“Consegui deixar a China e me impus uma quarentena de quatro dias no Brasil”

O EL PAÍS conversou com dois brasileiros que estão na China e outro que retornou a São Paulo. Eles relatam o cotidiano de apreensão diante da epidemia do coronavírus, além das dificuldades de retorno

Enquanto o Governo Jair Bolsonaro termina de preparar a repatriação de 29 brasileiros que estão confinados na cidade Wuhan, epicentro da propagação do coronavírus na China, outras centenas de brasileiros espalhados em outras localidades buscam meios de deixar o país ―algo não tão simples devido à enorme quantidade de cancelamentos de voos. Alguns deles conseguiram voltar, como o estudante Pedro (nome fictício), de 29 anos. Em agosto de 2018 ele se instalou em Hangzhou, capital da província chinesa de Zhejiang, para fazer um MBA. A cidade, a mais de 700 quilômetros de Wuhan e mais de 1.300 quilômetros da capital Pequim, fica, segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) do dia 5 de fevereiro, na segunda província chinesa onde coronavírus mais se espalhou, atingindo 895 pessoas. “Moro a 600 metros do hospital Xixi, que lá pelo dia 23 foi interditado. Não explicaram a razão nem o que estava acontecendo, mas pouco tempo depois soube que estavam deslocando os doentes de Wuhan para esse hospital”, conta Pedro. Ao saber que um vizinho acabou contraindo a infecção, não teve dúvida em comprar a próxima passagem de avião para o Brasil.

Pedro pegou um trem até Shanghai, um voo até Pequim e, de lá, no dia 27, finalmente deixou o território chinês. “Não passei por nenhum exame quando saí. Eles apenas pediram para preencher um canhoto perguntando se havia estado em Wuhan e pedindo dados de onde eu morava, nacionalidade e passaporte”, conta. Quando fez escala em Casablanca, Marrocos, enfermeiros checaram a temperatura dos passageiros, “como se fosse batida policial”, e aqueles que estavam com febre foram separados. Finalmente aterrissou no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, na última quinta-feira. “Quando eu cheguei no Brasil não tive nenhum tipo de controle, desci do avião e fiz todo o percurso de máscara”, conta.

O mesmo relatório da OMS aponta que, até o dia 5 de fevereiro, 24.363 pessoas foram infectadas pelo coronavírus em toda a China, das quais 491 morreram. A epidemia fez o organismo da ONU declarar emergência internacional na semana passada. Nesta terça-feira foi a vez do Brasil declarar emergência na saúde pública, apesar de nenhum caso ter sido confirmado dentro do território nacional. Um Projeto de Lei (PL), aprovado pela Câmara dos Deputados na noite de terça-feira e pelo Senado na tarde desta quarta-feira, centraliza no Ministério da Saúde as ações de contenção do coronavírus e regulamenta o período de quarentena para aqueles que podem ter contraído a infecção —sobretudo aqueles que chegam da China. Entre outras medidas, também autoriza o Executivo a adotar medidas emergenciais e a realizar exames médicos laboratoriais, coletas de amostras e vacinação de forma compulsória.

No entanto, quando Pedro aterrissou em São Paulo, ainda não havia nenhum tipo de diretriz ou protocolo a ser seguido. “Mas me impus uma quarentena de quatro dias ao chegar em casa. Não apareceu nada e hoje [terça-feira] foi o primeiro dia que estou saindo", conta. "Esqueci minha máscara, mas estaria usando. Não tenho planos de checar com um médico, a não ser que eu tenha algum sintoma”, acrescenta.

Pedro conta que sua maior dificuldade quando estava na China era “saber o que estava acontecendo”, já que havia “muita informação conflitante e divergente". “O Governo não preza pela transparência, então quando acontece uma crise desse tipo todo mundo fica com medo. Não dá para saber os números nem o que está acontecendo. Eu tinha que ficar triangulando informação com boatos de chats com o que a mídia internacional falava, para me situar e decidir o que fazer. Essa para mim foi a parte mais difícil”, conta.

Sua rotina antes de partir incluía usar máscara e luva e evitar aproximação com qualquer pessoa. Nas ruas e em pontos estratégicos, como estações de metrô, “há blitz de policiais com termômetro (em formato de revolver) para te parar a qualquer momento e tirar sua temperatura”, conta Pedro, que foi parado três vezes por agentes. Os comércios e empresas estão fechados ou funcionam em regime de home office. Apenas supermercados e farmácias estão operando. Nos primeiros, preço e abastecimento seguem normais. Mas nas drogarias já existe uma grande escassez de máscaras, cujo preço “se multiplicou por dez nas últimas duas semanas” devido à alta procura. “Saía de casa poucas vezes, só para comprar comida. Quase ninguém sai de casa, há um clima de paranoia no ar, imagino que algo parecido com uma guerra”, conta o rapaz. “Você não sabe em quem confiar, não sabe de onde pode pegar o vírus. Isso traz um desgaste emocional e psicológico muito grande.”

Outras pessoas não tiveram a mesma sorte de Pedro e continuam na China, apesar do desejo de partir. Mariana Queiroz, de 24 anos, também mora em Hangzhou e vem vivenciando nos últimos dias as novas medidas de restrição a circulação impostas pelo Governo chinês. “Hoje [quarta-feira] todas as ruas, inclusive a principal do metro, estavam interditadas, fechadas. Não conseguia me locomover”, conta ela. Na comunidade onde mora não é permitido sair mais de duas pessoas de casa, para passar pelo portão é preciso medir a temperatura e a partir das 20h já não é mais possível sair. Dificuldade maior enfrentam seus colegas da universidade que moram em alojamentos no campus e estão proibidos de deixar seus quartos, segundo conta. “Todos os restaurantes, lojas e shoppings estão fechados. O supermercado fica aberto só até 18h, e só é possível entrar de máscara e depois de medir a temperatura. Hangzhou parece uma cidade abandonada”, conta. Assim como outras pessoas, acredita que a cidade pode acabar fechada de vez, como aconteceu com Wuhan.

Mariana chegou na China em 2017 para começar sua graduação em Economia e Comércio Exterior. Está no terceiro ano da faculdade, de férias desde o 26 de dezembro. Depois de um ano e meio sem vir ao Brasil, planejava fazer uma surpresa para a sua família. Em novembro, antes de todo o pesadelo começar, comprou uma passagem da Turkish Airlines para o dia 16 de fevereiro. Quando foi tentar adiantar para o dia 4, viu que o bilhete havia sido cancelado. Foi preciso enfrentar alguns dias de filas enormes e telefonemas para a companhia para descobrir que ela não mais trocaria sua passagem. A empresa havia interrompido suas atividades. Depois disso, comprou uma passagem da Emirates. Mais uma vez cancelada. Dessa vez conseguiu trocar para o dia 6 saindo de Pequim. “A recomendação é de chegar com oito horas de antecedência. Está uma loucura, ninguém está conseguindo sair. O que mais quero é chegar no Brasil”, afirma, com a voz embargada.

Seu grupo de amigos brasileiros já conseguiu deixar a China, mas muitos deveriam retornar até o dia 10 e voltar a trabalhar. Não estão conseguindo. Já ela pretende aguardar no Brasil alguns meses até que possa voltar para Hangzhou e retomar os estudos. “Mas não pensei muito como será a volta, espero que tudo se normalize. O meu maior problema agora, o que está no momento me deixando com mais medo, é não conseguir voltar para o Brasil. Esta será minha última tentativa. Mas não quero ficar aqui. Eu estou tensa, a cidade e os transportes estão todos fechados, as máscaras estão acabando, e não dá para saber o que vai acontecer”.

Mais dificuldades em Guangzhou

A cerca de 1.200 quilômetros de onde mora Mariana, em Guangzhou, um grupo de cerca de 50 brasileiros passam por dificuldades de todos os tipos. Também desejam retornar o quanto antes. A cidade é capital da província de Guangdong, a terceira com o maior número de infectados ―870 até 5 de fevereiro, segundo a OMS―, e está próxima de Hong Kong. “Mais de 20 perderam o trabalho, estão com problemas financeiros e querem voltar para o Brasil”, conta o chefe de cozinha Alexandro Miguel Felipe, de 43 anos. Ele mesmo está parado há seis meses. Quando estava acertando sua contratação com uma empresa, “começou esse vírus e cancelaram tudo”.

Natural de Santa Catarina, vive há 23 anos na cidade, motivo pelo qual é procurado por outros brasileiros, segundo conta. A maioria ali trabalha em restaurantes, bares e boates. "Mas estão falando que vai ficar tudo parado até março ou abril, porque os bares e restaurantes não vão funcionar. As pessoas que estão sendo demitidas e não estão recebendo nenhum tipo de ajuda de seus patrões”, relata.

Entre os que estão passando por dificuldades, ele cita uma família com crianças de três a seis anos, além de uma mulher com um filho de três meses. “Sua patroa chinesa não quer pagar o salário e ela não tem como trabalhar. Está desesperada. Alguns de nós estamos ajudando a comprar leite para o filho dela, mas é o suficiente apenas para quatro dias. Também estamos com dificuldades, ajudamos como podemos”, relata.

Por outro lado, as pessoas que seguem trabalhando estão com medo de retornar ao Brasil, ficar em quarenta e acabar perdendo o emprego na China. Casado com uma chinesa, tem com ela um filho de 16 anos. Pretende voltar para o Brasil e diz que ao menos o adolescente poderia ir junto, já que possui nacionalidade brasileira. “Mas se tudo acabar bem em alguns meses, com certeza a gente voltaria. Aqui tenho família, tenho minha casa.”