Gabriel Jesus enfeitava rua na periferia em 2014. Agora, é a esperança de gols na Copa

Atacante marcou o gol da vitória contra a Alemanha que levantou a autoestima da seleção.

Ele já atingiu o status de intocável no grupo

Gabriel Jesus Brasil Alemanha
Jesus marcou o gol da vitória brasileira contra a Alemanha. AFP

Às vésperas da última Copa do Mundo, Gabriel Jesus era apenas um garoto de 16 anos que ajudava os colegas de bairro a pintar as ruas em verde-amarelo na periferia de São Paulo, seguindo uma tradição bem brasileira que antecede cada Mundial. Naquela época, já despontava como promessa nas categorias de base do Palmeiras, mas poucos poderiam imaginar que em tão pouco tempo ele se tornaria um dos grandes atacantes da atualidade no futebol. “Sempre fui sonhador”, escreveu Jesus ao divulgar fotos de quatro anos atrás em que aparece descalço e sujo de tinta.

Hoje, aos 20 anos, o atacante do Manchester City não vai mais ajudar os amigos do Jardim Peri a enfeitar as ruas para a Copa. Afinal, ele é um dos jogadores já garantidos pelo técnico Tite no torneio da Rússia, em junho. Diante da Alemanha, ele marcou o gol da vitória que levantou a autoestima da seleção brasileira, ainda abalada pela sombra do 7 a 1 em 2014. O jogo em Berlim teve um peso emblemático para o Brasil. Tanto que, apesar do duelo amistoso, Tite fez apenas uma substituição ao longo dos 90 minutos: trocou Philippe Coutinho por Douglas Costa. Jogador de confiança do treinador, Gabriel Jesus permaneceu em campo durante toda a partida, embora, segundo sua própria autoavaliação, não tenha vivido “seu melhor dia” com a camisa amarela. “Eu não estava bem tecnicamente, reconheço. Errei passes e finalizações que não costumo errar”, disse na saída do gramado.

Um minuto antes de anotar o gol de cabeça, aproveitando um cruzamento de Willian, o camisa 9 havia perdido boa oportunidade de abrir o placar depois de driblar dois zagueiros e chutar para fora. “Troquei a técnica pela raça. Foi um gol de raça”, resumiu. Mesmo em dias não muito inspirados, Gabriel Jesus consegue dar mobilidade e agressividade ao ataque brasileiro. Como não fica preso na área, abre espaço para a infiltração dos meias e consegue desestabilizar as defesas adversárias somente com sua movimentação. É o atleta que melhor representa a renovação da equipe brasileira desde que Tite assumiu o comando, em junho de 2016. Foi o treinador quem apostou no atacante para ocupar o posto de 9 depois de ele ter se destacado na conquista do inédito ouro olímpico para o Brasil.

Logo em sua estreia pela seleção principal, na primeira partida de Tite como técnico da equipe, Jesus marcou dois gols e sofreu um pênalti diante do Equador, pelas Eliminatórias sul-americanas. Ao lado dele, outros jogadores que haviam passado despercebidos pelos ex-técnicos da seleção também se consolidaram no time, como Marquinhos, Casemiro e Philippe Coutinho. Mas a ascensão de Gabriel Jesus se tornou cada dia mais notável. Com nove gols, ele é o artilheiro da equipe dirigida por Tite, superando até mesmo Neymar, com quem compartilhou o entrosamento da campanha olímpica. “A dinâmica do Gabriel Jesus é uma coisa impressionante”, elogia Tite. “Ele participa muito do jogo e, ao mesmo tempo, tem faro de gol, está sempre bem posicionado para finalizar. Se encaixou rápido no time pela qualidade que tem.”

No fim de 2016, depois de ajudar o Palmeiras a conquistar o Campeonato Brasileiro, o atacante se transferiu para o Manchester City por 33 milhões de euros (122 milhões de reais). Sob o comando de Pep Guardiola, evoluiu taticamente e ganhou mais força física. O técnico espanhol foi fundamental para sua rápida adaptação ao futebol inglês, impedindo que Gabriel Jesus se abatesse com chances perdidas e escolhas equivocadas em campo. Nos 25 primeiros jogos pelos Citizens, anotou 15 gols e deu seis assistências. Porém, uma lesão no joelho esquerdo o tirou de combate por quase dois meses. Voltou a jogar no fim de fevereiro. Apesar de contar com a admiração de Guardiola, ainda divide espaço e minutos no ataque com o argentino Kun Agüero. “Gabriel Jesus é um atacante lutador, que não desiste das jogadas. Mas ainda precisa aprender a conduzir menos a bola”, observou o treinador.

Gabriel Jesus pintando rua
Jesus pintando rua do Jardim Peri, em 2014.

Já na seleção, ele parece ter atingido o status de intocável. A boa fase de Roberto Firmino, no Liverpool, não foi suficiente para ameaçar a titularidade de Jesus. Apenas Pelé tem mais gols (19) que ele levando-se em conta os 15 primeiros jogos pela seleção brasileira principal. Seus nove gols o fizeram superar as marcas de Neymar e Romário e a igualar Ronaldo, que também marcou nove vezes em suas 15 primeiras exibições com a amarelinha. Gabriel Jesus terá 21 anos ao estrear na Copa da Rússia. Desde Ronaldo, em 1998, a seleção não conta com um centroavante tão jovem para vestir a 9 em um Mundial. Depois da “era Fenômeno”, o Brasil apostou em Luís Fabiano (29 anos), em 2010, e Fred (30 anos), em 2014 – nomes pouco empolgantes para uma camisa habituada a artilheiros do calibre de Ronaldo, Romário e Pelé. Dessa vez, o jovem Gabriel Jesus simboliza a esperança de afirmação e consagração de um novo goleador. Responsabilidade bem maior que a de quatro anos atrás, quando sua única obrigação para o Mundial era pintar as ruas do Jardim Peri.

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