Exposição de Fotografia

Uma outra história: a iconografia de um país nada cordial

Exposição em cartaz no IMS, em SP, abrange 75 anos de conflitos mostra país longe de ideia conciliadora

Casa bombardeada em São Paulo, em 1924, uma das imagens da exposição 'Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964'.
Casa bombardeada em São Paulo, em 1924, uma das imagens da exposição 'Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964'.Coleção Monsenhor Jamil Abib

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Quando olha para as disputas, conflitos e violências atuais, o Brasil tem muitas vezes dificuldade em entender de onde partiu a centelha do conflito, exatamente. Afinal, o retrato do brasileiro como um povo cordial, pacífico e conciliador abunda tanto na historiografia, quanto na iconografia. As grandes imagens do Brasil falam, muitas vezes, de um país icônico: jangadas ao mar, religiões afro-brasileiras, novas cidades sendo erigidas em meio ao cerrado. Oferecer uma outra representação, que ilustre os conflitos e violências constantes que fizeram e fazem parte da história do país, é o que pretende a exposição Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964, que, depois de uma temporada no Rio de Janeiro, chega ao Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo nesta terça-feira, dia 8.

Cobrindo um período de 75 anos, as cerca de 400 imagens que compõem a exposição fazem um percurso através de revoltas populares, rebeliões, guerras civis, golpes de Estado e tentativas de revolução que se deram a partir da proclamação da República, em 1889, até o golpe militar de 1964. O grande período abarcado pela mostra e as especificidades de cada evento – são 19 ao todo – têm em comum o fato de que todos os conflitos retratados tiveram, de alguma forma, o envolvimento do Estado e foram parte de um processo maior de disputa política.

Na exposição, capítulos menos e mais conhecidos da história brasileira ganham, através das imagens, uma materialidade que permite uma compreensão maior de suas reais dimensões e reverberações, como a Guerra de Canudos (1896-1897) e o Tenentismo, que durou boa parte da década de 1920. A primeira foto que abre o percurso de eventos retratos, por exemplo, mostra um homem sendo degolado durante a Revolução Federalista (1893-1895), conflito pela disputa do poder do Rio Grande do Sul. Na época, a cruel degola era um evento corriqueiro desde, pelo menos, a Guerra do Paraguai (1864-1870), por motivos tão fúteis quanto a economia de munição e afirmação de superioridade. Chocante, contudo, a imagem é simbólica de uma prática disseminada não só naquele Brasil, mas também neste – quando se lembra das atuais rebeliões e disputas de facções em presídios.

Outras fotos, como a de duas crianças em meio aos escombros de uma casa bombardeada em plena Vila Mariana, bairro de classe média de São Paulo, durante a Revolução de 1924, fazem refletir sobre o tamanho que determinados eventos tiveram e a imagem que se têm deles hoje. Em 1924, a revolta de tenentes descontentes com o Governo Federal de Arthur Bernardes foi um dos passos que resultaram na Revolução de 1930, em que Getúlio Vargas assumiu o poder. Do conflito, que sitiou a capital paulista por cerca de 20 dias, saíram milhares de feridos e mortos. Apesar da história ser conhecida, a fotografia dá contornos reais para o drama da população civil, bombardeada pelo próprio Governo, e faz pensar na real dimensão de acontecimentos que às vezes são tratados como capítulos protocolares nos bancos escolares.

Em conversa com o EL PAÍS, a curadora da exposição, Heloísa Espada, ressalta o fato de que, se por um lado, a mostra é um resgate de acontecimentos marcantes da vida nacional, também serve como uma pequena história da fotografia documental e do fotojornalismo no Brasil. “No século XIX, por exemplo, o lugar da fotografia ainda era muito distante da denúncia do fotojornalismo, então, muito do que há disponível é material oficial, que mostra uma determinada narrativa”, diz. Muito do que era produzido tinha a intenção apenas de revelar o lado vitorioso do Governo, mesmo em ocasiões dramáticas, como a Guerra de Canudos, que resultou na morte de 20 mil pessoas, entre soldados e a população do local que foi dizimada. Os relatos das grandes mazelas só vinha por texto e à imagem era reservado um caráter de história oficial.

A evolução das tecnologias fotográficas fazem com que as narrativas também mudem. Se antes as fotos eram estáticas, a partir dos anos 1930 elas começam a mostrar ação e pontos de vista diferentes e não oficiais – ainda que, como lembra Espada, toda produção iconográfica seja carregada de intenções. Impressionantes, por exemplo, são as imagens do dia do suicídio de Getúlio Vargas, em 1954: a praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, então capital federal, completamente tomada por um cortejo de pessoas que levava seu corpo até o aeroporto; os caminhões de grande parte da imprensa, identificada pela população por fazer uma campanha anti-getulista, depredados. Aí, o fotojornalismo já era uma realidade e as revistas ilustradas, como a Cruzeiro, tinham alta vendagem. As intenções por trás de quem tira a foto e a edita, contudo, nunca deixaram de ser uma questão.

“Toda imagem realizada num conflito é interessada e abordá-la é abordar também os fatores que moldam seus significados”, diz Espada na abertura do livro catálogo – que pode ser lido e comprado separadamente. Por isso, segundo ela, o material serve ainda como um registro de como e por quem foi contada a história das violências brasileiras. Na elaboração de Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964, foram gastos cerca de quatro anos, entre pesquisa e confecção do material, em que a curadora contou com o apoio de uma equipe de pesquisadores. A socióloga Angela Alonso, que participou do processo, escreve também no livro: “Se você aprendeu na escola que este é um país pacífico e conciliador, vai desaprender. Aqui se descortina uma sociedade de faca, tiro e bomba. Não pense que se fala de um mundo à parte, o dos 'marginais'. É do coração da República que se trata”.