Eleições 2018

Fantasma da crise hídrica volta a rondar São Paulo em ano eleitoral

Sistema Cantareira está em estado de alerta, mas problema passa ao largo do discurso dos candidatos no Estado

Maria Lúcia, 64, que precisou comprar uma caixa d'água para driblar as torneiras secas
Maria Lúcia, 64, que precisou comprar uma caixa d'água para driblar as torneiras secasRenato Pizzutto

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Em 29 de julho, o sistema Cantareira, o maior de São Paulo e responsável por abastecer mais de 8 milhões de pessoas, entrou em estado de alerta ao atingir 39,9% de sua capacidade. Atualmente, a situação piorou ainda mais, e o reservatório conta com 34,5% do total. O volume de água armazenada continua caindo diariamente, entre 0,1% e 0,2% ao dia. O assunto, no entanto, está longe de dominar a pauta do dia das eleições em São Paulo. No debate dos candidatos realizado pela RedeTV!, houve apenas uma pergunta sobre o assunto. “O que pretende fazer para evitar a possibilidade de uma crise hídrica?”, perguntou um internauta. Coube a Rodrigo Tavares (PRTB) —que se tornou meme após ter um branco na hora de responder —dizer que “a crise hídrica realmente está de volta”.

Os quatro candidatos ao Governo mais bem posicionados nas pesquisas, João Doria (PSDB), Paulo Skaf (MDB), Márcio França (PSB) e Luiz Marinho (PT) abordam em seus programas de Governo a questão da segurança hídrica, sem entrar em muitos detalhes sobre como garanti-la. Já no plano do presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB), que estava à frente do Palácio dos Bandeirantes durante a grave crise hídrica pela qual passou o Estado, em 2015, não consta nenhuma linha sobre o assunto. O tucano chegou a afirmar em julho deste ano que São Paulo superou a crise hídrica “sem racionamento”. Em 2015, no entanto, o governador admitiu que o Estado passava por um processo de racionamento: “O racionamento já existe quando a Agência Nacional de Água determina. Existe, existe, quando a ANA diz que você tem de reduzir [o consumo] no Cantareira, é óbvio quer você já esta em restrição, não tem que ter decreto. Está mais que explicitado”.

Contradições à parte, é incerto se uma nova crise hídrica em São Paulo poderia respingar em Alckmin, cuja campanha para a Presidência ainda não decolou. Mas o mais provável é que sim, como ocorreu durante a crise hídrica de 2015. Sua aprovação, que desde 2011 não caia abaixo de 40%, chegou a 28% ao final de 2015, seu menor índice. A falta de água era, naquela ocasião, o problema mais citado pela população. O tucano conseguiu, posteriormente, recuperar parte de sua popularidade, nos três anos finais de gestão, mas ficou longe de seu melhor índice de aprovação (52%, em em junho de 2013).

Cortes diários

Moradores ouvidos pelo EL PAÍS citam torneiras secas, e não menor pressão, como informado pela Sabesp

Além da capital, grandes cidades da Região Metropolitana de São Paulo, como Osasco, Diadema e São Bernardo também são afetadas pelos cortes diários, de acordo com informações da própria Sabesp. O site da empresa informa que “durante a noite/madrugada, com a grande maioria da população dormindo e as atividades econômicas praticamente inexistentes, é necessária menor pressão na rede para manter os imóveis abastecidos”. Mas para alguns trabalhadores, o corte de água noturno é sentido. É o caso de Anne Iris Silva e Shin, 34. “Eu chego do trabalho alguns dias depois das 22h, e a água da cozinha é da rua e não da caixa de água. Por isso não tenho como cozinhar de noite e nem lavar louça”, diz a moradora do bairro de Perdizes, na zona oeste de São Paulo. “O filtro de água fica na cozinha também, então se não encho algumas garrafas durante o dia fico sem água para beber de noite”.

Indagada sobre quando a redução de pressão voltou a ser usada em São Paulo, tendo em vista que antes da crise hídrica de 2015 ela não se fazia sentir, a Sabesp informou em nota que “a ação [de redução de pressão] vem sendo realizada desde 1997, assim como fazem as melhores empresas de saneamento do mundo para diminuir vazamentos. O fornecimento de água continua ocorrendo, mas a pressão é menor”, informou a companhia em nota.

No entanto, moradores ouvidos pelo EL PAÍS citam torneiras secas, e não menor pressão, como informado pela Sabesp. Dona Nadir, do Parque Arariba, reclama que não foi avisada pela empresa de abastecimento que haveria corte na água. “E o pior é que algumas vezes a água acaba na madrugada e volta só no meio do dia seguinte”, afirma. Com isso fica comprometido “o preparo do almoço e o banho das crianças quando voltam da escola”, diz. No entanto, segundo o site da Sabesp, o fornecimento de água em sua região deveria ser regularizado às 5h.

A falta de água obrigou alguns paulistanos a investir em caixas de água para contornar o fornecimento intermitente. “Tive que ter esse gasto de quase 300 reais porque ficávamos muito tempo sem água aqui em casa”, conta Maria Lúcia, 64, moradora da Vila Marari, zona sul de São Paulo. “Cansei de precisar comprar água todo dia pra cozinhar. Aqui era frequente a água demorar para voltar, às vezes só depois do almoço”, conta a aposentada.

Em nota, a Sabesp informa que o nível do Cantareira preocupa: “O período é de atenção, pois, apesar de estarmos realmente no período seco, as chuvas dos últimos meses estão abaixo da média histórica”. No entanto, a empresa diz que está “preparada” para enfrentar “o cenário adverso”, pois “realizou um conjunto de obras, e possui maior interligação entre represas, podendo flexibilizar o abastecimento e atender uma mesma região por diferentes sistemas”. Além disso, informa a nota, foram instaladas novas adutoras, algumas antigas foram reformadas e bombas foram substituídas.

A empresa também solicitou à reportagem o endereço das pessoas ouvidas na matéria para verificar eventuais problemas nas conexões e na pressão da água nas residências. Após realizar visita nas ruas citadas, a Sabesp informou que “constatou o abastecimento está normal nos locais”. A reportagem presenciou pessoalmente o fenômeno das torneiras secas em dois dos endereços.