Colômbia escolhe novo presidente com o desafio de consolidar a paz

País enfrenta em Tumaco a violência do narcotráfico e as máfias que lutam para ocupar o vazio deixado pelas FARC

Soldados colombianos escoltam na terça-feira em Tumaco o braço-direito de Whalter Patricio Arizala, 'Guacho', um antigo guerrilheiro das FARC que agora lidera um grupo de dissidentes na fronteira entre a Colômbia e o Equador e é procurado nos dois países.
Soldados colombianos escoltam na terça-feira em Tumaco o braço-direito de Whalter Patricio Arizala, 'Guacho', um antigo guerrilheiro das FARC que agora lidera um grupo de dissidentes na fronteira entre a Colômbia e o Equador e é procurado nos dois países.HO (AFP)

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A imagem de boas-vindas é um acampamento militar improvisado ao lado da pista de aterrissagem do pequeno aeroporto. As tendas de campanha instaladas sob as árvores dão lugar às ruas de uma cidade tropical desorganizada, com uma confusão sem convulsões aparentes. A perspectiva muda após alguns minutos, pela presença de soldados nas esquinas e, principalmente, pelos relatos dos habitantes.

Tumaco é uma enorme tempestade. Esse porto do Pacífico, com população urbana de pouco mais de 100.000 habitantes, é um espelho dos males que atingiram a Colômbia durante décadas, da guerrilha ao narcotráfico. Agora sofre as consequências de um paradoxo. A desmobilização das FARC após os acordos de paz de 2016 transformou esse município, próximo à fronteira do Equador, em um território em disputa. Uma dúzia de grupos armados, máfias, que em alguns casos utilizam o disfarce de organizações insurgentes e dissidências, procuram tomar o controle dos 23.000 hectares de folha de coca que cercam a cidade, a maior concentração do país. Nos quatro primeiros meses do ano 91 pessoas foram assassinadas, de acordo com as forças de segurança, quase 50% a mais do que no mesmo período do ano anterior. O Governo de Juan Manuel Santos mobilizou mais de 11.000 militares na região, o departamento de Nariño, para tentar garantir a ordem pública e deter um criminoso conhecido como Guacho, dissidente das FARC, um dos homens mais procurados do país. Mas o pavio continua aceso e será um dos principais desafios do presidente que for eleito no domingo.

Todas as conversas em Tumaco giram em torno à violência e o desejo de paz. Na semana passada, a poucos metros da praia, foi criado um conselho municipal encarregado de velar pela convivência e a reconciliação e evitar que a violência provoque novos desabrigados. Foi presidido, vindo de Bogotá, pelo alto comissariado do Executivo Rodrigo Rivera, que, com o vice-presidente, o general Óscar Naranjo, multiplicou o investimento de recursos na região. Nas dezenas de pessoas que o escutavam misturavam-se a esperança e a indignação.

“O problema que todos sentem é que aqui os bisavós enterram os tataranetos”, diz Alberto Parra em um referência genérica aos descendentes distantes. A expectativa dos líderes sociais, das comunidades afro-colombianas e das organizações que tentam melhorar a vida cotidiana nos bairros se choca com a ausência histórica do Estado, em Tumaco e em territórios tradicionalmente vítimas do conflito armado. A primeira urgência é segurança, seguida da redução da desigualdade. “O conselho municipal de paz é uma estrutura muito positiva para encontrar identidades sociais e beneficiar o processo de paz. Mas se o estabelecemos como um espaço simplesmente protocolar não vai adiantar nada. É criado dessa forma e não irá surtir nenhum efeito”, diz Juan Carlos Angulo, pescador desempregado de 42 anos e representante da associação ReconPaz.

Saída de droga

Os dois candidatos que disputam a presidência, o direitista Iván Duque e o esquerdista Gustavo Petro, fizeram campanha na região a partir de diferentes visões do processo de paz. O primeiro anunciou modificações importantes ao acertado em Havana, especialmente em matéria de justiça e reparação à vítimas, enquanto o segundo prometeu aprofundar a reconciliação. No primeiro turno, realizado em 27 de maio, ganhou o candidato impulsionado pelo ex-presidente Álvaro Uribe, principalmente pela força da máquina local de sua candidatura e porque a população pede maior firmeza contra a criminalidade.

A violência e o descontrole fazem com que nesse porto apareçam todos os principais problemas do país, da corrupção à pobreza. “A cadeia do tráfico de drogas está concentrada em um território muito pequeno, que é um porto que envia a droga à América Central e do Sul. Em Tumaco antes estava a coluna Daniel Aldana das FARC e hoje existem 12 grupos: o Clã do Golfo Gente da Ordem, Guerrilhas Unidas do Pacífico, Frente Óliver Sinisterra…”, diz Ariel Ávila, analista e subdiretor da Fundação Paz e Reconciliação. “A costa do Pacífico de Nariño é o melhor exemplo de que se isso não for implementado, com a construção do Estado, vias terciárias e projetos produtivos, algumas regiões do país estão condenadas a viver outra onda de violência”.

O Governo de Santos optou por uma política a longo prazo: a erradicação à força das plantações e a substituição voluntária de plantações. O presidente, que recentemente afirmou ao EL PAÍS que a paz “é irreversível”, detalha os dados dessa política, que por enquanto possui o respaldo dos EUA. “Já temos mais de 125.000 famílias que expressaram seu desejo de substituir a coca, foram assinados convênios com mais de 35.000. Essa será uma solução permanente e estrutural”.

Os camponeses, entretanto, pedem alternativas imediatas e segurança. “As pessoas têm vontade de sair do cultivo da folha de coca sempre e quando nós lhes garantimos o sustento. Caso contrário, não o farão”, diz Leonardo Eduardo Medina, de 26 anos, voluntário em diversos projetos de paz. “Antes era possível sair, ir às praias, passar a noite nas ruas e não acontecia nada”, lembra. “Agora todo mundo se esconde às nove da noite em suas casas. Infelizmente na Colômbia a história que gostamos de lembrar é a do tráfico de drogas romanceado, não a história da paz”. Agora, seu principal objetivo, como o de tantos outros, é reverter essa situação e tentar gerar confiança nas autoridades nas ruas de Tumaco.