Violência no Rio de Janeiro

O roteiro de negligências que matou a turista espanhola na Rocinha

Polícia Civil pediu a prisão preventiva do tenente por homicídio doloso, mas juiz negou

Rosangela Renones Cunha fala com a polícia no Rio de Janeiro
Rosangela Renones Cunha fala com a polícia no Rio de JaneiroMAURO PIMENTEL (AFP)

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A instável situação que vive a Rocinha há mais de um mês, com tiroteios, operações policiais recorrentes e até o cerco das Forças Armadas por uma semana, foi contada aos familiares de María Esperanza só após o acidente. Nem o motorista nem a guia os alertaram, segundo os depoimentos dos turistas à polícia. Perguntada pelos turistas por que escolheu a Rocinha, Reñones, que fazia esse passeio desde 2002, respondeu que era “uma comunidade grande e as pessoas gostam de conhecer”. Eles não questionaram mais.

Ninguém, nem a guia, conhecia a situação na favela

Segundo os depoimentos, a guia não mencionou, no entanto, que era a primeira vez que ela voltava à comunidade com turistas depois do dia 17, quando uma disputa interna na facção que domina o tráfico na favela tornou o local cenário de confrontos armados constantes. Antes do conflito estourar, ela disse ir na comunidade com os turistas de três a quatro vezes por semana.

Ela tampouco mencionou que, no dia anterior ao passeio, procurou saber como estava o clima na comunidade com um agente de turismo local e que este lhe respondeu que estava tenso, mas que mesmo assim ele seguia fazendo o tour. No dia em questão, a guia sequer procurou se informar e disse desconhecer que um confronto deixou dois policiais e um suposto traficante feridos apenas uma hora antes de Esperanza ser atingida.

María Esperanza Jiménez Ruiz.
María Esperanza Jiménez Ruiz.Reprodução

Rosângela era a subcontratada de uma empresa locadora de carros com motorista, a Carioca Rio Tour, subcontratada pela Brasil Operadora que, por sua vez, era subcontratada da Exoticca, a agência espanhola que organizou toda a viagem da Espanha. “Nossos clientes reservaram uma viagem combinada Argentina, Brasil e Peru. Todos os serviços do Brasil foram contratados com a empresa local com a qual trabalhamos: Brasil Operadora. Nunca foi oferecido nem da Exoticca nem da Brasil Operadora um passeio às favela. E mais, a Brasil Operadora sempre nos desaconselhou a realizar esse passeio precisamente pelo risco que implica. É por isso que desconhecemos a empresa Carioca Rio Tour e desconhecemos como María Esperanza e seus acompanhantes concretizaram esta atividade”, disse a agência de viagens espanhola a este jornal.

No passeio na favela, suspeitas da polícia

Depois de recolher o grupo num hotel de Botafogo, o motorista levou os turistas à parte baixa da favela e combinou de aguardá-los enquanto eles passeavam pelas vielas de uma das maiores favelas de América Latina. Durante o tour, e por conta do tiroteio ocorrido uma hora antes, os espanhóis e a guia encontraram muito mais policiais do habitual, o que, paradoxalmente, os confortou, disseram em depoimento. Como chovia, Reñones pediu para o motorista subir o morro e procurá-los para evitar a descida a pé sob a chuva. O italiano foi ao encontro do grupo e, na subida, chegou a ser parado por uma blitz, foi revistado e liberado em seguida quando disse que iria recolher turistas. Mas, segundo divulgou a TV Globo, os policiais ficaram monitorando o veículo, um Fiat Freemont com os vidros muito obscuros, pelo rádio e o WhatsApp. Suspeitavam que o italiano estivesse sendo usado para transportar traficantes.

Com o grupo no carro, o motorista foi pegar a curva do Largo do Boiadeiro, uma região comercial, embora também ponto de venda de drogas, quando três policiais deram a ordem para que ele parasse. O veículo não parou. Entre os agentes estava o soldado Luís Eduardo de Noronha, que disparou para o alto, e o tenente Davi dos Santos Ribeiro, que atingiu duas vezes o veículo matando Esperanza com um tiro no pescoço. O oficial se defendeu dizendo que atirou no chão. Os dois chegaram a ser presos em flagrante nesta segunda.

O policial não deveria ter disparado

Não há protocolo policial que justifique o procedimento adotado pelos agentes, embora a Polícia Militar do Rio venha enfrentado vários episódios nos quais fica evidente que há abordagens nas quais dispara antes de perguntar. Em outubro de 2015, por exemplo, a PM matou dois rapazes que estavam em uma moto ao confundir um macaco hidráulico com um fuzil. Internamente, na corporação, esses tipos de reações justificam-se no contexto de crise, violência, “guerra assimétrica”, e condições nas quais os policiais do Rio trabalham. “Não há previsão para o ato desses policiais em nenhum manual da PM ou da Secretaria de Segurança. Contudo, a PM reconhece todo o ambiente de estresse que esses policiais têm vivido ao longo de mais de 30 dias ocupando a Rocinha, sobretudo num dia em que tivemos companheiros feridos”, disse o porta-voz da PM, Major Blaz, após mencionar a “má conduta” dos policiais.

Nesta terça-feira, a Polícia Civil pediu a prisão preventiva do tenente por homicídio doloso [com intenção de matar] qualificado, mas um juiz negou sua prisão. “Se, de um lado, o trágico acontecimento repercutiu nesta capital e no mundo, fato é que o custodiado estava trabalhando, possui imaculada ficha funcional, não havendo indícios de que solto possa reiterar o comportamento criminoso ocorrido à luz do dia”, afirmou o juiz na decisão, que determinou que o tenente deve ser afastado do exercício de patrulha ostensiva, exercendo apenas atividades administrativas. Ambos, no entanto, continuam presos até a Justiça Militar analisar um outro crime cometido: disparo de arma de fogo em via pública.

Ninguém no carro viu o sinal dos agentes. Só souberam que algo não ia bem quando ouviram o primeiro tiro. Depois, um segundo e, depois, um terceiro, que fez tremer o veículo. A van branca que ia na frente acelerou, e o italiano, por instinto, também. Uns 30 metros depois cerca de 15 policiais o detiveram. “Sai do carro, filho da puta, desce, desce!”, gritaram. “Por que não parou?! Estávamos correndo atrás de você gritando para você parar!”. Só quando o irmão de Esperanza foi sair do veículo, percebeu que ela tombou no banco. No hospital Miguel Couto apenas certificaram o óbito. “Foi uma situação realmente surreal, sem sentido nenhum, e estou muito abalado”, escreveu o motorista ao EL PAÍS, após se recusar a falar sobre o caso.

A morte de Esperanza, a quarta de um turista estrangeiro numa favela do Rio no último ano, escancarou uma sequência de negligencias. As de uma operadora turística que coloca em risco seus clientes, e as da polícia militar do Rio – a que mais mata e a que mais morre do Brasil – que, apesar de o carro dos espanhóis não apresentar nenhum risco, atirou.

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