Ruth Ginsburg, a juíza americana de 86 anos que virou ícone da juventude

Enquanto no Brasil se hostiliza ministros do STF, documentário 'A Juíza' conta a história da juíza-sensação da Corte dos EUA que estampa canecas, camisetas e virou até tatuagem de jovens feministas

Bruxa. Malfeitora. Monstro. Antiamericana. Essas foram algumas das palavras usadas por políticos e magistrados estadunidenses —entre eles o atual presidente, Donald Trump— ao longo dos anos para descrever Ruth Bader Ginsburg, advogada que tornou-se a segunda juíza na história a ocupar uma cadeira na Suprema Corte dos Estados Unidos, posto que mantém até hoje, aos 86 anos. Em 2015, a figura —o cabelo preso em um pequeno rabo de cavalo na nuca, grandes óculos e golas de renda ou de cores brilhantes sobre a toga— e o discurso dessa defensora dos direitos das mulheres viralizaram, transformando-a em ícone millennial. Sua popularidade e sua trajetória, estampada em xícaras, bolsas, camisetas e até tatuada nos braços dos jovens, motivaram as cineastas Betsy West e Julie Cohen a realizar o documentário A Juíza, em cartaz nos cinemas brasileiros. Um contraste com a hostilidade atual aos juízes da Suprema Corte do Brasil.

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Antes de tornar-se magistrada na Suprema Corte, a notorious RBG, como ficou conhecida (um trocadilho com o rapper Notorious B.I.G.), foi uma advogada responsável por muitas das grandes sentenças contra a discriminação de gênero e que definiram padrões nos EUA. Em 1973, ela levou ao Supremo, formado apenas por homens, o caso que terminou com o duplo padrão das ajudas do Exército. O processo foi movido pela tenente Sharon Frontiero, que havia notado como seus colegas e esposas recebiam automaticamente subsídios de moradia, mas que eram negados a ela e ao marido. Ganhou. Dois anos depois, defendeu Stephen Wiesenfeld, um jovem viúvo que ficou responsável por um bebê. Quando este pediu ajuda à Previdência Social para criar o filho, a solicitação foi negada porque o benefício era destinado apenas para mulheres. Ginsburg levou o caso ao Supremo e venceu novamente, marcando um ponto de inflexão jurídica. Mostrou que a desigualdade de gênero era um flagelo social, tanto para homens quanto para mulheres. "Me sentia um pouco como uma professora do jardim de infância naquela época", revela ela no documentário, referindo-se a ter que explicar o óbvio a uma bancada de magistrados homens.

Em A Juíza, fica claro que Ruth Ginsburg nunca intimidou-se pelos padrões sobre quais lugares uma menina ou mulher deveria ocupar na sociedade. Quando criança, ela escalava os telhados das garagens com os meninos e ia pulando de um telhado a outro. Ao mesmo tempo, era "uma grande pensadora", de acordo com as amigas daquela época. Esse é o espírito que carrega até hoje —foi a primeira membro da Suprema Corte em falar abertamente a favor da legalização do aborto, por exemplo— e que fez com que virasse uma referência para os jovens. "À medida em que a Suprema Corte ficava mais conservadora, ela escrevia votos de discordância com os quais muita gente sentia-se identificada. Foi aí que começou o fenômeno da notória RBG. As pessoas esperavam ansiosamente na internet a publicação de seus votos", conta a EL PAÍS Betsy West, uma das responsáveis pelo documentário.

"Ela ganhou essa geração que se preocupa muito com justiça social e que realmente acredita em lutar contra injustiças e discriminações. Descobrir a juíza e sua história inspirou essas pessoas. E, apesar de não usar Twitter, Facebook ou Instagram, RBG se diverte com a fama e ri ao dizer que todo mundo quer tirar uma foto com ela", acrescenta West. Apesar de lidar bem com a repercussão de seu trabalho, a juíza Ginsburg recusou, inicialmente, em 2015, o convite das cineastas para gravar um filme sobre ela. Concordou, no entanto, em passar os contatos de pessoas importantes em sua vida para que concedessem entrevistas. "Acho que quando ela começou a ver essas conversas, ficou mais confortável com a ideia e passou a confiar mais em nós. Ninguém, nunca tinha feito um documentário sobre um magistrado da Suprema Corte, então era um pedido incomum e nós mesmas não sabíamos, no início, se esse projeto sairia adiante", revela West.

Cartaz de 'A Juíza'.
Cartaz de 'A Juíza'.

A diretora conta que RBG nunca pediu para ver o filme antes de que ele ficasse pronto e nunca exerceu nenhum tipo de controle sobre a produção. Ela assistiu o documentário na estreia no Festival de Sundance, em uma plateia com 500 pessoas. "Eu e Julie [Cohen] estávamos muito nervosas. Não olhávamos para o telão e sim para ela, para suas reações. Ficamos aliviadas ao ver que ela se emocionou, chorou um pouco e riu nas horas certas", diz West. 

Além de focar no seu trabalho, o documentário mergulha na intimidade da juíza mais famosa do mundo e fala de sua paixão pela ópera (já apareceu em mais de uma ocasião no palco, com roupas de época, e até mesmo interpretando um texto falado), de sua disciplina na academia (tem uma rotina de exercícios de dar inveja a qualquer moça de 20 anos e faz abdominais diariamente, depois de superar dois cânceres) e da convivência com o que foi o amor de sua vida, Marty Ginsburg, falecido em 2010. Um advogado de sucesso, o marido de RBG não hesitou em colocar a própria carreira em segundo plano e ficar em casa cozinhando e cuidando dos filhos para apoiá-la quando foi nomeada juíza federal, em 1973. "Ela sempre disse que escolher o par correto era uma das coisas mais importantes que uma mulher poderia fazer, por isso credita Marty por parte de seu sucesso. Ele era um homem à frente do seu tempo e entendia que o trabalho de Ruth de enfrentar a discriminação contra as mulheres era muito importante", diz a diretora.

Para West, outras lições que as jovens mulheres podem aprender com a juíza são persistência, determinação e não deixar-se intimidar pelos obstáculos. Afinal, Ruth Ginsburg foi uma das nove mulheres em uma turma de 500 homens na Faculdade de Direito de Harvard, em 1956. Na época, conciliava os estudos com o cuidado de uma bebê de 14 meses, sua primogênita. Só a ela e a cada uma de suas oito colegas o então reitor perguntou em um jantar por que achavam que deveriam estar lá, ocupando o lugar de um homem. No segundo ano da faculdade, Ginsburg estava entre os 25 melhores alunos. Quando, anos depois, formou-se na Universidade Columbia com um histórico de notas invejável, nenhum escritório de advocacia de Nova York sequer considerava contratar uma mulher. Tampouco conseguiu um posto de assistente no Supremo.

Hoje, a octogenária judia, de complexão frágil (ainda que sua energia e força física sejam enormes), é tratada como super-heroína pelas mulheres millennials. E apesar de a palavra feminismo não aparecer uma única vez no documentário que a homenageia, RBG considera-se uma "feminista orgulhosa", garante Betsy West. Não por acaso, uma de suas frases favoritas —e que repete com frequência— é de autoria da sufragista Sarah Grimké (1792-1873): "Não peço nenhum favorecimento por meu sexo. Tudo que peço aos nossos irmãos é que tirem os pés dos nossos pescoços".