Assim é a desnecessária ‘Han Solo: Uma História Star Wars’

Ron Howard não consegue dar vida a um filme que claudica já na escolha do seu protagonista

Trailer de ‘Han Solo: Uma História Star Wars'
Trailer de ‘Han Solo: Uma História Star Wars'

Já aconteceu a estreia europeia de Han Solo: Uma História Star Wars, exibido em Cannes. O festival, abandonado como está pelos estúdios de Hollywood, não conseguiu que fosse a première mundial, pois o filme passou em Los Angeles na semana passada. E houve aplausos, algumas vaias (na sala maior das duas dedicadas à imprensa) e certa sensação de cansaço. Por outro lado, em Han Solo: Uma História Star Wars se nota um esforço de roteiro – obra dos Kasdan, pai e filho –, e fica no ar a pergunta de como teria sido o filme se fosse concluído pelos diretores que iniciaram sua rodagem, Phil Lorde e Chistopher Miller (de Uma Aventura LEGO). Han Solo, com sua ambientação de western e sua tentativa de dar sarcasmo à saga, seria outro. Aqui compilamos algumas das chaves do filme, que cheira muito a fórmula e estreia em 24 de maio no Brasil.

Ron Howard. A Disney põe seus bólidos nas mãos de pilotos arriscados e depois lhes diz: “Dirijam com o freio de mão puxado”. Assim acontecem as derrapadas, com as quais seus executivos não parecem aprender. A demissão de Lorde e Miller ocorreu em julho do ano passado, a três semanas do final das filmagens, e o estúdio decidiu contratar Ron Howard para reconduzir o longa, que segundo a major não estava num bom caminho. O veterano diretor é um profissional querido pelos estúdios: nunca cria problemas, mas também não vai entrar para a história do cinema. Por pura acumulação de títulos, tem algo de bom, e é verdade que Han Solo: Uma História Star Wars, depois de um começo arrastado, entretém. Mas falta vibração, porque Howard nunca arriscará seu veículo em ultrapassagens.

A Millenium Falcon ampliar foto
A Millenium Falcon

Alden Ehrenreich. O ator que dá vida ao jovem Han Solo é um protegido de Steven Spielberg, que o colocou em Tetro, de Francis Ford Coppola. A culpa não é de Ehrenreich, que não tem mais o que dar de si, e não possui o encanto nem o carisma de Harrison Ford. A culpa é de quem o escolheu: a Disney, Miller e Lorde. Talvez o mais adequado fosse Miles Teller (Whiplash: Em Busca da Perfeição), que chegou ao crivo final, mas havia ganhado fama de encrenqueiro em Os Quatro Fantásticos, e os produtores não quiseram se arriscar com ele. Ehrenreich bem que tenta. Muito. Mas... Custa acreditar que o Solo de Ehrenreich venha do Solo de Ford. Se o original era um descarado de moral difusa, egoísta e muito imprudente, o de Ehrenreich está mais preocupado com o que vão achar dele. Aliás, o novo ator tem 28 anos, e Ford tinha 34 quando começou a encarnar Solo. Só seis anos os separam? Incrível. Para acabar, grande química com Chewbacca e inexistente com Qi’ra.

Piscadelas clássicas. Não se pode revelar o nome do vilão que aparece no final, e que provocou um grande “Oooohhh” em Cannes. Mas há inúmeras pérolas aos fãs. Só comentaremos alguma: confirma-se a importância do idioma espanhol no sobrenome do protagonista; há uma referência a Tatooine; entre as participações especiais aparece Warwick Davis, que começou sua carreira como o ewok Wicket em O Retorno de Jedi; a voz de Lady Proxima, um bicho de grandes proporções, pertence à mítica Linda Hunt; dá-se uma nova conotação à legendária frase “Tenho um mau pressentimento”... E sobretudo assistimos à criação do mito Han Solo: como obtém sua pistola, como conhece Chewbacca e como escolhe seu apelido; como se encontra com Lando Calrissian; por que quebra o recorde do famoso corredor de Kessel, e presenciamos o mítico jogo de cartas em que ganhou a Millenium Falcon. Tudo recorda muito a apresentação de um jovem Indiana Jones em Indiana Jones e a Última Cruzada.

Lando pilota a nave Millenium Falcon em um salto para o hiperespaço ampliar foto
Lando pilota a nave Millenium Falcon em um salto para o hiperespaço

Paul Bettany. Quando Howard, a Disney decidiu rodar a maior parte do filme novamente (estima-se que 80%), e alguns atores não puderam repetir suas sequências por problemas contratuais. Por isso desapareceu do filme Michael Kenneth Williams, o protagonista de The Wire, substituído por Paul Bettany, considerado um dos grandes azarados de Hollywood. Como homenagem ou porque estava no roteiro, o rosto de Dryden Vos, o líder de uma máfia chamada Crimson Dawn, está riscado por cicatrizes, como a que percorre a cara de Williams. Ficamos sem um possível grande vilão.

Retrocesso feminino. O personagem de Emilia Clarke, Qi’ra, volta aos papéis femininos meio passivos. Meio, porque tem uma hora em que ela... Vamos parar por aqui. Mas Clarke faz o que pode. Certamente, Thandie Newton fica melhor como guerrilheira. Ela sim maneja a pistola com facilidade.

Emilia Clarke, como Qi’ra, em uma cena do filme ampliar foto
Emilia Clarke, como Qi’ra, em uma cena do filme

Novos planetas e personagens. Há novos cenários, como o planeta Corellia, fundamental no começo do filme, mas o importante é o cheiro de spaghetti western, os acenos a clássicos como Glória Feita de Sangue, presentes em todo o roteiro, e que o filme tenha como protagonista não tanto Han Solo, e sim um grupo de foras da lei. Aí está a força da trama. As poucas frases do robô L3, a piloto do Falcon quando a nave é propriedade de Lando, fazem dessa breve personagem uma presença a recordar.

Ausências. Nada sobre a Força, mas alguma coisa se fala do Império e da rebelião. Pela primeira vez não aparecem nem Anakin Skywalker nem nenhum de seus familiares num filme da saga Star Wars.

A música. Um horror. E uma curiosidade: preste atenção na melodia que soa nos anúncios de recrutamento do Império.

Donald Glover. A grande esperança, dado o seu carisma. Estupendo como Lando Calrissian; porém, conta com pouco tempo para desenvolver seu personagem.

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