G7 anuncia fundo emergencial para Amazônia, mas Planalto planeja rejeitar verba

Incêndios ganham protagonismo na cúpula do G7 e líderes do bloco concordaram em providenciar 20 milhões de dólares de ajuda emergencial para combater as queimadas

O presidente francês, Emmanuel Macron, em Biarritz
O presidente francês, Emmanuel Macron, em BiarritzLUDOVIC MARIN (AFP)

A Amazônia preocupa os líderes mundiais. Tanto, que os incêndios que ameaçam o pulmão do mundo estão desde o primeiro momento nas reuniões dos mandatários do G7 em Biarritz, compartilhando agenda prioritária com questões como o Irã e a Rússia. Enquanto os outros assuntos continuam sendo fonte de tensões, a Amazônia parece ser talvez o único ponto de convergência.

Os líderes do bloco - Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido - concordaram em providenciar 20 milhões de dólares (cerca de 82.3 milhões de reais) de ajuda emergencial para combater os incêndios, segundo agências internacionais. Os recursos serão destinados principalmente para o envio de aviões Canadair de combate a incêndios, anunciou a presidência francesa, segundo a agência France Press. No final da noite de segunda-feira, no entanto, o palácio presidencial brasileiro confirmou à imprensa que o Governo Bolsonaro pretende rejeitar a ajuda, por considerá-la espécie de manobra para pregar um controle externo sobre a Amazônia. "Está muito evidente o esforço, por parte de algumas correntes políticas, de extrapolar questões ambientais reais transformando-as numa 'crise' fabricada, como pretexto para introduzir mecanismos de controle externo da Amazônia", disse o chanceler Ernesto Araújo um pouco antes. 

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A proposta francesa

Como havia adiantado o presidente francês e anfitrião do encontro, Emmanuel Macron, o que se procura é uma via para ajudar o Brasil e os outros países afetados “o quanto antes”. Uma ajuda imediata, mas, também, a longo prazo com o objetivo de “reflorestar” as vitais áreas devastadas.

“Há uma verdadeira convergência para dizer: ‘Estamos todos de acordo para ajudar o mais rápido possível os países afetados por esses fogos”, disse Macron em uma entrevista com jornalistas no domingo para informar sobre as conversas que continuará mantendo com seus pares internacionais até segunda-feira na cidade basco-francesa.

De acordo com o presidente francês, se trata de trabalhar em dois níveis. Um é imediato, em matéria de ações rápidas para apagar os incêndios, para o qual já foram iniciados os contatos com todos os países da Amazônia para falar das ajudas possíveis, de “meios técnicos e financeiros”, revelou.

O outro é mais a longo prazo, visando o “reflorestamento” das áreas devastadas. Para cumprir com os dois objetivos, o G7 procura algum tipo de “mecanismo de mobilização internacional para poder ajudar de maneira mais eficaz esses países”.

Rapidamente, Macron acrescentou: “Mas com eles”. O detalhe não é menor. Significa uma diminuição significativa do tom duro que o mandatário francês vinha utilizando em relação ao que desde o começo chamou de “crise internacional” e que o colocou em confronto direto com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, a quem acusou de ter “mentido” sobre sua intenção de cumprir os compromissos em matéria de meio ambiente. Uma situação que levou Macron até mesmo a ameaçar, na sexta-feira, bloquear o acordo de livre comércio que a União Europeia assinou em junho com o Mercosul, após quase duas décadas de negociações. “Nessas condições, a França se opõe ao acordo com o Mercosul tal como está”, disse a presidência francesa em Paris, a poucas horas do início dos encontros em Biarritz.

O problema para Macron é que ele se viu muito sozinho em sua aposta contra Bolsonaro. A Espanha foi um dos primeiros países a não apoiar essa ameaça, algo que continuou acontecendo em Biarritz. A chanceler alemã, Angela Merkel, que disse que “apoiava completamente” a ideia de Paris de que os incêndios da Amazônia fossem incluídos na agenda do G7, deixou claro em Biarritz que não respalda a ameaça francesa usando o Mercosul, que também não possui o respaldo entusiasta do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk.

De modo que agora o tom empregado é significativamente mais conciliador. De fato, ainda que tenha afirmado que a Amazônia é uma questão internacional porque afeta todo o planeta, se declarou consciente das “sensibilidades” dos países amazônicos e de suas inquietudes em matéria de soberania nacional. O que não significa, disse, que questões como o “reflorestamento” não devam ser tratadas em escala global. “O desafio da Amazônia, tanto para esses países como à comunidade internacional, é tão grande em termos de biodiversidade, de oxigênio, de luta contra a mudança climática que precisamos fazer esse reflorestamento”, disse, sem dar mais detalhes.

Anteriormente, o francês deu algumas pistas sobre o que seu país gostaria de ver no futuro mais imediato. Como disse ao site Konbini na sexta-feira, Paris deseja um compromisso para desenvolver “mecanismos de prevenção desse tipo de incêndios mais fortes”, e procurar a “boa governança” da Amazônia, um pacto que envolva não somente Estados, como também “ONGs e os povos autóctones”, afirmou.

Em um texto publicado no dominical Journal du Dimanche, a ministra francesa de Ultramar, Annick Girardin, e vários políticos responsáveis da Guiana Francesa —que, como lembrou Macron, faz com que a maior fronteira da França seja com o Brasil— propõem nesse sentido a criação de um “fundo internacional” que substitua o atual fundo da Amazônia do Brasil. A ideia, dizem os autores, é que esse novo fundo “não dependa diretamente dos Estados” e que, além disso, “possa, em função das somas arrecadadas, lançar ações de luta concretas, pontuais e dirigidas diretamente pelos atores locais para combater os incêndios e ao reflorestamento” das áreas danificadas.

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