Shazam!, regresso à pureza do coração

O filme que estreou ontem no Brasil é um trabalho que se esforça todo o tempo para defender a própria personalidade singular, mas não pode evitar totalmente os perigos

Imagem de 'Shazam!'
Imagem de 'Shazam!'

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Na capa do número 21 de suas aventuras, publicado em 1943, o super-herói hoje rebatizado como Shazam! –– mas na época ainda conhecido como Capitão Marvel – enfrentava Adolf Hitler iluminando sua figura medrosa com uma arma implacável: o Raio da Honestidade. A capa do número 31, de janeiro de 1944, tinha como foco um pensativo Capitão Marvel, com suas versões angelical e demoníaca, encarnações de sua boa e má consciência, sussurrando conselhos em cada ouvido. O traço caligráfico e arredondado de seu desenhista C. C. Beck devolve ao leitor contemporâneos ecos muito distantes da concepção do super-herói pós-moderno: a estética fica a meio caminho entre a flexibilidade do cartoone a transparência da linha clara.

O personagem era filho dos anos 1940, uma década em que o arquétipo do super-herói estava em sua época de inocência, como a cristalização de um idealismo coletivo que se definia na pureza do coração. A invocação mágica que transformava um menino em super-herói era um acrônimo de valores mitológicos – Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio –, e a fronteira do lado obscuro era traçada pelos sete pecados capitais.

Embora no suposto comando do filme esteja um David F. Sanberg treinado no cinema de terror, Shazam! rompe com essa obscuridade dominante no universo cinematográfico D. C – levemente atenuada pelo recente Aquaman (2018) – para transformar a ingenuidade intrínseca ao personagem em sua clave de sol. O resultado é um trabalho que está constantemente se esforçando para defender a própria personalidade singular, mas não pode esquivar-se de todo dos perigos redundantes de contar uma nova história de origem e culminar no perpétuo confronto hiperbólico entre super-herói e vilão; arquétipos que são vistos, sem cair em complexidades morais, como resultados inversos de uma mesma equação mágica.

Com ocasionais ideias brilhantes, como os vídeos de aprendizagem de super-heróis para YouTube, o filme faz vários acenos – de Quero Ser Grande (1988) a Contatos Imediatos do Terceiro Grau(1977) – com o desejo neurótico de quem sabe, no fundo, que nenhuma de suas próprias imagens alcançará esse grau de permanência.

SHAZAM!

Direção: David F. Sanberg.

Intérpretes: Zachary Levi, Asher Angel, Michelle Borth, Mark Strong.

Gênero: ficção-científica. Estados Unidos, 2019.

Duração: 132 minutos.