Temer cede a Aécio e adia troca em seu ministério

Por ora, tucano Antônio Imbassahy fica na articulação política, vaga que seria de Carlos Marun

O deputado Carlos Marun,em imagem de maio.
O deputado Carlos Marun,em imagem de maio. Agência Brasil

"Tudo está em seu lugar, graças a Deus, graças a Deus!", cantarolou Carlos Marun (PMDB-MS) performando uma dancinha para comemorar o fato de a Câmara barrar uma segunda apuração criminal contra o presidente Michel Temer. Apenas algumas semanas depois, Marun, que foi da tropa de choque de Eduardo Cunha e é ligado a um ex-governador investigado pela Polícia Federal, se preparava para chegar ao topo de sua carreira política. Era esperado que ele fosse anunciado nesta quarta-feira como o novo ministro da Secretaria de Governo. Indicado pela bancada do PMDB para a pasta responsável pela articulação com o Congresso Nacional, Marun substituiria Antônio Imbassahy (PSDB-BA), mas um apelo do senador tucano Aécio Neves acabou por deixar tudo como está na pasta - ao menos por ora.

O Planalto pretende mexer em 4 de seus 28 ministérios até meados de dezembro e as mudanças já começaram. Nesta quarta-feira, o deputado Alexandre Baldy (PP-GO) tomou posse no Ministério das Cidades nesta quarta-feira, em substituição ao demissionário Bruno Araújo (PSDB-PE).

No Ministério das Cidades, Baldy será o homem de Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara. No Planalto a informação é de que foi Maia quem lutou pela nomeação de Baldy porque queria se sentir mais prestigiado por Temer. Recentemente, o presidente da Câmara reclamou dezenas de vezes da atuação da gestão peemedebista. Seus movimentos chegaram a ser vistos como uma possível tentativa de desarranjo na base governista e uma movimentação para substituir o presidente. Algo que Maia sempre negou.

Para chegar ao cargo, Baldy teve de trocar de partido pela segunda vez nos últimos três anos. Se elegeu pelo PSDB de Goiás. Depois, migrou para o PODEMOS. Foi deposto da liderança do partido por não defender as investigações criminais contra o presidente. Agora está se filiando ao PP, a pedido de Maia e do presidente da legenda, o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Será mais um representante do centrão no Governo.

Com o segundo maior orçamento da Esplanada, o Ministério das Cidades é um dos mais almejados pelas bancadas partidárias. O PP decidiu que pode abrir mão de uma das outras duas pastas que ocupa, Saúde e Agricultura, para ter essa máquina em um ano eleitoral.

Em meio às especulações, Twitter do Planalto chegou a
Em meio às especulações, Twitter do Planalto chegou a "demitir" Antônio Imbassahy e anunciar Marun

Outra certeza entre Temer e seus aliados é a da demissão de Luislinda Valois (PSDB) da pasta de Direitos Humanos. Aliados do presidente disseram que ela nada apresentou de útil até o momento, apenas trouxe problemas, quando disse que deveria receber um salário de 61.000 reais, valor bem acima do teto constitucional de 33.400 reais mensais. Em um ofício enviado ao Planalto, ela alegou que a situação, “sem sombra de dúvidas, se assemelha ao trabalho escravo”. “Ela reclamou do salário, falou de escravidão, mas nem um mísero evento fez no dia da consciência negra [comemorado no dia 20 de novembro]. Nada de produtivo trouxe ao Governo”, afirmou uma fonte palaciana. Sua queda é certa.

Outro cargo em vista é o da Transparência. Desde maio está interinamente ocupado por Wagner Rosário, um técnico que substituiu Torquato Jardim quando este foi transferido para o Ministério da Justiça. Até abril do ano que vem, as trocas ocorrerão em 13 pastas, todas ocupadas por senadores ou deputados que têm interesse em concorrer a algum cargo eletivo.

Um teste para o nome de Carlos Marun

Na terça-feira, o Palácio do Planalto fez circular o nome do deputado Carlos  Marun como novo titular da articulação política com o Congresso. O intuito era sentir como ele seria recebido na classe política e, até antes da intervenção de Aécio Neves vetando as mudanças, a recepção havia sido positiva. Ainda assim, outros dois nomes de deputados federais corriam por fora: Saraiva Felipe (PMDB-MG) e Hugo Motta (PMDB-PB). A favor do deputado de Mato Grosso do Sul pesa o fato de ele estar de acordo em permanecer no Governo até o fim de dezembro de 2018 e, dessa maneira, abdicar de disputar a eleição do próximo ano. Temer já avisou que não quer nomear ministros para ficarem apenas quatro meses no cargo. Em abril, a seis meses da votação, todos os candidatos que tiverem cargos no Executivo terão de renunciar às funções, conforme prevê a lei eleitoral.

Os assessores do Planalto diziam na terça-feira que Marun era o nome favorito principalmente por quatro razões: foi identificado como um fiel aliado ao defender a reforma da Previdência (ele presidiu a comissão especial que discutiu o assunto na Câmara); esteve na linha de frente do grupo a favor do impeachment de Dilma Rousseff; é governista ao relatar a CPMI do BNDES (que pretende atacar as ações da Procuradoria-Geral da República); e até ao se transformar no “cão de guarda” o ex-deputado e hoje presidiário da Lava Jato Eduardo Cunha. “Ele é determinado no que faz. Quando tem de defender algo, o faz com unhas e dentes. Isso é positivo para esse momento do Governo, sem dúvida”, afirmou um dos assessores de Temer.

Marun foi um dos únicos deputados a ocuparem a tribuna da Câmara para discursar a favor de Cunha na sessão que cassou o mandato dele, em setembro do ano passado. Quando questionado pelo EL PAÍS por que defendia Cunha, ele respondeu: “Nosso grupo entendeu que ele não podia sofrer cassação antes do impeachment passar. Continuei fazendo o meu trabalho, mesmo depois, porque sou um homem de palavra”

Marun é o tipo de político falastrão. Alto, com 130 quilos distribuídos em 1,89 metro de altura, tem uma voz grave, intensa e explosiva. Está em seu primeiro mandato no Congresso Nacional. Gaúcho de Porto Alegre fez sua carreira política em Campo Grande. Engenheiro civil e advogado, tornou-se vereador, deputado estadual e federal após se juntar a André Puccinelli. Foi secretário de Habitação de Puccinelli tanto na prefeitura de Campo Grande (1997-2004) quanto no Governo do Estado (2006-2014). Puccinelli é atualmente investigado por enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro e corrupção no período em que governo Mato Grosso do Sul. Marun não é alvo desses inquéritos.

Procurado para comentar sua possível nomeação, Marun informou por meio de sua assessoria que o convite não foi feito formalmente. Mas se ele ocorresse, aceitaria.

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