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Derrubada de rede bolsonarista é “ação de relações públicas” de Zuckerberg, diz antropólogo

Para a pesquisadora Luiza Bandeira, que colaborou com rede social na identificação de perfis de desinformação, suspensão deveria incentivar novas investigações

O presidente Jair Bolsonaro segura um papel com captura de tela de WhatsApp, no dia 4 de maio.
O presidente Jair Bolsonaro segura um papel com captura de tela de WhatsApp, no dia 4 de maio.UESLEI MARCELINO / Reuters

A suspensão de páginas no Facebook e no Instagram promovida pela empresa de Mark Zuckerberg atingiu parte importante de uma rede ligada a Jair Bolsonaro que manipula informações para “criar narrativas que são muito positivas para o presidente e muito negativas para quem discorda dele”. Além de enaltecer a figura do mandatário, essa rede destrói reputações de opositores, ex-ministros, magistrados do Supremo, entre outras figuras públicas. A conclusão é da jornalista e pesquisadora Luiza Bandeira, que trabalha Digital Forensic Research Lab, da Atlantic Concil, que colaborou com o Facebook na investigação desses perfis. No total, 88 páginas com milhares de seguidores foram derrubadas das redes sociais na quarta-feira, 8 de julho, o que colocou mais uma vez o sistema de propaganda ligado ao Planalto —o chamado gabinete do ódio— em xeque.

São perfis ligados a pessoas como Tércio Arnaud Tomaz, assessor especial de Bolsonaro, ou Alana Passos e Anderson Moraes, advogados ligados ao PSL, além de assessores ligados aos filhos do presidente. Algumas dessas contas, como Bolsonaro News e a Bolsonéas, possuíam milhares de seguidores. “Eles eram atores muito importantes na distribuição e amplificação dessas narrativas. São páginas que chegam a muitas pessoas”, explica Bandeira. Também foram suspensos perfis falsos, isto é, aqueles que utilizam fotos e nomes irreais; e os perfis duplicados, ou seja, várias contas de uma mesma pessoa que cumprem funções diferentes e ajudam a espalhar a desinformação.

“Diferentemente de outras ações similares, agora essas contas têm cara, têm CPF e CNPJ. São pessoas ligadas diretamente à figuras políticas”, explica David Nemer, especialista em Antropologia da Informática que estuda o território virtual que abriga o bolsonarismo. “Todo mundo sabe que perfis fakes e robôs estão atuando, o que a sociedade quer saber é quem está ligado a isso. Essa ação do Facebook foi uma forma de responder a esse anseio”, acrescenta. O temor dos governistas é que a ofensiva da rede social acabe por alimentar uma lenta, mas perigosa ação que investiga o uso de propaganda ilegal pela campanha de Jair Bolsonaro em 2018, ainda pendente de conclusão até hoje no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E também dê combustível ao chamado inquérito das fake news, que tramita no Supremo Tribunal Federal e é o principal ponto de fricção entre o Planalto e a cúpula do Judiciário.

Bandeira explica que a investigação começou dentro do próprio Facebook, que chegou à páginas que aparentavam estar tendo um “comportamento coordenado inautêntico”, o que significa que envolvia contas falsas e ações que quebravam as regras das redes sociais. A plataforma não repassa informações sigilosas como e-mail de cadastro e endereço de IPs. “Só trabalhamos com dados públicos. Então, a partir das contas que o Facebook me passou, eu precisava entender a relação entre elas. O que mostro em meu relatório é como essas ligações são visíveis”, explica Bandeira. “Em alguns casos encontramos ligações muito fortes. Eu consigo ver, por exemplo, que o e-mail do Tércio foi usado para registrar a página Bolsonaro News. E há outras relações mais fracas, como as curtidas dele em outras páginas que estavam nessa rede”.

Para David Nemer, o Facebook quebrou a rede de “distribuição para o consumidor final” —como, por exemplo, um grupo de família no WhatsApp. Essas pessoas por trás dessas contas, explica ele, estão envolvidas tanto na concepção de uma desinformação como em sua distribuição. “As hashtags e os memes são combinados dentro de grupos muito exclusivos no WhatsApp e no Telegram. Uma vez que as pautas são definidas, são compartilhadas em outros grupos de WhatsApp para que levem essas hashtags para as outras redes”, explica o pesquisador. “E essas mesmas pessoas têm acesso a contas inautênticas e a contas robôs que ajudam a levantar essas hashtags. E também a parlamentares influentes, como Carla Zambelli. Isso gera um efeito em rede. A desinformação vai se espalhando exponencialmente até chegar no WhatsApp das famílias”, completa.

Nemer e Bandeira concordam que as contas suspensas são apenas parte de uma rede ainda maior. “Me parece que não acontecia apenas no Facebook e no Instagram. Quando alguém fala mal de Bolsonaro, a reação aparece em diferentes plataformas e em diferentes níveis”, explica a pesquisadora. “Há muitas páginas e muitas contas que espalham essas coisas. Tem que usar [essa ação do Facebook] para começar a investigar outros autores que podem estar envolvidos”, completa.

O presidente da CPMI das Fake News, senador Angelo Coronel (PSD-BA), apresentou um requerimento pedindo que o Facebook envie os dados de todas as contas canceladas para embasar futuras investigações do grupo, informa Afonso Benites. A ideia é entender se os alvos da ação da rede social cometeram crimes que devem ser investigados pela CPI ou se só infringiram as regras de conduta do Facebook.

Nemer explica que ação do Facebook não se restringe ao Brasil. A rede social também suspendeu recentemente mais de 400 páginas nos Estados Unidos, Canadá, Equador e Ucrânia. “Está havendo um boicote geral de empresas devido à inação do Facebook com relação ao discurso de ódio e propagação de fake news. A plataforma tem essas informações há muito tempo e nunca havia feito nada porque é lucrativo, a desinformação faz parte do modelo de negócio”, explica. Além disso, o Facebook vem perdendo seguidores entre as gerações mais novas e busca recuperar sua reputação. No Brasil, o Congresso também discute um projeto de lei para combater as fake news. As redes sociais são contrárias à medida, que pode acabar sendo muito custosa a elas. “A empresa tenta mostrar que está fazendo alguma coisa, tenta satisfazer várias frentes. Mas suspender 100 páginas não é nada”, argumenta o pesquisador. “É preciso ter cautela: essa ação não é nada mais nada menos que uma ação de relações públicas, sem efeito a longo prazo”.

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