Governo da Colômbia e as FARC acertam um novo acordo de paz

Uribe pede a Santos que o texto não seja considerado definitivo até ser revisado pelos partidários do ‘não’

Santos e Timochenko, depois de assinar o primeiro acordo de paz em setembro.
Santos e Timochenko, depois de assinar o primeiro acordo de paz em setembro.r. maldonado (efe)

O Governo da Colômbia e a guerrilha das FARC acertaram no sábado um novo acordo de paz para encerrar uma guerra de mais de 50 anos. Pouco mais de um mês após os colombianos recusarem no plebiscito de 2 de outubro o pacto assinado pelo presidente, Juan Manuel Santos, e o líder das FARC, Rodrigo Londoño, conhecido como Timochenko, as duas partes conseguiram entrar em acordo em um novo texto, que incorpora alguns dos pedidos dos partidários do ‘não’ na consulta.

Horas antes do anúncio, o ex-presidente Álvaro Uribe, principal líder do não no plebiscito, comunicou em sua conta do Twitter e sem muitos detalhes que Santos gostaria de falar de com ele “com urgência”. A mensagem antecipou que o novo texto já era quase uma realidade. Após o encontro com Santos, Uribe revelou que pediu ao presidente que o novo texto não seja definitivo e que seja de conhecimento de todos os partidários do ‘não’ e das vítimas. O propósito, afirmou Uribe, é que qualquer observação e solicitação de modificação seja levada a uma nova reunião com a equipe negociadora do governo.

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Desde que se soube que neste final de semana ocorreria um importante comunicado de Havana, foi convocada pelas redes sociais uma mobilização na Praça Bolívar, no centro de Bogotá. Com a hashtag #HayAcuerdoHayPaz, o assunto foi discutido durante toda a tarde de sábado no Twitter. De vários locais do país, especialmente dos que foram marcados pela violência, vieram mensagens de apoio pelo fato de, após várias semanas de incerteza, aparecer uma nova possibilidade de se consolidar a paz.

Os negociadores do Governo e as FARC estavam desde 4 de novembro em Havana tentando fechar o novo acordo, em uma reunião semelhante à realizada em agosto e na qual foi acertado o primeiro texto, assinado em 26 de setembro em Cartagena por Santos e Timochenko. A ordem para a nova equipe dirigida por Humberto de la Calle era clara: não voltariam a Colômbia até se ter um novo acordo. O Governo levou à capital cubana todas as considerações feitas pelos representantes do ‘não’, aproximadamente 400 propostas agrupadas em 60 blocos, para discuti-las com os dirigentes da guerrilha. Mais uma vez, os assuntos relacionados à justiça e à participação na política das FARC foram os mais delicados. Fontes dos dois lados conhecedoras do novo texto afirmam que o modelo da Jurisdição Especial para a Paz, no geral, se mantém, pelo qual os guerrilheiros evitarão a cadeia e continuarão podendo optar por participar da política.

As principais modificações ao acordo assinado em setembro estão centradas, segundo conhecedores do novo texto, em garantir que a propriedade privada não correrá perigo, como defendiam os partidários do ‘não’ e em tranquilizar os setores ultraconservadores do país, mediante uma nova redação dos conteúdos relacionados ao ponto sobre a questão de gênero. O voto evangélico foi definitivo para a vitória do ‘não’ em outubro. O líder das igrejas protestantes estima que pelo menos dois milhões de fiéis votaram contra os acordos, que, a seu ver, privilegiavam a comunidade LGBTI.

Após o golpe que o resultado do plebiscito significou, que lançou a Colômbia em um precipício de consequências incertas, o Governo e as FARC insistiram na necessidade de se acertar outro novo acordo o mais rápido possível. O principal temor era o limbo em que estavam os aproximadamente 7.000 guerrilheiros – e outros tantos milicianos – que interromperam sua ida às regiões onde iriam se concentrar e iniciar o desarmamento. A urgência do Governo e das FARC contrastava com a paciência pedida pelos vencedores no plebiscito. Os partidários do ‘não’, liderados por Uribe, afirmavam que o novo texto precisava de um debate mais calmo. Os partidários do ‘sim’ consideram que a intenção de Uribe era atrasar o debate para aproximá-lo o máximo possível do início da campanha eleitoral. A Colômbia elegerá o sucessor de Santos em 2018.

O Governo de Santos – que recebeu o Nobel da Paz alguns dias após sair derrotado do plebiscito – tentou passar a mensagem de que o novo acordo é mais completo após reunir as observações dos partidários do ‘não’, algo que não fizeram durante os quatro anos de conversas iniciais. Além disso, tentou-se demonstrar que as marchas e mobilizações solicitando um novo acordo foram essenciais para a elaboração do novo texto.