Chile

Indignação feminista com o projeto de dar o nome de Pablo Neruda ao aeroporto de Santiago

Poeta é acusado de abandonar a filha com hidrocefalia e já confessou um abuso sexual. Críticos da mudança propõe que o aeroporto seja rebatizado com o nome da poeta Gabriela Mistral

Pablo Neruda, em foto de 1966.
Pablo Neruda, em foto de 1966.Sam Falk (Getty Images)

Uma antiga moção parlamentar foi retomada este ano no Chile para rebatizar o aeroporto internacional de Santiago com o nome do Prêmio Nobel de Literatura Pablo Neruda (1904-1973). Apesar de a medida contar com algum apoio no Congresso, sua tramitação gerou controvérsia pelo fato de grupos feministas criticarem o mau comportamento do escritor com as mulheres, que inclui o abandono de uma filha doente e um abuso sexual relatado em seu livro póstumo de memórias, Confesso que Vivi. As vozes contrárias à iniciativa propuseram um nome alternativo para rebatizar o aeroporto da capital chilena: a também poeta e igualmente Prêmio Nobel de Literatura Gabriela Mistral.

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O projeto para dar o nome de Neruda, um dos chilenos mais conhecidos em todo o mundo, ao aeroporto de Santiago foi originalmente apresentado em 2011. O texto argumentava: “O grande poeta chileno é considerado um dos melhores e mais influentes do seu século, sendo chamado pelo romancista Gabriel García Márquez de ‘o maior poeta do século XX em qualquer idioma’”. No entanto, desde que a iniciativa foi retomada no mês passado, organizações feministas a rejeitaram, afirmando que, no auge do movimento Me Too, ofereceria uma imagem ruim do país no exterior.

O polêmico texto das memórias do poeta relata que forçou uma jovem doméstica a fazer sexo com ele no Ceilão (atual Sri Lanka), onde ocupou um posto diplomático em 1929. Em estilo explícito, Neruda conta que a garota o ignorou e, em seguida, ele a levou para seu quarto para terminar com um encontro que foi “como o de um homem e uma estátua. Ela manteve os olhos bem abertos o tempo todo, completamente inconsciente”.

Entre aqueles que criticam Neruda está a jornalista e deputada do Partido Humanista (esquerda) Pamela Jiles, que disse: “Os tempos não estão para homenagear um abusador de mulheres, que abandonou a filha doente e confessou um estupro, ainda menos como imagem do país”, acrescenta Jiles, que insiste na proposta alternativa de chamar o aeroporto de Gabriela Mistral. Além da suposta agressão sexual, Neruda está marcado por Malva Marina, a filha, que chamava de “vampiresa de três quilos”.

Essa história aparece em um relato romanceado chamado Malva, da poeta holandesa Hagan Peeters, que conta que a menina nasceu em 1934, com hidrocefalia, e morreu apenas oito anos depois abandonada pelo pai. Quando a história foi divulgada em 2016, a Fundação Pablo Neruda, que conserva o legado do autor, emitiu uma nota afirmando que a separação foi de comum acordo e que “Neruda foi ver a filha na última vez que pôde fazê-lo, em 1939, na última viagem que pôde fazer à Europa, para embarcar os republicanos espanhóis no Winnipeg”.

“Isso [o suposto estupro] vai entrar em discussão e continuará fazendo parte do debate. É um assunto sensível”, admite o socialista Marcelo Díaz, presidente da Comissão de Cultura. E acrescenta: “São antecedentes delicados, mas se está homenageando a obra. Embora esse tipo de questionamento tenha sentido, isso não impede que Pablo Neruda continue sendo um dos poetas mais importantes não apenas no Chile, mas do mundo”.

Mas, além do legado artístico, os promotores do projeto salientam a importância política de Pablo Neruda, que foi militante comunista, senador, diplomata e, numa fase posterior, renunciou a uma pré-candidatura presidencial em favor de Salvador Allende. O Prêmio Nobel morreu poucos dias depois da derrubada de Allende por militares liderados por Augusto Pinochet. De acordo com o que foi informado na época, a morte foi provocada por um câncer de pâncreas, mas perícias recentes divulgadas em 2017 descartam essa versão e alguns especialistas apontam para um assassinato.

Enquanto a controvérsia é resolvida, o aeroporto internacional de Santiago continuará a se chamar Comodoro Arturo Merino Benítez, pai da aviação chilena. Para que a mudança seja feita, a ideia ainda deve passar por várias etapas na Câmara dos Deputados e depois no Senado. Outra dúvida que pesa sobre a iniciativa é o custo que o Estado teria para fazer a mudança.