Suécia suspende pesquisa que estendia gestação para além de 41 semanas após a morte de seis bebês

Estudo comparava indução do parto na 42ª e 43ª semanas de gestação. Ginecologistas defendem que a gravidez seja interrompida já na 41ª

Uma mulher grávida, na habitação de um hospital.
Uma mulher grávida, na habitação de um hospital.

Pesquisadores suecos decidiram interromper um estudo científico com grávidas depois da morte de seis bebês. O ensaio clínico, envolvendo mulheres que superavam o limite de 40 semanas de gestação, comparava os resultados de induzir o parto na 42ª semana de gravidez ou esperar até a 43ª. Cinco mortes fetais e outra de um recém-nascido levaram ao cancelamento do estudo no ano passado porque “não era ético” continuar, mas os pesquisadores ainda não divulgaram os resultados do ensaio clínico. Ginecologistas espanhóis consultados concluem que este estudo confirma o que já se faz no dia a dia na Espanha: a partir da 41ª. semana, os médicos recomendam a indução do parto para evitar riscos de mortalidade e complicações para o feto e a mãe.

O gravidez dura 280 dias a contar do primeiro dia da última menstruação. Ou seja, 10 meses lunares (40 semanas). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a gestação é considerada dentro do prazo até a semana 42, mas, à medida que se superam as 41 semanas, o risco para o feto aumenta exponencialmente. “Uma das problemáticas que temos é até quando temos que manter uma conduta de espera com a gestante. A partir da semana 41, um em cada 1.000 fetos morre dentro do útero. Na semana 43, são 2,12 em cada 1.000”, adverte Juan Luis Delgado, coordenador da Seção de Medicina Perinatal da Sociedade Espanhola de Ginecologia e Obstetrícia. Mas não há uma diretriz comum entre os países: a Espanha recomenda induzir o parto na semana 41, mas a Holanda e Suécia, por exemplo, fazem-no na 42. De fato, os suecos têm a percentagem mais alta de partos a partir das 42 semanas (7%).

Os dados do estudo sueco SWEPIS ainda não foram divulgados, mas a tese de doutorado de uma das pesquisadoras, Anna Wessberg, já antecipa algumas conclusões. “Os resultados não mostraram mortalidade perinatal no grupo de indução precoce em comparação com seis mortes perinatais no grupo de manejo espectante. Em conclusão, é vantajoso induzir na 41ª semana de gestação, em comparação com a indução na 42ª semanas, sem aumentar o risco de cesárea ou parto vaginal instrumental”, argumenta Wessberg.

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O protocolo do estudo, publicado em 2016, quando foi iniciado, previa recrutar 10.038 mulheres e dividi-las em dois grupos: se não parissem espontaneamente antes, a um dos grupos teria o prazo induzido ao final da semana 41, e outro ao final da semana 42. Conforme antecipou o The Guardian, quando o estudo foi interrompido, em outubro de 2018, só havia incluído um quarto das gestantes previstas. O EL PAÍS tentou, sem sucesso, contatar os pesquisadores da Universidade de Gotemburgo e o hospital Sahlgrenska, que coordenou o estudo. “Os pesquisadores comentarão os resultados assim que forem publicados”, limitou-se a dizer uma porta-voz do hospital.

Para os ginecologistas espanhóis, este estudo não mudará sua prática clínica na Espanha, mas dará argumentos aos médicos para dissuadir as mães relutantes a intervirem no parto depois das 41 semanas. “Este estudo tenta definir o benefício de induzir ou esperar. Induzir também tem um custo e incrementa a taxa de cesáreas. Acredito que o estudo seja pertinente. Ele nos confirma que nossa filosofia é a correta”, avalia Elena Carreras, chefa de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Vall d’Hebron, em Barcelona.

A grávida manda

Contudo, insistem os médicos, quem manda é a grávida. “Há suficiente evidencia de que provocar o parto a partir da semana 41 eleva o benefício e não aumenta os riscos. Mas, se a mulher não quer, é preciso respeitar. Porém, intensificamos os controles a cada 48 horas”, observa Lola Gómez, chefa de Obstetrícia e Ginecologia do hospital pediátrico Sant Joan de Déu, também de Barcelona. Segundo Delgado, induzir o parto durante a 41ª. semana reduz em 69% a mortalidade do feto em relação a manter uma atitude de espera. E também reduz em 28% o risco de macrossomia (que o feto seja muito grande na hora do parto).

A pertinência do estudo sueco também abre outro debate sobre a maior ou menor intervenção médica na gravidez e parto. “Vivemos muito pressionados pelos medos da grávida. Por um lado, as que querem finalizar o quanto antes para ter ao bebê logo e, por outro, as que não querem intervir. É uma situação pendular e é preciso procurar o equilíbrio”, avalia Delgado. A indução aumenta o risco de cesáreas, uma prática que a comunidade científica quer reduzir. Mas, além das 41 semanas, a placenta é incapaz de sustentar o crescimento do bebê. “No norte da Europa há uma corrente de não intervenção. Na Holanda, Bélgica, Dinamarca e Inglaterra, fazem só duas ecografias durante a gravidez. Nós fazemos três porque há evidências de que uma ecografia na semana 36 permite detectar precocemente se o bebê deixará de crescer”, continua a obstetra.

Já Elena Rodríguez, porta-voz da associação espanhola O Parto é Nosso, insiste em que “é a mãe que precisa ponderar os riscos”. Em qualquer caso, admite, “atualmente há mais mulheres que querem outro tipo de atendimento, e uma equipe médica mais espectante”. “Há uma pressão das equipes de saúde para induzir o parto mais perto da semana 41 que da 42. E são cinco dias de margem que temos. Estamos a anos-luz dos nórdicos. Aqui somos muito intervencionistas”, acrescenta.

“Falta transparência nos resultados dos ensaios clínicos"

Itziar de Lecuona (Barcelona, 1976) é doutora em Direito e subdiretora do Observatório de Bioética e Direito da Universidade de Barcelona.

Pergunta. Quando se interrompe um estudo científico por razões éticas?

Resposta. A morte de uma pessoa é uma das razões. Ou que se descubra um fármaco que cure o que está sendo investigado. Há muitas causas.

P. Isso das mortes costuma ocorrer?

R. Não é habitual que haja mortes em um estudo. Mede-se tudo para que isso não aconteça.

P. Quais são os limites da bioética para iniciar um estudo científico?

R. A questão fundamental é a proporção de risco e benefício: o caráter benéfico e não maléfico. Que haja proporcionalidade, que se meça o risco/benefício e que haja um princípio de justiça. As garantias são que cumpre determinadas características metodológicas, ética e legais. O ensaio clínico é ultrarregulamentado, e os comitês de ética que precisam aprová-lo são os encarregados de revisar que tudo seja cumprido.

P. É obrigatório sempre publicar as conclusões?

R. Os resultados precisam ser publicados. Os negativos e os positivos. O responsável deve comunicá-los à autoridade competente e precisa revisá-los para que haja segurança e rastreabilidade.

P. É preciso publicar, mas são mesmo publicados?

R. Isso é o que não se cumpre em todos os casos. Publicam-se muitos resultados positivos, e nunca os negativos. Falta muita transparência e prestação de contas nos resultados dos ensaios.

P. A pressão social pode influir na decisão ou evolução de um ensaio?

R. Há pressão social, mas para isso está a integridade científica do profissional. É preciso buscar um equilíbrio. Por um lado, estão as expectativas em saúde que a sociedade tem, e por outro lado o método científico.