Ronaldinho Gaúcho, o embaixador do turismo que não pode sair do país

Depois de apoiar Bolsonaro na campanha presidencial, pentacampeão do mundo assume função voluntária na Embratur mesmo com passaporte retido por dano ambiental

Ronaldinho se encontrou com Bolsonaro em junho deste ano.
Ronaldinho se encontrou com Bolsonaro em junho deste ano.Marcos Corrêa (PR)

A função é voluntária, não prevê remuneração e faz parte de um programa da Embratur em que personalidades exercem o papel de embaixadoras de atrações turísticas do Brasil. De acordo com o presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, o plano inicial é explorar o alcance das redes sociais do ex-craque, que acumulam mais de 100 milhões de seguidores. Nesta terça-feira, ele postou um vídeo promocional ressaltando que, entre outros atributos, o Brasil é o país do futebol e do Carnaval. A Embratur ainda estuda a possibilidade de Ronaldinho estrelar um reality show com turistas que desejam conhecer o país.

Por causa da condenação judicial, a escolha do astro para integrar o time de embaixadores gerou ruídos no Ministério do Turismo. Questionado sobre os critérios de seleção, um integrante da pasta conta que a nomeação de Ronaldinho virou piada entre os funcionários que se opuseram à sua indicação ao programa.

Segundo a Embratur, o cargo de embaixador do turismo é “honorário e simbólico”, sem implicações com os problemas de Ronaldinho na Justiça. Na cerimônia em que foi nomeado, o pentacampeão mundial comemorou a convocação para o novo desafio. “Espero poder ajudar, em todo lugar do mundo onde eu passe, a mostrar esse nosso país tão bonito por natureza, convidando o mundo todo a vir pra cá. É motivo de muito orgulho”, disse Ronaldinho, que também é embaixador internacional do Barcelona. Já seus advogados esperam que a função diplomática informal contribua para convencer autoridades a liberar o ex-atleta para viagens ao exterior, além de angariar apoio do Governo para pressionar Poder Judiciário. Em maio, o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou recurso que pedia a devolução dos passaportes.

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Ronaldinho e Assis foram condenados na ação em 2015. Após seguidas tentativas de cobrar o pagamento de multas e indenização, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul determinou a apreensão dos passaportes no fim do ano passado, mas os irmãos ignoraram as intimações. Ao se contrapor a um habeas corpus pela revisão da pena, o Ministério Público Federal apontou que os réus ridicularizavam a Justiça e a sociedade. Pouco mais de um mês depois da ordem judicial, em dezembro de 2018, eles entregaram os passaportes e, desde então, Ronaldinho deixou de cumprir sua intensa agenda de compromissos comerciais no exterior. Cobrado por patrocinadores, o ex-jogador aposta em mais uma investida no STF para retomar a rotina de viagens, agora também com a justificativa de cumprir a função como embaixador do turismo.

Antes de ter o passaporte retido, Ronaldinho se tornou uma das celebridades que aderiram à campanha de Jair Bolsonaro à presidência. Na véspera do primeiro turno, o ex-meia do Barcelona postou imagem com uma camisa da seleção e o número 17, revelando seu voto “por um Brasil melhor, desejo paz, segurança e alguém que nos devolva a alegria”. Dois dias antes, o irmão e empresário Assis fechou sua participação no Jogo das Estrelas, evento patrocinado pela rede Havan, cujo dono é apoiador do presidente, que lhe rendeu um cachê de 800.000 reais. Em junho deste ano, Ronaldinho conheceu o mandatário por quem fez campanha em um almoço no Palácio do Planalto, registrado em seu perfil no Instagram com a legenda “um prazer enorme encontrar nosso presidente”.

Presença recorrente em partidas de futebol, especialmente da seleção durante a última Copa América, Bolsonaro tem no Governo outro ex-jogador em função estratégica. Washington “Coração Valente”, ídolo de Fluminense e Athletico Paranaense, ocupa o posto de secretário nacional de Esporte. No caso do programa de embaixadores da Embratur, nomes ideologicamente alinhados ao presidente se destacam entre os escolhidos. O cantor Amado Batista declarou voto em Bolsonaro antes mesmo do lançamento da candidatura. Por sua vez, o mestre em jiu-jitsu Renzo Gracie se apresenta como promoter do Governo nos Estados Unidos. Recentemente, ao sair em defesa do presidente brasileiro, descreveu Emmanuel Macron, chefe de Estado francês, como “franga” e “palhaço”, além de ter ofendido a primeira-dama Brigitte Macron.

Depois da postagem em que recomendava voto em Bolsonaro, Ronaldinho evitou tecer mais comentários sobre política. No segundo turno presidencial, o ex-jogador que, em 2014, apoiara a candidatura de Aécio Neves (PSDB), não se manifestou nem votou porque estava em turnê pela Ásia. Apesar de negar interesse em concorrer a um cargo público, ele se filiou ao PRB – rebatizado como Republicanos – em abril do ano passado.