CPI das Fake News como “gabinete do ódio”.

No processo a que o EL PAÍS teve acesso, Guilherme Julian é apontado como criador da página União Nacional dos Estudantes da Direita (UNED), que, em junho de 2018, publicou um post em que chamava Debora Diniz de “monstro” por defender a descriminalização do aborto. Por ordem judicial, o Facebook forneceu os dados dos administradores da página à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), do Distrito Federal. Em depoimento à polícia, Julian disse que, na época da postagem, já não controlava mais a página e citou que um amigo, André Luiz Ferraz Pereira, conhecido como Dell, teria sido o autor da publicação.

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Além de Dell e Julian, também é acusado na representação criminal, protocolada em fevereiro deste ano, o pai do secretário parlamentar, José de Arimateia Souza Freire, que mora em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza, pelo fato do provedor de internet utilizado para fazer postagens da UNED estar em seu nome. No inquérito policial, apenas Dell acabou indiciado por crimes de injúria e difamação. Porém, a Justiça acatou pedido do Ministério Público do Ceará para incluir Julian e seu pai no processo e apurar suposto envolvimento em incitação de ameaças contra Debora Diniz.

No fim de 2018, a ativista por direitos das mulheres, que é colunista do EL PAÍS, foi incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Governo federal e deixou o país após receber dezenas de ameaças de morte. Os ataques via redes sociais começaram em maio daquele ano, quando ela idealizou uma ação no STF pela descriminalização do aborto até a 12ª semana de gravidez. Em agosto, as ameaças se tornaram mais contundentes, com e-mails anônimos que expunham seus dados pessoais e endereços de familiares. “Não saí do Brasil porque fui ameaçada, mas para proteger outras pessoas. Se as ameaças fossem somente contra mim, eu jamais sairia”, conta Diniz, que, mesmo exilada em Nova Iorque, teve seu paradeiro descoberto por agressores e continua sendo ameaçada.

A reportagem tentou falar com Guilherme Julian, mas ele não retornou aos contatos. Depois de sofrer uma operação de busca e apreensão em sua casa de Caucaia, em dezembro de 2018, ele alegou no depoimento à polícia que, um ano antes da postagem contra Debora Diniz, havia deixado de ser administrador da página União Nacional dos Estudantes da Direita. Por ter admitido a autoria da publicação, Dell foi o único indiciado pelas autoridades policiais. A investigação identificou ainda outro usuário acusado de ameaçar a ativista: H. G. M., 44, do Paraná, denunciado pelo Ministério Público por injúria e ameaça devido a uma mensagem intimidatória enviada pelo Facebook. “É preciso saber quem faz a movimentação desse ecossistema de ódio”, afirma Diniz. “Infelizmente, os agressores não costumam deixar rastros nem indícios de uma célula de articulação do movimento.”

De agitador da direita cearense ao “gabinete do ódio”

Em publicações de suas redes sociais, Guilherme Julian sempre se engajou em campanhas que intituladas “antiabortistas” e manifestou oposição ao feminismo. Mas foi criando e alimentando páginas de extrema direita que o estudante de administração ganhou notoriedade no Ceará. Depois de uma visita do então deputado federal Jair Bolsonaro à capital cearense, em 2015, e de se aproximar do filho do parlamentar, Carlos Bolsonaro, ele fundou no fim daquele ano o movimento Endireita Fortaleza. Os memes que faziam sucesso nas redes extrapolaram a militância e se converteram em um negócio.

Julian, que vivia de clicar ensaios fotográficos, abriu a empresa “Mituz”, que comercializava camisetas com estampas favoráveis a Bolsonaro e lemas da direita ultraconservadora. Sua capacidade de mobilização na internet rapidamente seria reconhecida pela família do pré-candidato à Presidência. Em um vídeo, o próprio Bolsonaro admitiu que o Endireita Fortaleza foi “um dos pioneiros nessa criação dos grupos de WhatsApp”.

No início de 2017, Carlos Bolsonaro reuniu integrantes do movimento ao recrutar mobilizadores digitais que se mostrariam decisivos na campanha presidencial do ano seguinte. Ao celebrar a adesão a manifestações de rua convocadas pelo grupo em Fortaleza, Julian se referia a Bolsonaro como “chefia” e gaba-se de ser seguido pelo perfil do candidato a presidente, que vez ou outra, inclusive, curtia e comentava seus posts no Instagram.

Além de atos a favor de Bolsonaro, o Endireita também divulgava entrevistas com militantes antiabortistas e organizava eventos de promoção da extrema direita no Ceará. Em um deles, levou a Fortaleza uma palestra do influenciador bolsonarista Bernardo Küster, realizada no ano passado. O youtuber é apontado no inquérito policial da Deam como autor de vídeo, publicado em novembro de 2017, “que atribui fato ofensivo à honra” de Debora Diniz. Embora o documento indique que o vídeo tenha desencadeado os primeiros ataques e ameaças à ativista, Küster não chegou a ser investigado pela polícia.

Já formado em administração e com Bolsonaro eleito, Julian, mesmo alvo de operação de busca e apreensão em sua cidade natal, recebeu no fim de 2018 o convite para integrar o gabinete de Helio Lopes. Ele tem salário de 6.181 reais no cargo de secretário parlamentar. Outros cearenses de Caucaia que administram páginas bolsonaristas no Facebook também ganharam emprego em Brasília, casos de Henrique Rocha, outro assessor de Lopes, e José Mateus Sales Gomes, que, antes de compor o gabinete presidencial, assessorou diretamente o vereador Carlos Bolsonaro, alvo da CPI das Fake News como suposto articulador do gabinete do ódio. A atuação coordenada em rede, de acordo com investigações no Congresso, seria responsável por direcionar ataques de milícias digitais a opositores e ex-aliados do presidente.

Em que pese o expediente em Brasília, Julian permanece influente no Endireita Fortaleza. Atualmente, o principal alvo do grupo é o governador Camilo Santana (PT-CE), chamado de ditador pelo movimento que se opõe às medidas de isolamento social decretadas por causa da pandemia de coronavírus. Em alusão ao rótulo popularizado pela CPI, apelidou a articulação pró-Bolsonaro no Ceará de “gabinete do amor”. Na época da campanha, ele se orgulhava das mensagens de deferência que recebia de Carlos Bolsonaro, a quem define como “meu ídolo”. Fazia questão, entretanto, de negar que o engajamento visasse lucro. “Não tem dinheiro de partido, de político, nada. É o clamor da população”, afirmou ao liderar uma das carreatas bolsonaristas em Fortaleza às vésperas das eleições.

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