ELEIÇÕES 2018

Rogério Chequer: “Doria prestou um enorme desserviço à renovação política do país”

Ex-líder do Vem Pra Rua se lança na corrida eleitoral para o Governo de São Paulo pelo partido NOVO com o desafio de se diferenciar do tucano

Rogério Chequer, ex-líder do Vem Pra Rua e candidato ao governo de São Paulo pelo Novo.
Rogério Chequer, ex-líder do Vem Pra Rua e candidato ao governo de São Paulo pelo Novo.F. Cavalcanti

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Rogério Chequer (São Paulo, 1968) admite que seu principal desafio na campanha para o Governo do Estado será não ser percebido pelo eleitor como uma espécie de João Doria em miniatura. Candidato ao Governo do Estado de São Paulo pelo partido NOVO, Chequer é empresário, encampa pautas liberais, incluindo um amplo pacote de privatizações, e tenta se apresentar à população não como um candidato tradicional, mas como um gestor distante das velhas práticas da política e "de tudo o que está aí". Apesar das semelhanças com o representante do PSDB no pleito (e de o seu partido ter cargos na prefeitura que era comandada por Doria até abril deste ano), Chequer rechaça a pecha de candidatura acessória à do tucano e promete confrontá-lo na campanha deste ano: "[o Doria] é quem mais pratica hoje a política velha, incluindo a mentira de [que iria] terminar o mandato [de prefeito]", afirma.

Ex-líder do Vem Pra Rua, um dos principais movimentos que organizaram os atos a favor do impeachment de Dilma Rousseff, Chequer foi confirmado nesta quinta-feira candidato do NOVO na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. Embora garanta que sua candidatura é pra valer, terá enormes dificuldades de ser competitivo no pleito, já que se lança por um partido nanico e não fez alianças que possam lhe dar um tempo de televisão significativo.

Pergunta. Você se apresenta como alguém de fora da política que quer levar ao Estado novas e mais eficientes formas de gestão. Além do mais, defende uma pauta liberal, como um pacote de privatizações. São características associadas ao pré-candidato do PSDB, João Doria. No que você se diferencia dele?

Resposta. Em primeiro lugar, ser percebido como o João Doria é um enorme problema, porque estamos lidando com uma pessoa que se colocou como o novo e que se apresentou como alguém de fora da política. Mas hoje [o Doria] é quem mais pratica a política velha, incluindo a mentira de  [que iria] terminar o mandato [de prefeito]. Isso é a cartilha da política velha. Ser associado a uma pessoa assim, que não cumpriu as suas promessas, é um problema real, porque quando você traz uma proposta nova as pessoas que se sentem traídas pelo Doria questionam: será que este não é um novo Doria?

P. Quais são as suas principais críticas ao Doria?

R. Eu tenho plena consciência de que o Doria prestou um enorme desserviço à política em geral e à renovação da política. O pior erro dele foi não ter terminado o mandato. Outro erro enorme foi ter investido um tempo irresponsável para trabalhar na sua projeção eleitoral. Ele não tinha que se preocupar com o próprio umbigo, mas com a cidade de São Paulo. Não podia viajar pelo país inteiro fazendo divulgação para uma eventual campanha presidencial.

P. E como fazer para se diferenciar dele?

R. Vamos trabalhar com a desilusão que as pessoas tiveram com o Doria. Mais da metade do seu eleitorado, segundo algumas pesquisas, se recusa a votar nele de novo. É um enorme desafio mostrar para as pessoas que nós não somos o Doria. Como vamos fazer isso? Primeiro, fazendo a campanha de um jeito diferente. Nós não estamos priorizando na nossa pré-campanha a realização de coligações para ganhar tempo de televisão. Este é um hábito da velha política. Nós estamos priorizando a construção de um plano de Governo absolutamente diferente do que existe até aqui, para trazer novas formas de prestar serviços à sociedade. A gente tem a consciência de que a única função do Governo é prestar serviços de qualidade para a sociedade. Qualquer tempo, ou real, que seja investido fora desses propósitos é irresponsabilidade de um gestor público. A gente já não está fazendo coligação com quem não temos alinhamento de princípios e de valores; já não estamos usando dinheiro público, que deveria ser usado para a educação, saúde e segurança. Isso não é promessa, isso é uma execução atual. Isso torna a nossa eleição mais difícil? Sem dúvidas que sim, mas nós não estamos aqui para conseguir [a eleição] a qualquer custo. Estamos aqui para conseguir de um jeito novo e certo. Já estamos fazendo de um jeito diferente ao Doria.

P. Se você tem tantas críticas ao Doria, por que o partido NOVO mantém cargos na prefeitura de São Paulo, incluindo o secretário municipal de Desestatização e Parcerias?

R. Nós temos pessoas boas na prefeitura, que não estão mais com o Doria.

P. Você não considera que é uma incongruência?

R. Não, porque eles [os membros do NOVO] estão lá com liberdade suficiente para fazer um bom trabalho. Eles estão lá para tentar fazer a coisa [da] melhor [forma] nas secretarias que estão. Até onde eu estou informado, eles não estavam sendo contaminados com essa falta de foco do Doria.  Eu não vejo incongruência, isso não é fazer coligação, não gera dívida [política]. O NOVO não deve absolutamente nada nem ao Doria, nem ao Bruno Covas, nem ao PSDB. É completamente diferente do caso de coligação, acho que a comparação entre as duas coisas não cabe.

P. O senhor não acha então que eles deveriam se desligar do partido ou da prefeitura pelo senhor estar concorrendo contra o projeto do Doria?

Rogério Chequer.
Rogério Chequer.F. Cavalcanti

R. Eu não falei que estou concorrendo contra o projeto do Doria. Eu falei que existem características completamente diferentes na forma como o Doria faz e na forma como o Doria não faz. O fato de ele ter tentado privatizar alguns serviços, eu acredito que é positivo e essa tentativa está sendo feita numa secretaria de alguém que está filiado ao Novo. Eu não vejo nenhuma incongruência com isso. E outra coisa: eu acredito que as pessoas certas para estarem em secretarias, seja do Município, seja do Estado, o critério certo é o critério de competência. Não é o critério partidário. Eu não usarei o critério partidário em nenhum momento para colocar pessoas competentes nas secretarias. Se a pessoa mais competente que eu achar para uma determinada secretaria pertencer a outro partido, eu não vou ter problema nenhum em colocá-la.

P. Até mesmo se for alguém do PT?

R. Não importa, o critério para um secretário de Estado é a competência e o serviço que ele gera para a população. Não pode ser um critério partidário. Se for um governo partidário a gente volta para a política velha, onde eu uso a estrutura para trocar favores e fazer o toma lá dá cá. Isso a gente não vai fazer.

P. O PT virou quase a “Geni”, sinônimo de pária, em São Paulo. A população está polarizada e votando com ódio? Há quem aponte que o voto do Bolsonaro, por exemplo, é daqueles que cultivam ódio ao PT.

R. Eu concordo que o voto está se tornando de protesto. Não acho que seja contra o PT, acho que é contra o que está aí. Eu acho que uma boa parcela da população, de quem acompanha mais de perto, já tomou consciência de que são práticas que ocorrem em vários partidos. Nós tivemos o PT por muito tempo no poder, num período onde os desvios bateram recordes históricos. Agora, nós sabemos quais os métodos, o modus operandi do PMDB; nós sabemos o modus operandi do PSDB, do PR... e eles continuam provando isso. O PR continua provando, ao estar entre PT e Bolsonaro... [a entrevista com Chequer aconteceu enquanto o partido negociava apoio, que acabou indo para Geraldo Alckmin].  Acho virou um voto de protesto e eu acho que boa parte dele está canalizado para o Bolsonaro. É um retrato da nossa sociedade. Isso é um fato indesejável, de que as pessoas estão votando mais com emoção do que com a razão.

P. Você afirma que a sua candidatura é para ganhar a eleição, mas até o momento tem apenas 1% nas pesquisas de intenção de voto. Além do mais, é pouco conhecido pelo eleitorado e não formou alianças que possam lhe dar tempo de televisão. Como é possível ganhar a eleição dessa forma?

R. O objetivo não é fazer [uma campanha] sem coligações. É que a gente só fará coligação com quem compartilhe valores e princípios conosco. Ainda não encontramos ninguém que esteja disposto a fazer uma campanha sem usar fundo eleitoral; sem fazer esse acordo [coligações] única e exclusivamente para conseguir tempo de tevê; que tope limitar o número de reeleições; que trabalhe com candidatos que passem por um processo seletivo. Essa é a forma de operar do partido NOVO. Uma coligação gera dívida no sistema político atual. Se eu assumo e tenho que pagar a dívida com cargos, o mandato não é mais meu. O sistema está quebrado desde o início. É impossível alguém como o Márcio França ou o João Doria, com mais de uma dezena de coligações cada um, serem donos do seu Governo.

P. Como é possível ganhar uma eleição com uma estrutura partidária tão pequena?

R.  A campanha não começou ainda. Quando isso acontecer, você pode começar a se expressar e a falar coisas de uma forma que não pode falar agora. O eleitorado não focou ainda na eleição para governador. Você abre o jornal e a proporção entre a eleição presidencial e a para governador é de um pra dez. Então quando as pessoas começarem a focar a gente vai ver como isso vai acontecer. Além do mais, vai ficar claro para a população em determinado momento quem é o Regério Chequer, de onde ele vem, o que ele já fez e qual a sua proposta de política diferente. As pessoas ainda não o conhecem. A população não tem como gostar de alguma coisa que ela não conhece.

P. Mas, objetivamente, qual a sua estratégia para alcançar o eleitorado sem tempo de tevê?

R. Não vamos ter o mesmo espaço nos jornais do que os outros candidatos, mas vamos ter algum. E nesse algum eu acho que vai repercutir uma proposta diferente. Seja nas mídias sociais ou nas tradicionais, vai repercutir e vai se destacar uma proposta que é completamente diferente das outras. Existem várias coisas que só nós podemos dizer, afirmar e cobrar.  Quem se usa do sistema político atual não pode criticá-lo. Nós podemos e vamos fazer essa crítica. E vamos falar a verdade: como os políticos da velha política são eleitos; como essa dívida das coligações é paga; quanto a estrutura de governo que existe hoje serve à sociedade e quanto ela serve à reeleição de quem está no poder. Nós vamos falar a verdade que quem está no poder não pode falar.

Vem Pra Rua

F. Cavalcanti

P. O Vem Pra Rua se uniu à pressão pelo impeachment de Dilma Rousseff criticando a crise econômica que o País enfrentava e a corrupção do governo no PT. Dois anos depois da destituição o Brasil ainda vive uma grave crise econômica e o Governo Michel Temer também ficou marcado por escândalos de corrupção. Você se arrepende de ter apoiado o impeachment?

R. Eu fui perguntado dezenas de vezes durante o processo [de impeachment] se nós achávamos correto defender o Temer para a Presidência. Nós nunca o defendemos. Nós defendemos o cumprimento da Constituição para que, pelos meios legais, houvesse o impeachment da presidente. Nesse caso, assume o vice-presidente, não importa quem seja. Eu me recordo que disse na época: Pode ser o Temer, pode ser o Tiririca, pode ser qualquer um. O dia que nós usarmos como critério de impeachment a qualidade do vice-presidente, não estaremos defendendo a Constituição como deveríamos. Então eu jamais defendi o processo [de impeachment] pelo Temer ser o vice. O que nós prometemos é que quando o Temer assumisse nós usaríamos os mesmos critérios para ele.

P. Você considera que o Vem Pra Rua usou os mesmos critérios para a Dilma e para o Temer?

R. Absolutamente. Se vocês buscarem o histórico do Vem Pra Rua, nós fomos o único movimento que pediu efusivamente o afastamento de Michel Temer depois do 17 de maio (dia em que foi divulgada uma conversa de Temer com Joesley Batista na qual supostamente os dois discutiram a compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha). Quando veio aquela suspeita, obviamente aquilo cheirava muito mal. A partir daquele momento nós não pedimos o impeachment, mas a investigação total e imediata com o afastamento imediato dele [Temer].

P. Mas por que não houve manifestações de rua da proporção das que ocorreram na época do impeachment?

R. Nós não controlamos [o tamanho das manifestações]. Nós só podemos chamar as manifestações. Elas foram chamadas e o comparecimento não foi o mesmo das vezes anteriores. E não só para esse tema. Nós passamos o ano passado chamando manifestações contra a reforma antipolítica que fizeram [no Congresso] e o comparecimento também foi baixo. Então a população, em termos de rua, se desengajou nesse período. Em termos de mídia social ela continua altamente engajada. 

P. Quais as suas propostas para a área de segurança pública em São Paulo, Estado berço do PCC?

R. Nós não temos ainda detalhes de como lidar com o PCC, mas estamos desenvolvendo alguns detalhes de como lidar com segurança. Em primeiro lugar, nós não teremos um aumento na qualidade do serviço policial enquanto não tivermos um aumento da qualidade no serviço investigativo. A Polícia Civil está abandonada em termos de salário, valorização, equipamentos, treinamento, em número de colaboradores. O foco na Polícia Civil é fundamental. E na Polícia Militar, para tentar diminuir o número de policiais treinados e capacitados que hoje estão em função administrativas e levá-los para o policiamento ostensivo. Isso pode fazer toda a diferença. Não faz sentido investir tanto num policial e depois colocá-lo para trabalhar atrás de uma mesa, um trabalho que, este sim, pode ser terceirizado em alguns casos.

Outra proposta: a gente precisa vigiar as nossas fronteiras (divisas) do Estado. A vigilância de fronteiras hoje é praticamente inexistente. São Paulo não produz em quantidade nem armas nem drogas. Elas precisam entrar aqui de algum jeito. E elas entram hoje sem ninguém conferir nada. Se chega um caminhão lotado, ele não vai ser sequer inspecionado. Uma parte do crime organizado do Rio de Janeiro já está escoando para São Paulo.

P. Você declarou numa entrevista recente para o jornal O Estado de S. Paulo que "tudo o possível tem que ser privatizado". Se for eleito, o que você privatizará?

R. Estamos estudando, mas não temos essa lista pra você, infelizmente.

P. Nenhuma empresa?

R. Nenhuma empresa que nós já tenhamos entrado nos detalhes para saber que ela seria com certeza um alvo de privatização. O que disse na entrevista é que o critério é importante. Aquilo que, privatizado, aumenta a qualidade dos serviços para a população. Não é que tudo será privatizado. É aquilo que faz sentido ser privatizado para melhorar os serviços para a população.

P. Mas entre as empresas que são do Estado, o que seria privatizado?

R. Olha o tamanho disso: São Paulo tem 25 secretarias, um número exagerado. A gente não precisa de tantas secretarias assim. Eu não tenho ainda as secretarias que a gente pretende fundir ou eliminar, mas haverá [o corte]. São Paulo tem 20 empresas estatais: Sabesp, Cetesb, Cesp... e aí vai. A Cesp, não tem por que o Estado de São Paulo ser dono de uma empresa de eletricidade. Se o Metrô continuar com essa atribuição, ele precisa tornar essa administração mais eficiente. É um escândalo nós termos ex-presidentes do Metrô envolvidos em inquéritos. Essa análise é muito mais profunda e requer muitas vezes alguns dados aos quais eu não tenho acesso hoje. Então seria uma irresponsabilidade, sem acesso a estes dados, afirmar quais são [as empresas que seriam privatizadas].

Há ainda as fundações e autarquias de São Paulo. Por exemplo, hospital das Clinicas, USP, Unicamp, Unesp, DER (Departamento de Estradas de Rodagem). Tem alguns desses serviços que o Estado deve estar envolvido, mas não exercer 100% da atividade. Em vários desses casos a única função [do Estado] deveria ser regular, supervisionar, monitorar a atividade privada que vai estar prestando serviços de maior qualidade para a população.

P. Você é a favor de cobrar mensalidade nas universidades estaduais?

R. Eu sou a favor de cobrar mensalidade de quem pode pagar e dar bolsa para quem não pode pagar. Esse dinheiro arrecadado das pessoas que podem pagar, que hoje são muito mais do que a metade [de alunos], deveria ir para reforçar a educação básica e o cuidado com a primeira infância. Hoje a dinâmica é que entra nas universidades públicas, em grande parte, quem veio de escola privada  não quem mais precisa. Então a gente precisa corrigir isso. Mas não podemos cometer uma injustiça com as pessoas que, mesmo tendo participado de um sistema educacional menos desenvolvido, que na média é o público, conseguem entrar na universidade pública. Tem que dar bolsa. De quanto? De quanto ele consegue pagar.

P. Você é a favor de cotas nas universidades públicas?

R. Na situação que nós temos no Brasil hoje as cotas são necessárias. A desigualdade criada pelo sistema político é tão grande que a gente, infelizmente, precisa das cotas. Nós precisamos construir um Brasil que não requeira cotas. A gente precisa construir um Brasil em que não existam grupos notadamente mais vulneráveis e menos favorecidas. Quando chegarmos a esse ponto a gente pode abrir mão delas.

P. João Amoêdo, o nome escolhido pelo partido NOVO para disputar o Palácio do Planalto, disse ao EL PAÍS que o Estado "não deve interferir se as empresas pagam salários diferentes para homens e mulheres". O senhor separaria espaços para mulheres no secretariado do senhor?

R. Eu acho que vai além do secretariado. O tema precisa fazer parte da formulação de políticas públicas. Se há identificação de que as mulheres estão em dificuldade de inserção em algo que políticas públicas possam colaborar para criar uma sociedade com qualidade de vida melhor, a gente precisa fazer esse debate. Ao montar um secretariado e uma equipe de Governo, naturalmente as mulheres vão ter uma participação significativa. Até pela minha experiência pessoal. A maioria dos gestores da minha empresa, da qual eu estou afastado, são mulheres. No conselho do Vem Pra Rua havia mais mulheres do que homem. Eu trabalho em grupos que têm mais mulheres do que homens. E eu nunca fiz isso por cotas. O meu critério é sempre competência. E o que acontece nas administrações em que eu estou envolvido e eu acho que não é uma coincidência é que a parcela de mulheres é significativa. Eu reforço: o critério principal tem que ser competência. E em cargos administrativos a competência da mulher em várias qualificações é, na média, superior à dos homens.

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