71º Festival de Cannes

A fúria de Spike Lee atropela Trump e a Ku Klux Klan

Cineasta insulta o presidente dos EUA na apresentação de ‘Black Klansman’, a história de um policial negro que se infiltrou no movimento racista

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Spike Lee já completou 61 anos, mas não significa que tenha amolecido. Nem muito menos que tenha mudado de ideias. A apresentação à imprensa de seu novo trabalho, Black Klansman, mostrou um Lee combativo, irritado, que decidiu “não dizer nem sequer o fucking nome” de Donald Trump, usando em seu lugar a expressão “filho da puta” para mencionar o presidente dos Estados Unidos. Porque Black Klansman narra uma curiosa história, a de Ron Stallworth, um jovem policial afro-americano do Colorado que, durante a presidência de Nixon, conseguiu se infiltrar na Ku Klux Klan, graças à sua lábia por telefone e ao fato de um colega branco (curiosamente, judeu) o substituir nas reuniões presenciais. Chegou inclusive a conhecer David Duke, o Grande Mestre da KKK.

A história é verídica, e quando Lee já tinha acabado de filmar essa homenagem ao gênero blaxploitation – filmes de ação dos anos sessenta e setenta destinados ao público afro-americano, e que criou seus próprios heróis, como Shaft – algo aconteceu: “O filme tinha outro final, mas liguei a televisão e vi na CNN o atropelamento em Charlottesville [agosto de 2017]. Sabia que tinha que contá-lo. Falei com a mãe da assassinada, Heather Heyer, e ela me deu sua bênção para que aparecesse no filme”. O cineasta ficou tão magoado com o atropelamento como com o que ocorreu nos dias posteriores: “Depois de Charlottesville, esse filho da puta [Trump], que define o momento não só para os EUA como para todo o mundo, teve a chance de dizer que apoiamos o amor e não o ódio. E o filho da puta não denunciou nem os putos do Klan, nem a direita radical, nem os filhos da puta dos nazistas”. Então decidiu acrescentar esse epílogo, que salienta também como ainda estão próximos os sentimentos que o filme mostra. “Os Estados Unidos foram construídos sobre o genocídio dos nativos e sobre a escravidão. Assim os EUA foram fabricados. Como diz meu irmão Jay-Z: fatos”. E entre esses fatos está o renascer da KKK e, claro, de David Duke, um dos personagens secundários de Black Klansman.

Para o cineasta, a situação se repete em outras partes do mundo: “Pedimos aos nossos líderes que nos dirijam e que tomem decisões morais. Infelizmente, não acontece só na América [EUA], essa merda acontece no mundo todo. Não é um problema de negros ou brancos, é mundial. Todos nós vivemos no mesmo planeta. E esse sujeito, o da Casa Branca, tem o código nuclear. E além disso estão os da Coreia do Norte e Rússia. Porra, o que está acontecendo?”.

Por isso, para Lee, Black Klansman é algo mais do que cinema. “Para mim é um chamado para que despertemos, neste momento em que a mentira se anuncia como verdade. Para mim tanto faz o que digam os críticos. Sei que estamos no lado certo da história com este filme. E perdoem o meu linguajar, mas a merda que estamos sofrendo me leva a xingar”.

Embora a história transcorra há mais de quatro décadas, Lee aposta no seu sucesso. “Como diretor devo me conectar com o espírito do público atual. Somos contadores de histórias. E além disso me cerco de grandes artistas. É como no esporte: no cinema você só ganha se tiver feito o trabalho de equipe. Fazer cinema é um trabalho de colaboração. Já estou velho, tenho 61 anos, fazer um bom filme é um milagre.”

Para o cineasta – que pediu que não houvesse mais perguntas para ele, e sim para seus atores, mas depois disso continuou falando sem parar –, a Europa também deve ficar atenta ao que ocorre: “Observem como tratamos os emigrantes em todo o planeta, então a merda não é só da América”. E a respeito do uso contínuo da palavra nigger no filme, um termo muito pejorativo para se referir aos negros nos EUA, afirmou: “As palavras podem estar cheias de ódio. Certo, mas as pessoas falam nos meus filmes do mesmo jeito que as pessoas falam no mundo. E não tem a ver apenas com os negros, mas também com os judeus. Quem acha que o Klan odeia os negros, mas não os judeus, precisa acordar. Os judeus são os segundos na lista do Klan”. Resta espaço para a esperança? “Eu acredito na esperança. Faça a Coisa Certa é um filme esperançador. Mas não sou nem cego nem surdo, então acho que você pode ter esperança e ao mesmo tempo se preocupar com o que está acontecendo”.