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A fuga interminável de Josef Mengele, o médico de Auschwitz

Livros e ensaios voltam sobre a figura do médico alemão, mais conhecido como “O anjo da morte”

Josef Mengele
Grupo de oficiais das SS em Auschwitz, na segunda metade de 1944. O segundo a partir da esquerda é Josef Mengele. Getty Images

Para que o Holocausto fosse possível, dezenas de milhares de pessoas precisaram colaborar e participar do maior crime da história. De todos os perpetradores, um nome continua sendo sinônimo do mal, o médico de Auschwitz Josef Mengele, conhecido como O anjo da morte por seus bons modos por trás dos quais escondia seu sadismo. O escritor francês Olivier Guez levou o prêmio Renaudot, o segundo mais prestigioso de seu país depois do Goncourt, por La Disparition de Josef Mengele (O Desaparecimento de Josef Mengele), um romance de pesquisa sobre a fuga à América Latina do médico bávaro, que nunca foi preso e julgado.

“Sou reticente em qualificá-lo de mal absoluto, o que me aterroriza é sua total normalidade”, explica Guez. O escritor e jornalista francês já havia escrito sobre a busca de antigos nazistas por ter sido corroteirista do filme alemão O caso Fritz Bauer (2015), que relata os esforços do promotor que dá nome ao filme para retomar as perseguições contra os criminosos de guerra nos anos cinquenta. Bauer ajudou Israel a localizar Adolf Eichmann, um dos principais executores do Holocausto, capturado por Israel, julgado e enforcado. Mengele, por sua vez, conseguiu escapar, apesar do promotor ter a informação de que o médico iria realizar uma visita à casa de sua família na Baviera.

Mengele foi um dos numerosos médicos que trabalharam no campo de extermínio nazista de Auschwitz e realizou experiências com seres humanos, especialmente com gêmeos. Como explica o historiador Pawel Sawicki, membro da equipe de imprensa e guia do antigo campo alemão, “os médicos tinham um papel essencial no processo de extermínio”. Eram médicos os que realizavam a seleção dos deportados judeus assim que chegavam ao campo e os que, em poucos segundos, decidiam quem vivia e quem morria (por volta de 80% era enviado diretamente à morte). Também eram os médicos das SS os que supervisionavam as câmaras de gás: o processo de extermínio sempre era realizado na presença de algum deles. Mas de todos os médicos do mal que passaram por Auschwitz o nome que ficou para a posteridade como sinônimo daquele horror é Mengele.

“Não vou falar da banalidade do mal, mas Mengele não foi um assassino nato, foi um homem que cometeu atrocidades, que não sentia nenhuma empatia e piedade a outros seres humanos. Era um homem autorizado a fazer coisas inomináveis”, diz Guez (Estrasburgo, 1974), também autor do ensaio L’Impossible Retour. Une histoire des Juifs en Allemagne depuis 1945 (O impossível retorno. Uma história dos judeus na Alemanha partir de 1945). “Depois vem a mitologia, os filmes, as ficções, a ideia do poderoso criminoso impossível de se capturar, todas essas lendas circulam. Seu nome também é muito particular, produz uma certa ressonância e por isso é o único que retivemos”.

O historiador britânico Laurence Rees publicou recentemente um ensaio, O Holocausto, em que resume todo seu trabalho sobre o extermínio dos judeus da Europa. Como documentarista da BBC, Rees realizou numerosas entrevistas tanto com vítimas como com algozes. E na primeira cena do livro, baseada no depoimento de uma sobrevivente, Fred Wineman, aparece o doutor Mengele realizando a seleção na estação de Auschwitz-Birkenau.

O momento que descreve demonstra até que ponto o horror vivido ali é impossível de se entender em tempos normais. Quando os novos deportados chegavam, enquanto esperavam a seleção, os presos obrigados a colaborar com os nazistas que viam jovens mães com crianças pediam que as entregassem a mulheres mais velhas. Mas não explicavam o porquê. Se os SS os descobrissem revelando o segredo do que iria acontecer, seriam imediatamente mortos. O motivo era que uma mulher com uma criança era enviada imediatamente às câmaras de gás, porque separá-las poderia provocar um tumulto. Por outro lado, uma mulher jovem sozinha tinha mais possibilidades de sobreviver à seleção. A pessoa que tomava as decisões sobre a vida e a morte nessa cena era Mengele.

Prioridades da Mosad

O livro de Guez centra-se na fuga do nazista e em sua estadia na América Latina. Mesmo que se trate de um romance, o que permitiu ao autor recriar os pensamentos do médico e preencher os espaços vazios, é baseado em uma longa pesquisa. O autor explica que tudo o que conta está sustentado em pelo menos duas fontes e que viajou aos lugares da fuga do médico: Argentina, Paraguai e Brasil, onde morreu afogado em 1979. Após a captura de Adolf Eichmann por um comando israelense em 1960, Mengele apagou como foi possível seu rastro, o que dificultou o trabalho.

Mengele viveu no Brasil como o austríaco Wolfgang Gerhard, 54 anos, um homem viúvo, que trabalhava como técnico mecânico e residia no bairro do Brooklin Novo, em São Paulo. Ele passava férias em Bertioga, no litoral de São Paulo, com um casal de amigos, Wolfram e Liselotte Bossert, quando se afogou. Liselotte acabaria sendo processada em 1985 por falsidade ideológica no Brasil, após apresentar o documento falso de identidade de Mengele no dia do óbito. Wolfram, por sua vez, é apontado como um ex-oficial do Exército nazista que morava no Brasil desde a década de 1950, e acabou morrendo no dia seguinte após seu esforço para tirar Mengele da água. Os ossos do médico do Holocausto foram doados para a Universidade de São Paulo e hoje são utilizados em aulas de medicina forense.

Mas há pouco tempo foram tornados públicos alguns documentos do Mosad, o serviço secreto israelense, que demonstravam que desistiram de procurar Mengele porque reuniram todos os seus esforços na ameaça existencial que os seus vizinhos árabes representavam nesse momento, antes da Guerra do Yom Kippur em 1973. É algo que já aparece no romance de Guez. “Minha impressão é a de que estiveram prestes a capturá-lo, mas que a ameaça árabe no começo dos anos setenta foi considerada uma prioridade absoluta para o Mosad”, afirma Guez. O anjo da morte morreu aos 67 anos sem nunca ter respondido perante à justiça.

O mais famoso, mas não o único

Mulheres e crianças judias, na entrada de Auschwitz em 1943.
Mulheres e crianças judias, na entrada de Auschwitz em 1943. Getty Images

Josef Mengele foi o mais famoso dos médicos assassinos das SS, mas não o único. No pavilhão 20 do campo de Auschwitz, foram realizadas experiências médicas com presos, algo bem comum em todo o sistema de terror nazista. Esse método de tortura era tão atroz que provocou dúvidas em alguns dirigentes, mas Hitler deu a autorização. Algumas vezes eram experiências com fins militares – por exemplo, testar a resistência ao frio –, outras era sadismo baseado nas doentias doutrinas raciais nazistas – as experiências com gêmeos – e outros testes destinavam-se à esterilização.

Dois dos ginecologistas que participaram desse último programa foram Carl Clauberg e Horst Schumann, que provocaram atrozes sofrimentos em mulheres. Clauberg foi capturado pelas tropas soviéticas, julgado e condenado. Libertado em 1955, voltou a exercer a medicina na República Federal da Alemanha (antiga Alemanha Ocidental). Trabalhava na mesma clínica e se gabava publicamente de que havia inventado uma nova técnica de esterilização em Auschwitz. Foi preso graças aos protestos das vítimas, mas morreu de um ataque do coração antes de ser julgado. Schumann, um indivíduo especialmente sádico que injetava tifo em presos, conseguiu fugir e, após passar por vários países, foi extraditado em 1966, condenado em 1970 e libertado por doença em 1972. Mas só morreu em 1983 após passar os últimos 11 anos de sua vida em liberdade.

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