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11 tiros de ódio contra Raphaella Noviski

Garota de 16 anos foi morta em escola de Alexânia por suspeito que vai ser indiciado por feminicídio

A estudante Raphaella Noviski.
A estudante Raphaella Noviski. Facebook

Dezessete dias depois de um adolescente atirar contra colegas de classe, mais uma escola de Goiás foi palco de um assassinato com arma de fogo. Dessa vez a vítima é uma garota de 16 anos chamada Raphaella Noviski, aluna do 9º ano do Colégio Estadual 13 de Maio, em Alexânia, no interior do Estado. Ela já se encontrava em sala de aula com outros colegas quando, por volta das 8h da manhã desta segunda-feira, recebeu vários disparos na face, segundo explicou ao EL PAÍS Rafaela Azzi, delegada da Polícia Civil responsável pelo caso. Apenas a menina foi atingida. Misael Pereira Olair, de 19 anos, foi preso em flagrante pela Polícia Militar ao tentar fugir. Ele confessou que havia juntado dinheiro durante um ano para comprar a arma e cometer o crime.

“Em um depoimento inicial, ele disse que tinha ódio de Raphaella. Mas à medida que foi interrogado, ficou claro que havia uma motivação passional, uma não correspondência amorosa”, conta Azzi. Ela explica que ambos estudaram na mesma turma e que ele sempre tentava uma aproximação, inclusive por redes sociais. “Mas ela recusava, não dava brecha. Esta recusa minou o sentimento dele. Então ele conta ter juntado dinheiro durante um ano para comprar uma arma”, acrescenta.

A arma em questão é um revólver calibre 32. Misael Pereira Olair pulou o muro do colégio por volta de 8h da manhã e, com a pistola em mãos, rapidamente chegou até a sala onde seu alvo se encontrava. Como todos os alunos e professores já estavam em sala de aula, não houve quem o parasse nos corredores. “Ninguém o viu, tudo ocorreu numa fração de segundo. A escola não é muito grande, então ele pulou o muro e rapidamente chegou até a sala”, conta a delegada. Ao entrar, disparou na cara de Raphaella Noviski “a uma distância de meio metro”. Ainda deu tempo de recarregar a arma. “Ele fez entre 11 e 12 disparos”, completa Azzi.

A jovem morreu no local. O autor do crime tentou escapar, mas acabou interceptado pela Polícia Militar. No final do interrogatório, relatou que sua intenção após o assassinato era cometer suicídio.

A delegada responsável pelo caso garante que o autor do crime será indiciado por feminicídio, uma vez que se trata de “um crime sexista” motivado por um “sentimento de posse” por parte do suspeito, segundo argumenta. “Existe claramente neste caso a visão de que a mulher é um objeto. Sem dúvida o que aconteceu é uma violência de gênero”, completa. O suspeito não tem passagem pela polícia e poderá pegar uma pena máxima 30 anos de cadeia, ainda segundo a delegada.

Do total de 4.657 mulheres assassinadas em 2016 no Brasil, 533 casos foram classificados como feminicídio, o que demonstra as dificuldades da implementação da lei em seu primeiro ano de vigência, segundo aponta a última edição Anuário de Brasileiro de Segurança Pública. Já o Mapa da Violência de 2015 mostra que, entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram por serem mulheres. E a Organização Mundial da Saúde (OMS) fala em uma média de 4,8 assassinatos para cada 100.000 mulheres no país.

Em nota, a secretaria de Educação do Estado de Goiás expressou sua "tristeza" e "perplexidade" e informou que as aulas no Colégio 13 de Maio foram suspensas até a próxima sexta-feira, dia 10. Em virtude de um feriado municipal e do feriado nacional da Proclamação da República, as aulas serão retomadas apenas no próximo dia 16. "Infelizmente, casos de violência na sociedade têm sido uma constante maior do que seria desejável", comentou a secretária de Educação Raquel Teixeira. A secretaria ainda informou que "três psicólogas e uma assistente social da Coordenação Regional de Educação, Cultura e Esporte, de Anápolis, foram deslocados para Alexânia para apoiar a equipe da escola, alunos e familiares".

Goiás se mobilizou há menos de um mês por conta de um outro caso de assassinato dentro de uma escola. No último dia 20 de outubro, um jovem de 14 anos pegou uma pistola de seus pais, que são policiais militares, e atirou em seus colegas de classe, na escola privada Goyases, em Goiânia. Dois adolescentes de 13 anos morreram e outros cinco ficaram feridos. O menino contou a polícia que sofria bullying de seus colegas e está sob custódia da polícia.

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