O que é o ódio? Por acaso tem cura?

Fomentado pela política, ódio manifesta-se nas redes sociais o com virulência e até com nomes e apelidos. Mas qual é a anatomia do ódio?

Supremacista branco, Richard Spencer no protesto neonazista de Charlottesville
Supremacista branco, Richard Spencer no protesto neonazista de CharlottesvilleAFP

As pessoas retratam o ódio apelando para emoções negativas e intensas, como o desprezo, a raiva ou o nojo, causados pela crença ou o julgamento de que o outro, o odiado, é um ser malvado e detestável. É como um estado de excitação, de fixação no odiado, e de desejos de vingança. Pode se dirigir contra indivíduos, como Donald Trump, contra o líder da oposição, contra um colega de trabalho ou contra o vizinho da frente; também contra negros ou judeus; contra o machismo, contra a homossexualidade ou o travestismo; contra perversões mentais, como o abuso de crianças; contra ideologias e religiões, como o comunismo ou o cristianismo; e até contra objetos inocentes, como o velho computador que trava toda hora ou a descarga do banheiro que vaza água.

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Muitos ódios são individuais, como o ódio ao ex-cônjuge, mas outros são compartilhados por muita gente. O ódio aos judeus foi e é compartilhado na história por nazistas e palestinos. Abusadores de crianças são odiados por todos. A hostilidade em relação a um grupo diferente aumenta a solidariedade e a coesão do próprio grupo. Muitos ódios são mútuos. Judeus e palestinos, sérvios e croatas, hutus e tutsis se odeiam mutuamente. O ódio mútuo também se manifesta com frequência entre grupos e líderes políticos, colegas de trabalho ou vizinhos de andar. Odeia-se muitas vezes a quem se considera fora da justiça e moralmente excluído, negando-lhes direitos sociais e bom tratamento. Assim ocorreu historicamente com os escravos negros aqui no Brasil, e com os mouros ou com os ciganos na Europa. Os responsáveis desvalorizam as vítimas cada vez mais e no fim deixam de tratá-las como pessoas. Ainda mais grave é que, uma vez criada a desvalorização, ela pode ser transmitida pela cultura de pais para filhos, de educadores para educados e de geração em geração. E não é menos verdade que a desumanização muitas vezes foi precedida pela injustiça, como quando se proibiu a educação dos negros, que depois foram desvalorizados por sua ignorância. O neologismo “aporofobia” foi criado pela filósofa Adela Cortina para se referir à tendência que temos de desvalorizar principalmente os pobres, desumanizando-os.

As pessoas que odeiam não gostam de odiar sozinhas, porque isso as faz se sentir inseguras. Quem odeia se sente conduzido a levar os outros a odiar como eles, pois a validação de seu ódio pelos outros reforça sua autoestima ao mesmo tempo em que os impede de raciocinar sobre suas próprias inseguranças. Os grupos de ódio formam identidades coletivas com suas manifestações e palavras de ordem, e por meio de símbolos, rituais e mitos que quanto mais degradam os odiados mais engrandecem seus acólitos e membros selvagens. O ódio é especialmente grave quando, além de mudar pensamentos e emoções, proclama e prega a condenação moral e a desumanização dos odiados.

Fontes do ódio

As raízes biológicas do ódio são frágeis, pois, apesar de nos predispor a odiar, para que cheguemos a isso também é preciso ocorrer outro tipo de circunstâncias sociais e culturais. O ódio pode surgir das crenças e preconceitos que temos, de conflitos entre grupos e dos problemas econômicos, ou das turbulências e promessas políticas que frustram as pessoas. Apegado ao preconceito, o ódio muitas vezes encontra suas raízes na história, por exemplo, nos tumultos tribais na África entre hutus e tutsis, ou nos conflitos que mantiveram os Bálcãs secularmente em convulsão e contribuíram poderosamente para a cruenta e recente guerra entre suas diferentes populações. A ideologia, especialmente quando se torna fanatismo, é outra poderosa fonte de ódio. A doutrinação ideológica costuma reagir a ódios ancestrais que interessa perpetuar, e a ambições de poder.

É muito grave e prejudicial quando acontece no próprio governo de um país e se manifesta especialmente na educação dos mais jovens. Costuma ser embasado por mentiras ou meias-verdades sobre a história do país e sobre as responsabilidades e causas e causadores dos males presentes que afetam a parte ou o conjunto de sua população. O grupo que sustenta uma ideologia se considera moral e até intelectualmente superior aos demais. Essa superioridade gera ódio e o ódio abriga sempre o conspícuo ou explícito desejo de um mundo sem o odiado. O pior de certas ideologias é que também contribuem para o ódio ao legitimá-lo.

Os líderes, com suas palavras e ações, instigam com frequência o ódio e a exclusão social dos odiados, muitas vezes apontando para eles explicitamente e considerando-os intrusos em seu país ou em seu grupo particular ou sociedade. Seus seguidores se identificam com eles e com a ideologia que propagam. Seu principal recurso é a demonização do adversário, identificada no sentido de que a censura e até a violência contra ele poderiam ser justificadas, e isso reduz a inibição de quem odeia para agir de outras formas. O que acontece é que uma vez que se desenvolve o ódio, os líderes que o promoveram já não conseguem controlá-lo. Isso escapa de suas mãos ao ganhar autonomia nas mentes das pessoas nas quais foi inoculado e já não pode ser mudado com facilidade.

Os líderes, assim, acabam se tornando escravos de sua própria situação, pois sua audiência dificilmente que se corrijam, se por alguma razão considerarem isso necessário. Nunca poderão contradizer a causa inoculada sem se transformar em traidores da pátria, ou seja, nos traidores mais odiados. Os meios de comunicação também podem ser especialmente usados para difundir informações e ideias extremas em anúncios, notícias ou debates que incitam o ódio e legitimam a violência contra os odiados. As rádios e televisões do ódio foram um fato que contribuiu para os enfrentamentos bélicos e assassinatos em países como Ruanda, Angola e Iugoslávia.

A fonte mais moderna de ódio são as redes sociais da Internet. Sem dúvida, nem tudo é ódio nelas, mas o grau de anonimato e o senso de impunidade que essas redes podem proporcionar faz com que muita gente perca a inibição para a desqualificação, o insulto e a ameaça. E assim acontece, infelizmente, em muitas ocasiões em que os conteúdos das mensagens incitam ao ódio a pessoas concretas ou ao confrontar posições ideológicas ou militâncias radicais em terrenos como a política ou o esporte, especialmente o futebol. Outro modo de instigar ódio consiste em fazer com que as pessoas se sintam ameaçadas ou vítimas de outras pessoas, ou seja, vítimas de supostos ou reais abusadores a quem acabam odiando. A humilhação em particular pode iniciar um ciclo de ódio e violência intensos. Os eventos humilhantes produzem sempre muito mais ódio do que os não humilhantes. Demoramos muito pouco a odiar e maldizer quem nos humilha em público, por exemplo, destacando nossos defeitos e erros ou desqualificando-nos.

O ódio no cérebro

Os líderes, com suas palavras e ações, instigam com frequência o ódio e a exclusão social dos odiados, muitas vezes apontando-os explicitamente e considerando-os intrusos em seu país ou em seu grupo ou sociedade particular.

O sentimento de ódio coincide com a ativação do cérebro de estruturas como o córtex frontal medial, envolvido na capacidade de argumentar, o núcleo putâmen, o córtex pré-motor e o córtex insular. Curiosamente, o putâmen e o córtex insular são estruturas do cérebro que participam também da percepção do desdém e do nojo. Não é estranho, portanto, que estejam envolvidas no ódio.

Já se disse além disso que do amor ao ódio é só um passo, e por isso não é estranho que algumas das estruturas cerebrais que se ativam para o ódio o façam também quando as pessoas se apaixonam, mas também se observou que o córtex pré-frontal, associado ao julgamento e ao raciocínio, que se desativa no amor, não o faz tanto quando o que as pessoas sentem é ódio. Como se o ódio exigisse manter a capacidade de raciocinar para calcular melhor como agir contra o odiado, ou para manter os pensamentos que o alimentam e potencializam.

Como enfrentar o ódio

O ódio não desaparece simplesmente porque as circunstâncias externas mudam. Sendo realistas, é preciso reconhecr que não há fórmula mágica para curá-lo e erradicá-lo por completo, especialmente em sociedades culturalmente diversas e problemáticas. Infelizmente, é possível que não tenhamos outro remédio além de aprender a conviver, isso sim, com o menos possível dele. Os processos que mudam o sentimento de ódio são lentos e exigem compreender suas raízes, cicatrização, reconciliação, contato intenso entre as pessoas, trabalhar para compartilhar projetos comuns, criar uma história do passado aceitável tanto pelos que odeiam como pelos odiados, e, sobretudo, humanizar o odiado, deixar de considerá-lo perverso e sentir que é alguém que também pensa e tem suas próprias ideias e sentimentos.

Apesar de o ódio, por natureza, mudar aumentando, precisamos confiar também que o tempo acabe sempre por esfriá-lo e fazer com que quem odeia olhe mais para si mesmo, reflita de outro modo e que isso possa permitir uma mudança em seus sentimentos e atitudes em relação aos demais. Pelo menos uma parte de nosso ódio viria abaixo se parássemos para refletir dessa forma: “Por que odeio? O que pretendo conseguir com isso? O que ganho e o que perco com meu ódio?”.

Definitivamente, o ódio deve ser combatido com compreensão e ação, o que implica reconhecer sua existência, muitas vezes sutil, entender como é fomentado nas histórias, nas manifestações das pessoas e na propaganda, denunciá-lo onde acontece e comunicar e explicar suas consequências, particularmente as que levam à desunião e à ruptura de relações entre as pessoas, à falta de cooperação e à violência, aos massacres e ao genocídio. Não se pode lutar contra o ódio se o consideramos aceitável ou tolerável.

Já se disse acertadamente que as pessoas inteligentes podem odiar, mas nunca as sábias, como Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Madre Teresa ou Nelson Mandela. A sabedoria é muito mais do que a inteligência, pois acrescenta bondade e generosidade, experiência e criatividade, além de buscar o bem coletivo e em longo prazo, mais que o de um grupo ou, pior ainda, o próprio. Uma boa educação para combater o ódio deveria nos ensinar a ser sábios mais do que inteligentes, pois o ódio nunca resolve problemas —o que faz é sempre agravá-los e fomentá-los.