‘Me Too’ chega ao centro do poder nos EUA

A batalha pela Suprema Corte dos EUA se tornou um teste para a força do movimento contra o assédio sexual. Em audiência no Senado, uma mulher declara que o juiz indicado, Brett Kavanaugh, tentou estuprá-la quando eram adolescentes

Christine Blasey Ford, durante sua declaração nesta quinta-feira no Senado.
Christine Blasey Ford, durante sua declaração nesta quinta-feira no Senado.WIN MCNAMEE (Getty Images)

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Trump mudou sua agenda para acompanhar a audiência pela televisão. Centenas de mulheres protestaram no edifício do Senado e nas ruas, enquanto os analistas políticos passaram a manhã fazendo suposições sobre o efeito eleitoral que poderia ter uma eventual aprovação, por parte da maioria republicana, desta indicação irremediavelmente manchada pela sombra de abuso sexual. Christine Blasey Ford, professora de estatística e psicologia na Universidade de Palo Alto, completamente anônima até poucos dias atrás, estava narrando uma tentativa de estupro supostamente acontecida durante uma festa de adolescentes em uma noite de verão de 1982, em uma casa em Chevy Chase, um bairro rico dos arredores da cidade de Washington.

Um dos rapazes era Kavanaugh, o juiz conservador de 53 anos que os republicanos querem colocar na Suprema Corte. Quando Ford, então com 15 anos, estava indo para o banheiro, no andar superior, Kavanaugh, de 17, e um amigo, muito bêbados, a empurraram para dentro de um quarto. “Me deitaram na cama e Brett subiu em cima de mim. Eu gritei”, começou a dizer a mulher com a voz embargada. Para abafar seus gritos, continuou, Kavanaugh tampou-lhe a boca com uma mão, enquanto tentava despi-la com a outra. “Eu mal podia respirar e temia que Brett me matasse acidentalmente”, disse. Do que você mais se lembra daquele dia?, perguntou um senador democrata. E se emocionou: “Das risadas, como eles riram de mim, eram dois amigos se divertindo juntos”. Disse que o ataque a marcou por toda a vida. Tem a certeza de que era o juiz Kavanaugh? “100%”.

O dia ficará gravado na história do Senado dos EUA e também na memória da geração que viu a onda de protesto global contra o assédio, assim como um episódio muito semelhante de 1991 –a denúncia de Anita Hill contra o juiz Thomas Clarence– pesa desconfortavelmente no passado de legisladores republicanos e democratas pelo viés machista de suas perguntas. Depois do depoimento de Ford, que começou às 10 horas da manhã e terminou depois de duas da tarde, foi a vez de Kavanaugh. O juiz se defendeu do ataque. Com tom exasperado, às vezes choroso, negou tudo radicalmente. “Não estive na festa que a senhora Ford descreve”, disse. Classificou as acusações e a agitação de “vergonha nacional” e denunciou: “Minha família e meu nome foram destruídos nestes dez dias”. “Sou inocente da acusação que ela me faz”, disse várias vezes. Também descreveu a si mesmo como um estudante exemplar e esportista. O republicano Lindsay Graham explodiu em sua defesa contra os democratas: “Ele está passando por um inferno, não desejo a ninguém o que ele está passando”. Nestes dias foram publicadas histórias de juventude, de excessos com álcool. “Não era perfeito naqueles dias, assim como não sou hoje. Bebia cerveja com meus amigos, geralmente nos fins de semana. Às vezes, muito”, admitiu, mas negou abusos repetidamente.

Não há nenhuma prova tangível do que aconteceu entre aquelas paredes no verão de 1982 e a única mulher que depôs na quinta-feira foi a professora californiana, mas no ambiente pesavam os depoimentos de três outras que também apontaram o juiz depois de Ford. Uma delas é Deborah Ramírez, ex-colega de Kavanaugh na Universidade de Yale, que diz que durante uma festa no ano letivo de 1983-1984 o então estudante baixou as calças e colocou o pênis perto do rosto dela, obrigando-a a afastá-lo. Outra, Julie Swetnick, relata episódios mais graves, a presença de Kavanaugh em estupros coletivos que jovens universitários supostamente cometiam contra meninas que drogavam previamente para deixá-las sem ação. Na quarta-feira veio à luz uma quarta acusação, em uma carta anônima enviada a um legislador democrata, de uma mulher cuja filha tinha visto um comportamento agressivo do juiz contra outra mulher em 1998.

Brett Kavanaugh, quinta-feira no Senado.
Brett Kavanaugh, quinta-feira no Senado.MICHAEL REYNOLDS (EFE)

Para os democratas, essas declarações são motivos suficientes para não fazer de Kavanaugh o novo juiz da Suprema Corte, um posto-chave nos Estados Unidos, pois é um cargo vitalício cujas decisões transformaram historicamente a vida do país: tornou o aborto um direito, legalizou o casamento de pessoas do mesmo sexo em todo o país e acabou com a segregação racial nas escolas. “Isto não é um julgamento da doutora Ford, é uma entrevista de emprego para o juiz Kavanaugh. É Brett Kavanaugh quem queremos para o tribunal de maior prestígio do país? Ele é o melhor que podemos ter?”, perguntou a senadora democrata Dianne Feinstein ao comitê.

Mas pareceu um julgamento. Um julgamento do juiz indicado, da professora que o acusa, da classe política, da sociedade norte-americana. Em primeiro lugar, o caso colocou o país diante da memória do que acontecem em 1991, quando o Senado confirmou como novo membro da Suprema Corte o juiz Thomas Clarence, acusado por Anita Hill de tê-la assediado sexualmente de modo ininterrupto nos anos 80, quando era seu supervisor na Comissão para a Igualdade de Oportunidades de Emprego. Os senadores daquele Comitê ouviram as duas versões e a Câmara aprovou Clarence, hoje membro da Suprema Corte.

O caso de Anita Hill se tornou para sempre um símbolo do sexismo que persegue as mulheres que denunciam assédio por causa do interrogatório, com muitas perguntas machistas, ao qual foi submetida. Era uma mulher falando para um grupo de cerca de vinte homens.

Em setembro de 2018, o comitê judiciário é formado por 21 membros, dos quais apenas quatro são mulheres, e nenhuma delas republicana. Os conservadores precisavam evitar a todo custo repetir essa imagem e contrataram uma procuradora do Arizona especializada em crimes sexuais, Rachel Mitchell, para fazer perguntas a Ford. Mitchell perguntou por que acreditava que o restante dos que compareceram àquela festa não se lembravam do episódio, também tentou estabelecer ligações entre a professora e os democratas.

A indicação do juiz já era polêmica para os progressistas norte-americanos por seu perfil religioso, de ideias contrárias ao aborto e mais à direita do que outro juiz conservador, Anthony Kennedy, que substitui por motivo de aposentadoria. Mas o surgimento do #Metoo contra o assédio deu uma guinada completa no processo, que se tornou um debate nacional sobre as mulheres que sofreram abusos e se calaram décadas atrás, em uma época de tolerância hoje inconcebível, e a presunção de inocência em casos nos quais é impossível provar alguma coisa.

O caso também colocou sobre a mesa a cultura do estupro que permeia muitas festas de universidades de elite, fábricas de figuras poderosas que logo dirigem o país. Em uma pesquisa voluntária realizada em 2015 em 27 universidades de prestígio (de Yale a Harvard, passando por Columbia e Brown), 23% das estudantes responderam terem sido objeto de abusos pela força, ameaças ou incapacitação (drogas ou álcool), 10% afirmaram terem sido estupradas e apenas 28% relataram algum desses episódios.

A procuradora Rachel Mitchell, na quinta-feira no Senado.
A procuradora Rachel Mitchell, na quinta-feira no Senado.

E, finalmente, esta indicação também colocou Trump na berlinda, ele que foi acusado no passado de diferentes abusos por várias mulheres. O presidente mantém seu apoio e os republicanos não cancelaram a votação do Comitê sobre Kavanaugh, etapa prévia à votação e confirmação final no plenário do Senado, que está prevista para sexta-feira. Aceitar um adiamento no processo significa pôr em perigo a indicação, pois as eleições legislativas de novembro podem fazer com que percam a maioria na Câmara alta. Aprovar o juiz sem demora depois do que foi ouvido nesta quinta-feira pode mobilizar ainda mais a base eleitoral democrata.