Liberdade de imprensa

Homem é preso por ameaçar de morte jornalistas do ‘Boston Globe’: “Vocês são os inimigos do povo”

FBI prende em Los Angeles um homem que assediou o jornal depois de campanha da imprensa para responder aos insultos de Trump

A edição de 'The Boston Globe' do dia 15 de agosto de 2018.
A edição de 'The Boston Globe' do dia 15 de agosto de 2018.JOSEPH PREZIOSO (AFP)

A polícia federal dos Estados Unidos prendeu nesta quinta-feira um homem na Califórnia suspeito de ter feito ligações telefônicas ameaçadoras para a Redação de The Boston Globe, depois que esse jornal lançou uma campanha para protestar contra os insultos do presidente Donald Trump contra a imprensa. Nas chamadas, o suspeito usava a mesma linguagem do presidente, como a expressão “inimigos do povo”. Trump usou essas palavras novamente nesta mesma quinta-feira em um tuíte.

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O suspeito de fazer essas chamadas se chama Robert Darrel Chain, que tem 68 anos e residia em Encino, uma localidade ao norte de Los Angeles, onde foi detido. O relatório do FBI diz que foram encontradas em seu nome “várias armas de fogo” e, e em maio deste ano, ele comprou uma carabina de 9 milímetros. Chain foi preso sem opor resistência. Estava previsto que se apresentaria perante um juiz federal em Los Angeles na quinta-feira, para depois ser transferido a Boston.

Desde o início de sua entrada na política, Trump chama os jornalistas de desonestos, mentirosos e desagradáveis. Seus seguidores, incentivados por ele, assediam e insultam os jornalistas que cobrem seus eventos ao vivo. Essa situação só piorou depois que ele se tornou presidente. Em 10 de agosto, o jornal de Boston organizou uma campanha para protestar contra as expressões depreciativas que o presidente dos Estados Unidos usa contra a imprensa.

Mas Trump também usa a expressão “inimigos do povo”, de ressonâncias totalitárias, para referir-se à imprensa crítica. Mais de 300 jornais se somaram à iniciativa do Globe e na quinta-feira, 16 de agosto, publicaram editoriais defendendo a liberdade de imprensa e alertando para o perigo de atiçar a violência contra os jornalistas. Em 20 de julho, o editor de The New York Times, A. G. Sulzberger, advertiu Trump de que suas palavras incitavam à violência, durante uma reunião cara a cara com o presidente na Casa Branca.

No relatório policial remetido pelo FBI ao tribunal é especificado que a Redação do Globe começou a receber chamadas ameaçadoras pouco depois de pôr em prática essa iniciativa. A primeira ligação que aparece transcrita no relatório é de 13 de agosto, quando o suspeito, um homem, disse por telefone: “Como cheira a sua boceta hoje, fresca e gostosa? Vamos matar todos com tiros na cabeça, filhos da puta, fodidos do Boston Globe. Disparar em todos, um a um”.

Em 16 de agosto, a mesma voz ligou para a Redação para dizer: “Vocês são os inimigos do povo e vamos matar todos, um a um. Por que não chamam os federais, heim? Por que não chamam Mueller? Talvez ele possa ajudá-lo, colega. Continua aí, maricas. O quê, vai rastrear a chamada? O que vai fazer, filho da puta? Não vai fazer merda nenhuma. Vou te dar um tiro na cabeça hoje às quatro da tarde”. Essa foi a primeira vez que o suspeito utilizou as palavras exatas de Trump, e também se refere a Robert Mueller, promotor especial que dirige uma investigação sobre a possível conivência entre a campanha de Trump e a trama russa para influir nas eleições.

Houve um total de 12 ligações desse tipo. Em outra, o suspeito repetia a expressão “inimigos do povo” e dizia: “Enquanto vocês continuarem atacando o presidente dos Estados Unidos devidamente eleito, e continuarem com as suas ações traidoras e sediciosas, continuarem ameaçando, assediando e perturbando o Boston Globe, propriedade do New York Times (o Times vendeu o Globe em 2013) e outras mídias de notícias falsas”. A expressão “notícias falsas” é como Trump se refere a qualquer cobertura negativa sobre ele.

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