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Josué Gomes, um herdeiro do lulismo que Alckmin quer como trunfo

Inviabilidade da campanha de Lula pode empurrar filho de José Alencar para ser vice na chapa oposta. Dirigentes do PR esperam definição até quinta

Lula e Josué conversam durante visita a fábrica da Coteminas em Montes Claros (MG), em outubro de 2017.
Lula e Josué conversam durante visita a fábrica da Coteminas em Montes Claros (MG), em outubro de 2017. PT

O nome de Josué Gomes uniu o Centrão. E o Centrão, o bloco composto agora por PP, Solidariedade, DEM, PRB e o PR de Josué, se reuniu, até agora, em torno da pré-candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) à presidência da República. Nos arranjos finais para o início da campanha eleitoral, o empresário filho do falecido vice-presidente José Alencar ganhou força como companheiro de chapa perfeito, não só para a centro-direita, e é desejado como um último trunfo do ex-governador de São Paulo para consolidar sua caminhada do rumo ao Palácio do Planalto. Um trunfo tão valioso que o PT mobilizou esforços para tentar neutralizá-lo. Toda a movimentação colocou o presidente do grupo Coteminas no centro dos holofotes nesta segunda-feira. O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), havia acenado a Josué com a posição de vice em sua chapa à reeleição. Em resposta, o ex-deputado Valdemar Costa Neto, que comanda as tratativas do Partido da República, decidiu se reunir previamente com o empresário nesta segunda, quando o empresário também conversaria com Alckmin. O tucano saiu da conversa com o mineiro sem acordo ou compromisso, mas pôde comemorar o fato de que Pimentel acabou adiando um encontro que teria o empresário. O suspense seguia.

Historicamente, Josué tem mais proximidade com os petistas, ainda que tenha feito críticas de cunho econômico que o aproximem de Alckmin. O herdeiro político de José Alencar, vice-presidente na chapa com Luiz Inácio Lula da Silva por dois mandatos, tinha um entendimento prévio com o PT, segundo a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR): só seria vice de Lula. Mas uma liderança do PR ouvida pelo EL PAÍS disse que esse acordo só faria sentido se o ex-presidente, preso desde abril, pudesse ser candidato.

Além da parceria de seu pai com Lula, o empresário, que assumiu de fato o lugar de Alencar como presidente do Grupo Coteminas em 2006, foi candidato sem sucesso como "Josué Alencar" ao Senado pelo MDB de Minas Gerais em 2014, com o apoio da então presidenta Dilma Rousseff. Os contatos são ainda mais recentes. Foi na qualidade de principal nome do grupo que controla marcas como MMartan e Santista, dono da maior operação de cama, mesa e banho da América Latina, que, em outubro do ano passado, Josué recebeu a caravana de Lula em uma fábrica da Coteminas em Montes Claros (MG). Na visita, o empresário   ouviu do ex-presidente elogios ao pai, devidamente gravados em vídeo e divulgados na página de Facebook do petista.

Lula elogia José Alencar em encontro com Josué Gomes, em outubro do ano passado

Em abril passado, Josué,  trocou o MDB pelo PR com vias a um possível acordo com o PT em Minas, mas os rumos da política tentam levar o admirado homem de negócios para um lado com o qual ele parece ter mais afinidade ideológica, como mostram suas manifestações como executivo. Desde 2005, a Coteminas se fundiu com a norte-americana Springs e deu origem à Springs Global, também sob a batuta de Josué. Em 2016, no contexto do processo de impeachment de Dilma, o empresário assinou mensagem aos acionistas da Springs Global dizendo que "a falta de convicção nas ações do Executivo, que adotou discurso de austeridade fiscal, porém privilegiando a elevação de tributos, e minimizando o imprescindível corte de despesas e a redução do tamanho do Estado brasileiro, inchado e ineficiente, não ajudaram a tranquilizar os agentes econômicos". "O Brasil se encontra numa encruzilhada, e a sociedade precisa decidir que direção tomar. O processo de crescimento do Estado vem desde a Constituição de 1988", dizia o comentário, que seguia: "Criamos um Estado provedor obeso, ineficiente, voraz, que retira seu sustento dos setores eficientes da economia e não retorna à sociedade com serviços minimamente aceitáveis e dignos".

Esse tipo de discurso pode ajudar o PSDB de Alckmin a recuperar seu protagonismo na centro-direita, considera o cientista político Rafael Cortez, sócio da consultoria Tendências. "A adesão de Josué Gomes também pode levar grandes setores econômicos a contribuir com o financiamento da campanha", diz Cortez _ainda que como pessoa física, já que as doações empresariais estão vetadas. Outra vantagem da parceria com o empresário é a potencial atração do eleitorado mineiro. "Minas é a perna que tem faltado para o PSDB materializar todo seu potencial", opina o cientista político, lembrando que Dilma ganhou de Aécio Neves no Estado em 2014. Para o cientista político Adriano Oliveira, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é possível até que Josué consiga carregar algum capital de sua proximidade com Lula para uma outra chapa.

Na semana passada, quando os partidos do Centrão sinalizaram seu apoio a Alckmin, Josué, que estava em viagem pela Europa, divulgou uma nota pouco conclusiva. "De minha parte, creio firmemente que uma coligação deva estar baseada em programas e ideias que projetem os rumos a serem seguidos pelo Brasil. Recebi com responsabilidade essa possível indicação. Agradeço a confiança que as lideranças depositam em meu nome. No meu retorno, procurarei inteirar-me dos encaminhamentos feitos pelos partidos, para que possa tomar uma decisão", escreveu. Fez menção, ainda, a José Alencar: "Relembro o meu saudoso pai, que dizia que o importante na chapa é quem a encabeça. E acrescentava: 'Vice não manda nada e deve evitar atrapalhar". A decisão, espera-se, sai até a próxima quinta-feira.

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