O horror da família Turpin, contado por um dos filhos: “Nunca saí à rua”

Promotoria apresenta detalhes estarrecedores de anos de cativeiro na audiência preliminar do julgamento contra os pais acusados de torturar seus 13 filhos na Califórnia

David Allen Turpin e Louise Anna Turpin, diante do juiz no dia 4 de maio de 2018.
David Allen Turpin e Louise Anna Turpin, diante do juiz no dia 4 de maio de 2018.

Na fotografia se vê uma menina pequena com cabelo comprido, jeans e uma camiseta rosa e listrada da Minnie Mouse. É Julissa Turpin, de 11 anos. Olha para o chão com expressão triste. É uma menina muito magra e com a pele muito branca. Em outra imagem está Joanna Turpin, de 14 anos. É possível ver sujeira em seu pescoço, e os pés, descalços, estão quase pretos. Estão em um quarto, acorrentadas a um beliche de madeira. Esta e outras fotos foram feitas em um celular por Jordan Turpin, sua irmã de 17 anos, que no dia 14 de janeiro fugiu da casa por uma janela para chamar a polícia. As fotos deveriam servir como prova do que iria contar aos agentes.

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Nesta quarta-feira, as imagens foram projetadas em uma tela do tribunal criminal número 44 de Riverside, no interior da Califórnia. O caso da família Turpin comoveu o mundo em meados de janeiro, quando o Ministério Público do distrito anunciou que tinha detido um casal que mantinha em condições de tortura 12 de seus 13 filhos, em uma casa de Perris, Califórnia. Até a audiência preliminar desta quarta-feira, o Ministério Público não havia apresentado ao público suas provas para acusar David e Louise Turpin de 12 crimes de tortura, mais um de abusos sexuais. O juiz Bernard J. Schwartz proibiu fotos e gravações dentro da sala.

A garota da foto, Julissa Turpin, estava no percentil 0,1 de peso para sua idade, e no percentil 0,67 de altura, segundo relatou na sala o investigador Patrick Morris. O diâmetro de seu pulso era o de um bebê de quatro meses e meio. O baixo nível de potássio e de glicose afetava o crescimento de seus músculos e o intelecto, disse Morris, citando relatórios forenses. “As enzimas do fígado estavam passando para o sangue, algo que se vê em casos de desnutrição severa.”

Morris e outros investigadores relataram de memória dados parecidos de altura e peso de todos os irmãos Turpin atendidos em hospitais após serem resgatados. Depois, projetaram fotografias de seus braços esquálidos. Estavam cheios de sujeira, menos em algumas zonas brancas. Era a marca das correntes.

Louise Anna e David Allen Turpin com os filhos.
Louise Anna e David Allen Turpin com os filhos.FACEBOOK

O juiz Schwartz e o público presente na sala também puderam escutar aquela chamada telefônica que acabou com o pesadelo. Jordan Turpin tinha conseguido um telefone celular que seu irmão mais velho, Joshua, havia jogado fora. Ele lhe havia dito que só servia para ligar para o 911, o número da emergência. Em 14 de janeiro, pouco antes das seis da manhã, saiu por uma janela de seu quarto. Disse seu nome e idade à atendente. “Fugi de casa.”

Quando a atendente perguntou-lhe seu endereço, Jordan Trupin leu uma sequência de nove números. Era seu código postal, mas ela achava que era um endereço. Finalmente lê de um papel o endereço completo. “Somos 16 pessoas na casa. Somos maltratados. Meus irmãos estão acorrentados.” Quando a atendente perguntou-lhe onde estava, Jordan Turpin disse: “Não sei. Nunca estive fora. Não sei os nomes das ruas”. Enquanto isso, a atendente avisa dois agentes do gabinete do xerife. Constata que a menina está ao lado do endereço que acaba de ler e pede que fique ao lado de uma placa de stop.

Nessa ligação, Jordan Turpin relata quase tudo o que se foi sabendo depois. “A casa está tão suja que às vezes não posso respirar.” Ela também conta que antes moraram no Texas, que seus pais os mantiveram em um trailer quatro anos sem aparecer por lá, anos em que cuidaram sozinhos de si mesmos.

O juiz escutou também da boca dos investigadores o impacto que lhes causou a sujeira e o mau cheiro de todas as crianças. Fotografias das roupas que usavam duas das meninas quando foram resgatadas mostravam uma quantidade de sujeira que fazia com que as roupas pesassem, segundo um deles. Tomavam banho uma vez por ano.

Nas entrevistas com os investigadores, as crianças relataram uma vida de espancamentos, abandono, sujeira e escuridão. Jordan se levantava às 23 horas e ia dormir às três da manhã. Não via a luz do sol. Dormia 15 horas por dia e só saía de seu quarto para comer, lavar as mãos e escovar os dentes. Para comer só havia sanduíches de manteiga de amendoim e burritos congelados. A mãe os chamava de um a um. Iam até a cozinha, comiam de pé um sanduíche e voltavam para seu quarto.

O objetivo da audiência preliminar é convencer o juiz de que há material para sustentar as acusações imputadas e, portanto, pode proceder ao julgamento. A audiência prosseguirá nesta quinta-feira com argumentos para cada um dos crimes contra o casal Turpin.