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Os Darín revivem o drama do ‘corralito’ argentino em novo filme

‘A Odisseia dos Tontos’, a história de perdedores que se vingam da injustiça, reúne pela primeira vez na tela os dois atores argentinos

Ricardo e Chino Darín, em setembro, em San Sebastián.
Ricardo e Chino Darín, em setembro, em San Sebastián.GORKA ESTRADA

Na Argentina chamam de gil àquelas pessoas trabalhadoras, boas, iludidas e um tanto ingênuas. Ricardo Darín e seu filho Chino não têm dúvidas. “Nós também somos um pouco giles. A maioria dos cidadãos do mundo é assim, porque sempre confiamos”, explicam os dois atores argentinos quase em dueto. Milhares desses cidadãos trouxas se viram enganados e esmagados pelo corralito (o congelamento dos depósitos nos bancos), adotado na Argentina em 2001. Dirigido por Sebastián Borensztein, A Odisséia dos Tontos (La Odisea de los Giles) adaptação do livro de Eduardo Sacheri La Noche da la Usina (prêmio Alfaguara em 2016), é um terno e divertido retrato dos perdedores que se vingam das injustiças cometidas por um bando de desalmados.

Ricardo (62 anos) e Chino Darín (30), também produtores do filme, lideram um elenco poderoso em que se destaca a presença de Luis Brandoni. O filme se tornou o último grande sucesso de bilheteria da Argentina, que o escolheu para representá-la no Oscar. Esta fábula sustentada na realidade, que narra a vingança de um grupo de pessoas diante da fraude que sofreram, estreou no Brasil no dia 31 de outubro.

Em um encontro com este jornal durante o Festival de Cinema de San Sebastian, onde A Odisseia dos Tontos foi apresentado na Seleção Oficial, Ricardo e Chino Darín estavam felizes, muito além da celebração de seu primeiro duelo interpretativo na tela. Também como produtores, estão diante de um projeto sonhado por muitos anos, no qual compartilham o trabalho com alguns dos melhores atores argentinos, orgulhosos de dar voz e vida a tantos cidadãos que foram afetados pelo corralito, um dos episódios mais traumáticos vividos pela Argentina em anos recentes.

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“Somos tão domesticados, tão acostumados a obedecer e seguir a corrente de uma sociedade de consumo que às vezes esquecemos quais são os nossos direitos. Nunca se deve baixar a guarda na defesa dos direitos. Os abutres sempre estão à espreita para se aproveitar de pessoas crédulas, ingênuas e decentes. Essas pessoas que trabalham e que movimentam o mundo”, diz Ricardo.

"Não sei se desfrutei tanto quanto agora quando o vejo", confessa Chino Darín sobre o trabalho com o pai. “Fiquei um pouco abalado pelo papel de produtor e pelo que significava trabalhar com meu pai. Comecei com um nível de tensão e responsabilidade de que me livrei depois. O que é verdade é que para mim foi um grande privilégio”, acrescenta, ante o olhar brilhante de Ricardo, que intervém: “Em uma cena compartilhada, se dois não querem, um não pode. É assim simples. O ator depende muito do que o outro nos deixa, do que nos entrega, da generosidade. É assim que a energia circula. Quando fomos capazes de nos liberar dessa enorme responsabilidade que tínhamos como produtores e focar no trabalho como atores, a sensação que tenho é que nos ajudamos muito.”

A Odisseia dos Tontos te faz mergulhar na lama para depois te resgatar. Não evita a dor, mas te faz lembrar dela. Há no filme a intenção de dessacralizar, lutar pela memória, de voltar a recordar uma situação tão trágica como a crise econômica. "Estava na hora de os mocinhos vencerem alguma vez", proclama Chino. “O melhor é como os espectadores pegaram essa história para si. Acho que o fator preponderante em tudo isso é que tem a ver com uma certa reparação emocional para todos aqueles que sofreram aquele desastre ou os que o viveram de maneira colateral. Tem algo de bálsamo”, diz Ricardo Darín. "Foi uma época que, apesar da amargura e do sentimento de injustiça permanente, fez disparar a imaginação de milhares de cidadãos diante da impotência", acrescenta Chino. Pai e filho falam, se interrompem, dialogam, olham um para o outro. “É preciso falar da dor, trazê-la para fora. Na Espanha, vocês sabem disso bem com o tema da memória histórica. Fazer uma catarse coletiva. Só assim é possível enfrentar o futuro. Nós argentinos sabemos bem. Temos a grande ginástica para passar por crises, sobreviver a elas e voltar a renascer.”