Opinião
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Dos apelos a presidente ao “fora Tite”, a ânsia coletiva que cultiva mitos para colher vilões

Bastaram dois tropeços em amistosos para o técnico ter a cabeça a prêmio na seleção

Tite cumprimenta Neymar em amistoso contra a Colômbia.
Tite cumprimenta Neymar em amistoso contra a Colômbia. (AFP)

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Primeiro, as redes sociais transformaram o substantivo “mito” em verbo. Se alguém alcançava um feito notável, rapidamente brotavam apressados em cravar que o sujeito “mitou”. Em seguida, na mesma velocidade que reinventam a linguagem, as correntes de Internet banalizaram a expressão. As “mitadas” passaram a ser diárias. Qualquer um pode virar mito, ainda que suas supostas façanhas não indiquem nada extraordinário. Nesse cenário de efemeridades, Tite também foi submetido a um processo de mitificação precoce. Notabilizado pelas conquistas no Corinthians, chegou merecidamente ao posto de técnico da seleção brasileira, onde se viu alçado ao pedestal de sumidade assim que recuperou o bom futebol tragado sob o comando de Dunga.

Quando o Brasil engatou uma sequência de nove vitórias consecutivas, encaminhando a classificação para a Copa do Mundo, era comum ouvir que Tite “mitava” no novo cargo. O mito da vez, ao menos na seara da pátria de chuteiras, inspirou memes que o apresentavam como presidente da República, tamanha sua popularidade. Virou estrela de campanhas publicitárias que aproveitaram seu poder de oratória para vender a imagem de um líder incontestável. Em menos de um ano no cargo, gozava de status de unanimidade, mesmo sem ter conquistado títulos pela seleção.

Veio a Copa de 2018. Neymar chegou à Rússia longe da plenitude física, a equipe se mostrou menos segura que o habitual e a queda nas quartas, para a Bélgica, selou o ponto de ruptura entre Tite e os torcedores. A partir de então, o Brasil nunca mais foi o mesmo. O time parece regredir com o passar do tempo. Nomes importantes para a reinvenção pós-Dunga, como Casemiro, Philippe Coutinho e Gabriel Jesus, agora já não inspiram tanta confiança. Neymar, desde que rumou para o PSG, acumula reveses na carreira, seja por lesões, individualismo ou comportamento, mas permanece intocável como referência do grupo, beneficiado pela complacência do treinador.

Tite jamais impôs resistência aos caprichos do craque. Pelo contrário, evitou enquadrá-lo em seu tão propalado código de conduta, fazendo vista grossa aos episódios de indisciplina no PSG, às simulações exageradas na Copa e até aos três meses sem jogar devido à última lesão, estendidos pelo litígio com o clube francês durante a janela de transferências. Neymar voltou como titular no empate contra a Colômbia. Ainda que reincida em atitudes no mínimo imaturas para um astro internacional de 27 anos, o camisa 10 sempre recebe afagos do técnico, como a faixa de capitão após sair chamuscado do Mundial.

Pela primeira vez, o Brasil de Tite encerrou uma rodada de amistosos sem vencer. A derrota para o Peru expôs, novamente, um treinador mais apegado ao resultado que aos experimentos no time. O lateral Jorge desfalcou o Santos no Campeonato Brasileiro, mas não entrou em campo nos Estados Unidos. Novidades na lista, Bruno Henrique e Vinicius Junior tiveram poucos minutos para mostrar serviço. Os tropeços pouco produtivos, no entanto, não deveriam servir como parâmetro definitivo de avaliação sobre o trabalho de Tite, muito menos para motivar pedidos de #ForaTite que começam a pipocar nas mesmas redes que, três anos atrás, o catapultavam ao patamar de presidenciável.

Apesar dos erros cometidos pelo caminho, Tite conduziu a equipe ao título invicto da Copa América, em julho, com direito a uma vitória contundente sobre a Argentina na semifinal. Lançou Everton Cebolinha, que preencheu a lacuna deixada por Neymar, mas foi poupado dos amistosos por causa dos compromissos do Grêmio na Copa do Brasil. Os apelos que antes insuflavam o técnico como presidente e hoje reivindicam sua demissão refletem um estado de ansiedade coletiva, potencializado pela instantaneidade dos meios digitais e o imediatismo típico do futebol, que cultiva mitos para colher vilões.

Há um horizonte promissor para a seleção, que vê o despontar de outros jovens talentos como Renan Lodi, Bruno Guimarães, Gerson e Matheus Cunha, até a Copa de 2022. Ciclo que deve ser conduzido pelo treinador brasileiro mais completo da atualidade. O momento é de pecar pela insistência em testes e caras novas, não por uma ideia conservadora que privilegie o resultado em jogos irrelevantes. Mas, de ídolo nacional a figura contestada, Tite sabe que, no futebol, a derrota é capaz de desmistificar todo tipo de mito, especialmente aqueles que brotam da euforia passageira indiferente ao tempo de maturação dos heróis.

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