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“Sobrevivi a um centro de conversão gay: essas terapias levam ao suicídio”

Garrard Conley, internado em 2004 numa instituição para a ‘cura’ de homossexuais, fala sobre a sua história, que inspirou o filme ‘Boy Erased: Uma verdade anulada', com Nicole Kidman e Russell Crowe

Garrard Conley e Lucas Hedges (o ator que o interpreta no filme) na última edição do Globo de Ouro
Garrard Conley e Lucas Hedges (o ator que o interpreta no filme) na última edição do Globo de Ouro

“Ou você é gay, ou é nosso filho.” Garrard Conley (1985, Arkansas) tinha 19 anos quando ouviu esse ultimato vital, em 2004. Até então, nunca tinha contado a ninguém que era homossexual, e se deparou com a rejeição da família depois que seu estuprador o tirou do armário contra a sua vontade, no primeiro ano da faculdade. Aquele agressor decidiu que o melhor que podia fazer para “silenciá-lo” era revelar a orientação sexual da vítima aos seus pais. Conley, filho de um pastor batista muito querido em sua comunidade e a quem admirava profundamente – queimou o rosto ao socorrer um desconhecido cujo carro havia quebrado no meio da estrada –, se vê obrigado a ingressar voluntariamente em um centro de conversão gay chamado LIA (sigla em inglês de “amor em ação”), em Memphis. Trata-se de uma entidade de caráter cristão e contrária a qualquer atividade do mundo secular, que fazia terapias para “curar a homossexualidade”: vedava o uso de roupas coloridas; as moças tinham que se depilar duas vezes por semana, e os homens deviam andar rigorosamente barbeados, sem costeletas e sem camisetas interiores; proibia ir a shoppings, ter celular dentro da instituição, ler qualquer livro não cristão ou praticar yoga. Seus responsáveis também precisavam aprovar (ou não) os trabalhos externos dos convertidos.

Sob “as austeras paredes brancas que criavam um ambiente apropriado para uma sala de espera em que aguardávamos o perdão de Deus”, Conley encontrou homens casados, professores “envergonhados por rumores” em seus locais de trabalho e adolescentes como ele, os quais suas famílias tinham colocado no mesmo dilema de continuar sob seu teto ou renegar suas raízes. Sob a premissa de que sua homossexualidade podia ser curada, o adolescente seguiu uma terapia similar à dos Alcoólicos Anônimos (o sistema de cura se estabelecia em 12 passos, o primeiro dos quais consiste em “reconhecer que você está errado”), mas decidiu abandonar o programa algumas semanas depois, com o apoio de sua mãe. Escreveu uma autobiografia narrando sua experiência (Boy Erased – Uma Verdade Anulada, Intrínseca), história que estreia nesta sexta-feira nos cinemas espanhóis, com Nicole Kidman e Russell Crowe como os pais, e Lucas Hedges adaptando a experiência de Conley para a telona. No Brasil, o lançamento nos cinemas foi cancelado por decisão do estúdio Universal Pictures e poderá ser visto em DVD a partir do dia 17 de abril.

Pergunta. Mais de 7.000 pessoas foram ‘tratadas’ em terapias de conversão. Por que esse número não parar de crescer?

Resposta. Acho que há muitas, muitíssimas comunidades que ainda acreditam que as pessoas LGTBQ têm que ser curadas. Visitei muitos desses lugares em minhas palestras, e não mudou muito em todos estes anos.

P. Você 'saiu do armário' contra sua vontade, porque seu agressor sexual contou aos seus pais. Como recorda aquele episódio?

R. Tirarem você do armário sem que você queira é uma das piores coisas que podem acontecer com uma pessoa. No meu caso, essa experiência terrível estava marcada pelo fato de que quem fez isso foi meu estuprador, para poder me silenciar. Rememorar aquelas vivências no livro foi incrivelmente difícil, especialmente porque estava lutando contra dois tipos de traumas.

P. “Ou você é gay ou é nosso filho” – esse é um ultimato muito duro de assumir... Você conseguiu sanar sua relação com seus pais?

R. Sim, minha mãe me pediu perdão a cada dia de sua vida desde que me tirou da terapia de conversão. De fato, ela esteve muitíssimas vezes no set do filme, e falou pessoalmente e por e-mail com Nicole Kidman sobre sua personagem. Quando o filme estreou, ela foi muito aplaudida na sala. Com meu pai, que ainda atua como pastor batista no Arkansas, é mais complicado. Embora ele agora entenda que a terapia de conversão é uma ideia terrível, continua sem se convencer de que a homossexualidade é algo que não se escolhe. Continuamos discutindo um pouco sobre este tema, mas nos amamos e nos falamos por telefone de vez em quando.

P. O que lhe motivou a escrever o livro?

R. Esperei dez anos antes de escrever Boy Erased. Eu me envergonhava muito da minha experiência em terapia de conversão, sentia-me estúpido por ter aceitado ir. Decidi escrever o livro depois de superar alguns dos sintomas que experimentei por causa da terapia de conversão gay (um profundo sentimento de culpa, por exemplo), e porque precisava dar voz às experiências de outros. Escolhi o título porque, da forma mais elementar, me pedia para mudar, ou anular, quem eu era como pessoa; mas também há outro significado no título, porque de muitas maneiras o menino que eu fui durante meu tempo na terapia de conversão já não existe mais, eu o anulei para poder dar espaço à nova identidade que hoje tenho como ativista progressista e escritor.

P. No livro você descreve sua admiração por seu pai desde criança. Isso mudou em algum sentido? Como evoluíram seus sentimentos em relação a ele?

Nicole Kidman e Lucas Hedges em uma cena de ‘Boy Erased’
Nicole Kidman e Lucas Hedges em uma cena de ‘Boy Erased’

R. Nós nos aproximamos à medida que os anos passavam. Tivemos contratempos, sim, mas comecei a vê-lo de forma completa, com todas as suas complicações. Ele comanda uma cozinha/serviço assistencial para os sem-teto fora da igreja, e costuma ajudar pessoas em hospitais. Faz muito pela comunidade, e só estamos em desacordo em poucas coisas. É muito difícil odiar alguém assim.

P. Há uma parte no livro em que, para ele, se torna mais difícil assumir que você é gay do que o fato de ter sido violentado.

R. Sim. Lembre-se que eu cresci na época em que mataram Matthew Shepard. Matthew apanhou até morrer, amarrado a um poste (quase crucificado), e essa era a imagem que se tinha das pessoas gays. Além disso, meus pais haviam visto muitas histórias negativas sobre homens contraindo AIDS, então eles achavam realmente que eu morreria se seguisse meus sentimentos.

P. A terapia de conversão na LIA era similar à dos Alcoólicos Anônimos, com 12 passos para a reabilitação. Sua sexualidade era tratada como uma espécie de vício. Como frear instituições desse tipo?

Russell Crowe e Lucas Hedges em uma cena do filme
Russell Crowe e Lucas Hedges em uma cena do filme

R. A mensagem de que os gays podem ser curados é muito antiga e é muito perigosa. A Love in Action, onde fiz a terapia de conversão, desenvolveu um modelo que tratava a cura como se fosse a superação de algum tipo de vício. Não importa o formato em que essa suposta cura venha, ela é incrivelmente prejudicial, porque se baseia em afirmações insubstanciais e em falsa ciência. Tenta apagar uma parte da identidade de uma pessoa que não se pode apagar, e isso gera uma pressão incrível para transformar você em alguém falso. As mentiras e a humilhação que acompanham esse processo costumam levar ao suicídio, e, de fato, essas ideias já levaram a muitos suicídios. Este é o motivo pelo qual nos chamamos de sobreviventes. Sobrevivemos a algo que claramente poderia ter nos matado.

P. Um ano depois de você deixar a LIA, essa organização de Memphis e o programa que você frequentou foram questionados nacionalmente, e saiu uma reportagem muito polêmica no The New York Times. Como esse noticiário o afetou?

R. Tentei ignorar muito essas informações, para mim era incrivelmente difícil ver a LIA no debate público. Durante aqueles anos eu ainda recebia e-mails da LIA me dizendo que estava cometendo um erro com a minha vida e que precisava voltar para a terapia, então não me entusiasmava vê-los na CNN.

P. No livro você conta como foi duro crescer num lugar onde os filmes, a televisão e a cultura se fechavam à sexualidade (“Na maioria dos filmes em que um gay aparecia, ele acabava morrendo de AIDS”). Como o Cinturão Bíblico está moldando os EUA?

Nicole Kidman, Lucas Hedges, Troye Sivan e Garrard Conley na estreia de ‘Boy Erased’
Nicole Kidman, Lucas Hedges, Troye Sivan e Garrard Conley na estreia de ‘Boy Erased’

R. Bem, atualmente temos acesso a uma melhor representação, não só na televisão e no cinema, e sim graças à cultura da Internet. Quando eu era mais jovem, você digitava ‘gay’ e apareciam muitíssimos resultados, a maioria negativos ou pornográficos. Mas não acho que esse acesso a uma melhor representação determine que você acabe se aceitando totalmente, especialmente se estiver numa comunidade em que a fé pode determinar o seu próprio sentido pessoal em maior medida. Lembro-me de achar que qualquer representação LGTBQ era como um conto de fadas, algo em que você nunca poderia participar.

P. Daqui parece que essa cultura repressora que cerca o Cinturão Bíblico ganhou muitíssimo poder desde a chegada do presidente Trump, e especialmente com Mike Pence como vice-presidente. Como você lida com isso?

R. Com o fato de que virei um ativista e deixando claro às pessoas que Mike Pence, no passado, deu seu apoio às terapias de conversão gay. Também tento contextualizar esse nível de discriminação junto a outros países que também lutam pela aceitação dos direitos LGTBQ. Meu marido é do Paquistão, e como você sabe os direitos LGTBQ lá estão totalmente ameaçados, então temos que fazer um grande trabalho em escala global.

P. Como você reagiu quando viu o filme pela primeira vez?

R. Emocionou-me muito me ver retratado em outra pessoa. Lucas Hedges faz um trabalho incrível mostrando as microemoções que senti durante minha passagem pelo Love in Action. A verdade é que não consegui aguentar muito tempo vendo o filme. Então, sim, não acredito que o volte a ver tão cedo.

P. Você recebeu muitas mensagens ou reações de gente que passou pelo mesmo que você depois da estreia de Boy Erased?

R. Sim, recebi centenas de mensagens. Para ser honesto, pode ser pesado demais, porque algumas são histórias muito similares à minha, e outras são muito piores do que o que eu vivi. Tem gente que foi à terapia de conversão durante muitos anos e que ainda continua fortemente prejudicado por ela.

P. É bastante significativo comprovar que o ex-gay líder que tratou você no centro, John Smid, agora renega a LIA e se casou com um homem. Mantém contato com ele?

Cena de ‘Boy Erased’
Cena de ‘Boy Erased’

R. Sim, tive contato com ele pouco antes de acabar meu livro, para assim poder ver em perspectiva a minha experiência na LIA. Também o entrevistei para meu podcast, chamado UnErased: A História da Terapia de Conversão na América. Ele veio à estreia do filme e nos ajuda continuamente com materiais.

P. Seus pais viram o filme?

R. Meu pai diz que ainda não viu, e não tenho nenhuma razão para duvidar. Minha mãe me acompanhou ao Festival de Toronto quando estreou, e foi homenageada com uma ovação de 1.600 pessoas. Foi incrível compartilhar aquele momento com ela.

P. Acha que seus pais foram bem retratados no filme com Nicole Kidman e Russell Crowe?

R. Sim, absolutamente, sim. É estranho. Embora o papel de Nicole tenha sido atenuado em alguns graus, porque minha mãe é Dolly Parton no nível máximo.

P. Após todos estes anos, como é sua relação com a fé e o cristianismo?

R. Complicada, como a maioria de coisas. Atualmente gosto de viver numa escala de cinzas, e não ver tudo preto ou branco. Não me sinto cômodo entrando numa igreja. Uma das coisas mais tristes das terapias de conversão associadas à religião é que usam Deus como uma arma contra as pessoas queer, quando de fato não há nada incompatível entre ser cristão (ou de outra religião) e a identidade LGTBQ.

P. E com o Arkansas?

R. Também é complicado! Adoro voltar para casa a visitar minha comunidade, aprecio-os muitíssimo. Conheço alguns poucos ativistas queer trabalhando no Arkansas para que as coisas melhorem notavelmente.

P. Como transformou este episódio da sua vida em sua carreira como escritor?

R. Bom, isso me deu um tema do qual falar, estar envolvido em temas sobre religião e sexualidade. É maravilhoso para um escritor encontrar um tema que o fascine. Não subscrevo a ideia de que “o que não te mata te fortalece”, porque às vezes o abuso pode matar. Entretanto, não acho que tenha que gastar material, então sempre é proveitoso olhar para trás e encontrar aquilo que ainda lhe incomoda na sua experiência, porque será lá, certamente, onde você encontrará o material mais aproveitável.

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