Como mudar o sistema educativo para transformar o mundo

Educar em liberdade exige romper esquemas e crenças tradicionais

Claudio Naranjo, promotor do eneagrama da personalidade, propõe um novo modelo de formação para produzir mentes aguçadas.
Claudio Naranjo, promotor do eneagrama da personalidade, propõe um novo modelo de formação para produzir mentes aguçadas.

"Se queremos melhorar nossa sociedade, precisamos de pessoas mais completas. Isso é algo que só conseguiremos se mudarmos a educação”, afirma o chileno Claudio Naranjo, de 87 anos, ex-professor da Universidade Berkeley, psiquiatra, escritor cuidadoso e, possivelmente, um dos grandes sábios do conhecimento humano. Há décadas, iniciou uma cruzada para conseguir que a educação seja mais humanista e permita o desenvolvimento integral da pessoa. Elabora esse propósito através de uma formação em autoconhecimento, que já foi oferecida a mais de 100.000 pessoas de 10 países nas últimas décadas. Sua paixão é promover a transformação do sistema educativo e passar do modelo atual – patriarcal e hierárquico, que confere primazia a tudo relacionado com o intelecto – a um sistema integral que fomente o humanismo. Mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Na educação atual, as crianças e os jovens são tratados como meros espectadores que devem se ajustar a certos padrões. Poucas vezes têm a possibilidade de descobrir todo o seu potencial. Naranjo ilustra isso com uma metáfora: “A educação se parece mais com a jardinagem do que com a carpintaria.” Em sua opinião, enquanto um carpinteiro segue um plano preestabelecido sem se desviar, o jardineiro encara o mistério. Desconhece qual será o resultado do seu trabalho e deixa os espaços de liberdade ao ser que acompanha e ajuda. Quando se educa em liberdade, o resultado são mentes aguçadas, criativas, que não vivem pela metade e que não vão ao colégio só para ir bem na prova ou cumprir tarefas rotineiras. Para dar esse passo, contudo, é preciso tomar decisões importantes e corajosas que dependem de cada um de nós. Vejamos algumas propostas do nosso especialista.

1. Educar os educadores. Naranjo não se refere à formação em conhecimentos técnicos, como matemática e língua portuguesa, mas a aspectos mais profundos. Para isso, sugere que os professores entrem no mundo do desenvolvimento pessoal. Que vivam seu próprio processo de transformação, embora ensinem disciplinas de ciência pura. É difícil ajudar alguém a aceitar o erro, a superar seus conflitos e a não rotular os outros na primeira oportunidade se essa pessoa não trabalha antes as suas próprias dificuldades. Por isso, não surpreende que Naranjo tenha criado o programa SAT (“ser e verdade”, em sânscrito), formação que ministra através da sua fundação usando diversas ferramentas. Uma delas é o eneagrama, do qual Claudio é o maior estudioso e promotor mundial. Trata-se de um dos mapas humanos mais minuciosos. Graças ao eneagrama, é possível classificar a personalidade em nove tipos com subtipos correspondentes.

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2. Integrar os três cérebros na educação. Somos mais que o intelecto, mas a maioria dos sistemas educativos se concentra nessa parte. Naranjo propõe incluir uma vertente espiritual que nada tem a ver com a religiosidade, e sim com as emoções e o instinto – que tem sido profundamente penalizado, quando o mais adequado seria lhe dar um espaço, tê-lo como um aliado. Quando conseguimos isso, alcançamos níveis maiores de energia que nos ajudam a compreender quem somos de uma maneira mais completa.

3. Educar no humanismo. Num mundo tão tecnológico como o atual, é mais importante do que nunca regressar a aspectos essencialmente humanos, como o cultivo da paz interior, a generosidade e o amor próprio. Só assim podemos amar os demais. A sociedade foca em fazer boas provas no colégio e adquirir conhecimentos do mundo exterior, mas não em aprender a aceitar nossas sombras. Como resume Naranjo: “Quanta vida perdemos colocando na cabeça coisas que não servem para nada?”

4. Eliminar a superproteção. O excesso de perfeccionismo nos levou a gerar infinitas normas sobre como nossos filhos e alunos deveriam ser. Muitas vezes, aplicamos essas regras de forma inconsciente. O modelo educativo proposto por Naranjo baseia-se em reconhecer as crianças como pessoas, independentemente da idade, com direito de opinar e expressar o que sentem. Isso as ajuda a descobrir seu potencial sem a imposição de estereótipos.

5. Foco na comunidade. A educação é mais ampla do que aprender conceitos na escola. É o trabalho da sociedade em seu conjunto, em que todos agimos e somos responsáveis de uma forma ou de outra. O trabalho de impulsionar uma mudança na educação que sirva para transformar o mundo depende de cada um de nós.

Em suma, educar em liberdade exige romper esquemas e crenças tradicionais sobre crianças e jovens, mas também sobre a educação em si. O passo para a mudança começa com os educadores, pais, professores e a sociedade como um todo, que deve assumir o desafio e começar um crescimento interior. Essa é a proposta de Naranjo, uma pessoa muito querida e reconhecida que há décadas contribui para que este mundo seja um pouco melhor.

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