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Carta ácida de Palocci testa, mais uma vez, capital político de Lula e do PT

Para analistas, ex-presidente já viveu outros ataques de antigos petistas e conseguiu resistir. Ex-ministro, no entanto, era um dos pilares fundamentais do lulismo

O Partido dos Trabalhadores e seu líder máximo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sofreram nesta terça-feira o mais duro golpe desferido por um ex-correligionário. Em carta de desfiliação de quatro páginas enviada à presidenta da sigla, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), o ex-ministro Antonio Palocci atacou o “mito” de Lula. “Somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou uma seita guiada por uma pretensa divindade?”, questionou, referindo-se à suposta cegueira dos petistas em enxergar os malfeitos do ex-presidente. Palocci é réu na Operação Lava Jato e negocia com o Ministério Público Federal um acordo de colaboração premiada, cujo teor poderia complicar ainda mais a situação delicada de Lula, condenado em primeira instância e réu em outros seis processos. A carta também foi uma resposta ao processo de expulsão aberto contra ele pela Executiva Nacional do PT - que ele acusou de agir de forma “inquisitorial”.

Carta de Antonio Palocci
O ex-ministro Antônio Palocci, condenado pelo juiz Sergio Moro. AFP

“[Lula era] ‘o cara’, nas palavras de Barack Obama, mas dissociou-se do menino retirante para navegar no terreno pantanoso do (...) tudo pode, do poder sem limites”, escreveu Palocci no documento. O duro ataque feito a Lula não veio de um petista qualquer: o ex-ministro já integrou a cúpula do partido, tendo ocupado ministérios nos mandatos de Lula e Dilma. Tido como o czar da economia do primeiro Governo do PT, ele é considerado, ao lado do também ex-ministro José Dirceu, um dos maiores artífices do projeto político que levou o partido ao palácio do Planalto. Coube a ele tranquilizar os mercados quando o petista foi eleito em 2002, ação que lhe rendeu bom trânsito entre investidores.

Apesar das acusações feitas ao maior líder da legenda, especialistas não acreditam que a carta terá algum impacto político ou eleitoral para o PT. O cientista político Rudá Ricci recorda que ao longo da história do partido “vários petistas de alto calibre” deixaram o partido “atirando”. “Marta Suplicy, Cristovam Buarque, Marina Silva... Todos deixaram a legenda batendo nela, e isso nunca teve um efeito duradouro ou abrangente sobre o PT”, afirma. O ex-senador Delcídio do Amaral, preso pela Operação Lava Jato no final de 2015, assinou acordo de delação premiada e foi outro ex-petista que acusou o Lula de diversos crimes, dentre eles o de comandar o esquema de corrupção na Petrobras. O MPF pediu a absolvição do ex-presidente no processo aberto com base na colaboração de Delcídio por "falta de provas". Nunca, no entanto, o ataque partiu de uma eminência parda do partido de convivência tão estreita com o ex-presidente tornando-se assim um dos pilares fundamentais do lulismo.

 Mas Ricci cita o histórico “complicado” de Palocci como outro fator para que, segundo sua avaliação, suas acusações não sejam levadas tão a sério. O ex-ministro já se envolveu em outros escândalos de corrupção quando prefeito de Ribeirão Preto, de 1993 a 1996. Além disso, ele chegou a ser afastado da Casa Civil em 2011 ao não conseguir explicar as razões do crescimento de seu patrimônio.

O cientista político Sérgio Praça, da Faculdade Getúlio Vargas – Rio, também não acredita que o ataque de Palocci a Lula terá alguma consequência dentro do partido. Segundo ele, é preciso ter em vista que a senadora Hoffmann, presidenta da legenda, também está implicada na Lava Jato, e “não demonstrou até agora nenhuma espécie de confronto com Lula, ou discordância com ele”. “Ela é alguém completamente de acordo com tudo o que está acontecendo dentro do partido, que está perdido neste momento”, afirma.

O desentendimento entre Palocci e o PT veio à tona publicamente em setembro deste ano, quando o ex-ministro depôs ao juiz federal Sérgio Moro e afirmou que Lula fez um “pacto de sangue” com a empreiteira Odebrecht. Na ocasião Palocci não só assumiu todos os crimes dos quais era acusado, como também confirmou a participação do ex-presidente nas negociatas ilícitas. Lula respondeu dias depois, também diante de Moro, afirmando que “o depoimento do Palocci é uma coisa quase cinematográfica”, e que o ex-ministro é quem havia feito um “pacto de sangue com os procuradores e advogados”. A tese defendida pela defesa do ex-presidente e por lideranças petistas é que as prisões preventivas da Lava Jato, que se estendem por meses a fio, acaba pressionando os detidos a assinar acordos do tipo.

Mais à frente na carta, Palocci volta novamente à carga contra Lula. “Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do ‘homem mais honesto do país’, enquanto (...) sítios e apartamentos (...) são atribuídos à Dona Marisa?”, disparou Palocci. A frase faz referência a discurso proferido por Lula em janeiro de 2016, no qual o petista afirmou que “não tem uma viva alma mais honesta” do que ele. A menção ao nome de Marisa Letícia, a esposa de Lula morta em fevereiro deste ano aos 66 anos, é mais uma estocada do ex-ministro. Ela foi citada pelo ex-presidente algumas vezes nos processos a que responde. Em setembro deste ano, por exemplo, ele disse ao juiz Moro que era sua mulher quem cuidava dos alugueis de um dos apartamentos vizinhos ao seu, em São Bernardo do Campo – alvo de investigação. O tríplex no Guarujá, que de acordo com o MPF seria uma contrapartida paga por empreiteiras ao ex-presidente, também teria sido de interesse de Marisa, de acordo com Lula.

Apesar do ex-presidente ter sido o grande alvo de Palocci na carta, o documento também implica outra figura emblemática do partido. Ele menciona uma reunião na biblioteca do Palácio do Alvorada, onde Lula teria discutido a compra de sondas e o pagamento de propinas: “Um dia, Dilma [Rousseff] e Gabrielli [José Sergio Gabrielli, então presidente da Petrobras] dirão a perplexidade que tomou conta de nós após a reunião (...), onde Lula encomendou as sondas e as propinas, no mesmo tom, sem cerimônias”. À época a ex-presidenta Dilma ocupava a Casa Civil. Assim como o ex-presidente, ela sempre negou ter participado de qualquer negociação ilegal.

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