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A vida parou na Rocinha, mais um símbolo do colapso do Rio

Telespectadores de sua própria tragédia, moradores sofrem no sétimo dia de confrontos armados, enquanto cerco militar continua e autoridades ainda procuram o pivô do conflito

Violência na Rocinha Ampliar foto
Mulher desliza entre soldados para ultrapassar uma barreira armada em um beco da Rocinha. AP

Com nove anos, o pequeno Gabriel já foi apontado duas vezes por um fuzil nesta semana. A última, nesta sexta feira, quando quase mil militares cercaram seu bairro. Ele, morador da Rocinha, a maior favela do Rio e a mais rentável para o tráfico de drogas, colocou as mãos para o alto e ficou petrificado. Ia para o shopping com a irmã mais nova e sua mãe, que, depois de ver o filho na mira do fuzil, teve de sentar com o corpo inteiro tremendo e as lágrimas diluindo a maquiagem. “Eu nunca tinha visto nada igual. A vida parou. Meus filhos não foram para a escola em uma semana, os mercados fecharam. E quando tudo isto acabar voltaremos ao mesmo descaso de sempre”, lamenta a jovem de 24 anos, limpando a máscara para os cílios que ainda escorria pela bochecha.

A Rocinha, onde moram oficialmente 70.000 pessoas, vive em estado de exceção desde o último domingo, quando um bando de criminosos invadiu a favela em uma disputa interna entre líderes da facção Amigos dos Amigos que domina o tráfico de drogas na região. Segundo informações divulgadas pela imprensa local, o traficante Nem da Rocinha, preso desde 2011 e cumprindo pena numa cadeia federal de segurança máxima, teria ordenado a retomada do território do seu sucessor e ex-segurança, hoje desafeto, Rogério 157. O bando de Rogério 157 revidou e foram horas de confronto armado sem que as autoridades intervissem ou prevenissem o embate, apesar de terem reconhecido que detinham informações de inteligência sobre a iminência de uma invasão devido ao racha interno da facção. Encontraram-se quatro mortos, dois deles carbonizados.

Duas meninas caminham ao lado de uma viatura militar. ampliar foto
Duas meninas caminham ao lado de uma viatura militar. EFE

A Polícia Militar começou suas operações na segunda e, desde então, repetem-se os tiroteios entre agentes e traficantes, o comércio de algumas áreas fechou, o transporte de ônibus foi interrompido, as vias de acesso foram várias vezes interditadas e muitos moradores estão em pânico. “Eu só quero paz, não me importa quem ganhe ou perca esta batalha”, dizia uma empregada doméstica, idosa e ofegante ao ter que subir a pé até sua casa, no alto do morro, ante a ausência de vans. Nesta sexta-feira, cinco dias depois do inícios dos confrontos, o Exército foi chamado e 950 militares, que surpreendiam pela sua juventude, cercaram a comunidade. Os moradores, no meio da espetacular operação, eram telespectadores atônitos da sua própria tragédia retransmitida ao vivo nas TVs acesas das barbearias, botequins e pontos de mototaxistas. As últimas informações da cúpula da Secretaria de Segurança Pública do Rio apontam que a invasão supostamente ordenada por Nem foi frustrada e que Rogério 157 resiste –“acuado”– no interior da mata da floresta da Tijuca que circunda a favela.

Centro das atenções nesses dias de Rock in Rio, vizinha dos bairros mais ricos da cidade, a Rocinha revive as manchetes que a tornaram um símbolo político da pacificação em 2011. Também com o apoio dos militares, a comunidade foi ocupada pela polícia e vendida para o mundo como o exemplo exitoso do programa das Unidades da Polícia Pacificadora (UPP), hoje em processo de enxugamento, e impulsado pelo ex-governador Sérgio Cabral, cuja última sentença por corrupção soma 45 anos.

Soldados em uma rua da Rocinha. ampliar foto
Soldados em uma rua da Rocinha. AFP

Dois anos depois e apesar da pirotecnia política, a Rocinha também virou símbolo das falhas do programa, com a tortura, assassinato e desparecimento do ajudante de pedreiro Amarildo em mãos de policiais da UPP da comunidade. A expulsão do tráfico, ainda comandado por Nem da prisão, também esteve sempre em questão até o ponto de os policiais terem delimitadas e acordadas suas áreas de atuação pelos criminosos. Segundo reportagem publicada no final de agosto pelo O Globo, os policiais que atuam na Rocinha são impedidos de entrar até em becos e vielas e o acesso deles é restrito às vias principais.

Enquanto as autoridades estreitam o cerco aos criminosos, um bom número deles escondidos na mata ou tentando fugir dela, os moradores perguntam-se sobre o depois. Num salão de uma das ruas principais da comunidade, com a TV a todo volume passando imagens do seu bairro cercado, um cabeleireiro via em toda aquela movimentação apenas uma encenação. “E depois o quê? Aqui sempre vai ter um comando. Se não for um, vai ser outro. Quando a polícia for embora volta tudo ao normal”. Na delegacia, na frente da favela, a mesma questão era lançada para o delegado Ricardo Lima. O que vai acontecer se as autoridades atingirem seu objetivo de capturar Rogério 157, uma vez que o bando de Nem fracassou na invasão e não estaria mais na favela? “Você poderia me fazer perguntas mais fáceis”, disse ele antes de virar as costas.

Outras favelas também sofrem longe dos holofotes

A vida parou na Rocinha, mais um símbolo do colapso do Rio

M.M.

A Rocinha é protagonista da cobertura jornalística dessa semana e um dos assuntos mais comentados nas redes. Seu tamanho, seu acesso pela autoestrada Lagoa-Barra que une a zona sul à zona oeste, mas sobre tudo sua proximidade dos nobres bairros de São Conrado e Leblon e ser parte da rota para o Rock in Rio a tornaram alvo de maior preocupação das autoridades e também da imprensa.

Enquanto a maior favela do Rio ocupa manchetes pela violência e tem transmissões ao vivo e repórteres internacionais em campo, outras comunidades mais afastadas das zonas ricas da cidade sofrem o terror em silêncio. No mesmo final de semana em que começaram os tiroteios na Rocinha, o morro do Juramento, na zona norte, foi cenário de um confronto armado entre facções que deixou pelo menos sete mortos, alguns deles também carbonizados. Durante os tiroteios uma idosa ficou ferida e uma bala acertou e estilhaçou um vidro de uma composição do metrô.

Na sexta-feira, pouco antes de o Exército cercar a Rocinha, havia registro de tiroteios em, pelo menos, 11 comunidades. Entre elas o Complexo do Alemão, na zona norte, submetido a constantes enfrentamentos entre policiais e traficantes, mas muito menos presente no noticiário. No Alemão, um jovem de 18 anos, foi baleado na coxa direita enquanto estava no pátio do Centro de Atenção Integral à Criança. Também na sexta, uma adolescente de 16 anos que ia para a escola foi atingida no peito por estilhaços de bala no Complexo da Maré, comunidade da zona norte onde os traficantes caminham e brigam à vontade com armas de guerra a tiracolo.

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