Eleições na Colômbia

Divisão leva à derrota do centro político na Colômbia

Incapacidade de Sergio Fajardo e Humberto de la Calle para chegarem a um acordo deixa ambos fora do segundo turno eleitoral

A decepção entre os seguidores de Sergio Fajardo pelos resultados eleitorais.
A decepção entre os seguidores de Sergio Fajardo pelos resultados eleitorais.Carlos Julio Martinez (REUTERS)

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Minutos antes de subir ao palco em Bogotá onde faria um pronunciamento após conhecer o resultado das eleições presidenciais da Colômbia, Sergio Fajardo foi abordado por um grupo de seguidores que queriam consolá-lo. “Vamos agradecer e continuamos juntos, esse é o desafio. Não se esqueçam”, disse-lhes, visivelmente emocionado. O candidato da Coalizão Colômbia, o representante do centro nesta disputa, ficou a 250.000 votos de passar para o segundo turno e disputar a presidência contra a direita de Iván Duque.

“Obrigado aos que, como nós, estão um pouquinho doloridos, mas com a satisfação plena de que demonstramos à Colômbia o que significa o poder da convicção e a força da esperança”, manifestou o candidato do centro.

Fajardo obteve mais de 4,5 milhões de votos, com a maior participação da história da Colômbia, 53% do eleitorado. Estava amparado por uma plataforma em que uniu o Polo Democrático, partido de esquerda, a Aliança Verde, uma formação progressista, e todos os eleitores que o levaram à Prefeitura do Medellín e ao Governo de Antioquia.

A Coalizão Colômbia, porém, não conseguiu uma aliança com Humberto de la Calle, que terminou num longínquo quinto lugar. O ex-negociador de paz optou por se lançar à corrida presidencial com o Partido Liberal, depois de uma consulta interna que o deixou de mãos atadas para possíveis acordos na reta final. Quando se viu irremediavelmente atrás nas pesquisas, tentou uma aliança com Fajardo, que nunca se concretizou apesar das evidentes afinidades ideológicas entre ambos no centro do espectro político.

“Esse foi o ponto de ruptura desta campanha”, disse De la Calle em seu discurso de despedida, responsabilizando o ex-prefeito de Medellín por se negar a uma consulta interpartidária. Essa união, apesar dos acenos tardios, naufragou em meio a obstáculos jurídicos e políticos, originados em grande medida na cúpula liberal, nas mãos do ex-presidente César Gaviria. “Tivemos uma relação afável e carinhosa com os candidatos. Nós os respeitamos. É muito importante que na Colômbia aprendamos a ganhar e a perder”, limitou-se a dizer Fajardo em seu pronunciamento em Bogotá.

“Temos que cuidar do nosso país e da nossa coalizão. Na Colômbia é possível. Sabemos unir, sabemos de confiança em lugar de medo. Em 2019 temos que continuar juntos”, afirmou o ex-prefeito de Medellín. É a única referência que fez ao futuro da sua plataforma. Não quis revelar a quem apoiará no segundo turno, em 17 de junho.

Humberto de la Calle manteve sua defesa incondicional do acordo com as FARC, mesmo na derrota. “Onde ficou o ardor e a força com a que enchemos as praças Bolívar em todo o país? Hoje mais do que nunca devemos nos mobilizar, devemos vigiar a implementação do acordo!”, apontou em seu discurso. O candidato liberal tampouco manifestou com clareza seu respaldo no segundo turno, mas deu algumas pistas recorrendo à paz: “Não podemos recuar. A Colômbia tem hoje uma segunda chance sobre a Terra. Esta é a principal responsabilidade que o próximo mandatário terá que assumir”.

Fajardo, apesar da sua notável recuperação, ficou a 250.000 votos de Gustavo Petro, o candidato de esquerda que passa ao segundo turno com Duque. De la Calle obteve quase 400.000 votos, que seriam suficientes para levar o ex-governador de Antioquia para o segundo turno. O centro compareceu dividido ao momento decisivo.

A máquina não rendeu votos

O outro grande derrotado da jornada foi Germán Vargas Lleras. Respaldado (teoricamente) por uma robusta máquina política, o ex-vice-presidente de Juan Manuel Santos, atual mandatário, fustigou os institutos de pesquisa ao afirmar que não mediam seu verdadeiro potencial eleitoral. Mas na pesquisa definitiva, como costumam dizer os políticos sobre a jornada eleitoral, chegou apenas a 7,27%, pouco mais de 1,4 milhão de votos. “Os resultados não nos favoreceram, mas essas são as regras da democracia”, declarou, sem amargura, sobre seu longínquo quarto lugar.

Em um primeiro momento Vargas Lleras criticou sem pudor o acordo de paz, num flerte com a direita mais dura, mas se reposicionou ao ver que essa estratégia não rendia frutos. Apesar de contar com o apoio de boa parte do establishment, sua campanha nunca decolou, e a temida máquina, o sistema clientelista de compra de votos, não chegou a ser acionada, nem sequer na costa do Caribe, seu suposto bastião. “Sempre disse que era preciso defender a institucionalidade e a democracia”, acrescentou em sua sucinta mensagem, sem chegar a aderir a nenhuma campanha para o segundo turno.

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