No velório de dona Marisa, entre a comoção e a política

Apoiadores do ex-presidente Lula começaram a chegar de madrugada para acompanhar a despedida de sua mulher, morta por um Acidente Vascular Cerebral nesta sexta

Velório de Marisa Leticia
Velório de Marisa LeticiaFernando Bizerra Jr (EFE)

MAIS INFORMAÇÕES

Ainda era madrugada quando três amigos de Sorocaba chegaram à sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, onde o corpo de Marisa Letícia Lula da Silva chegaria às 9h deste sábado. Foram os primeiros. Horas depois, centenas de apoiadores do ex-presidente Lula já faziam uma fila ordeira no porta do local, na expectativa de poder dar um abraço nele. "O Lula é o Lula", explicava Luciano Gonçalves Porto, 34, um dos sorocabanos que deixou sua cidade às 23h desta sexta-feira rumo à Grande São Paulo. "Foi uma perda grande. Marisa foi uma batalhadora que lutou muito pelos direitos das mulheres", descrevia a professora Marluce Gonçalves Cardoso, 61 anos, também no início da fila. A ex-primeira-dama morreu no final da tarde desta sexta-feira, depois de ficar internada por dez dias devido a um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Do lado de dentro do prédio, desde pouco antes das 9h Lula recebia familiares e amigos no salão do sindicato, onde ele iniciou sua carreira política como líder de greves históricas no final da década de 1970. Foi ali também que ele conheceu sua "galega", a mulher que viria a ser sua companheira pelos próximos 43 anos, quando ela foi ao local buscar um carimbo para poder retirar a pensão do primeiro marido, morto em uma tentativa de assalto anos antes. Por volta de 10h30, imprensa e público foram autorizados a entrar. Abaixo de uma foto gigante em preto e branco que retratava o casal, Lula abraçou grande parte dos que esperavam, um a um. Muitos dos populares deixavam o local chorando.

Lula se despede de Marisa
Lula se despede de MarisaR. S.

O velório da ex-primeira-dama também serviu de espaço para desabafo de petistas. "Essa morte prematura está muito ligada a esse clima de ódio que existe no país", afirmava Gilberto Carvalho, ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência e amigo de Lula. Referia-se ao turbilhão da Operação Lava Jato, que, há quatro meses, tornou a ex-primeira-dama ré em duas investigações, ao lado do marido. Era acusada de, com Lula, ocultar um tríplex no Guarujá, que teria sido reformado pela construtora OAS, e também de ter sido beneficiada pela compra de um apartamento em São Bernardo do Campo, pela Odebrecht, mas que não estão, oficialmente, em nome deles. Ela ainda é citada em investigações relacionadas a um sítio em Atibaia, para o qual teria comprado dois pedalinhos, de 5.600 reais no total. "Não é exagero dizer que mataram dona Marisa", dizia, taxativo, o senador Lindbergh Farias. "Ela foi vítima de uma perseguição infame". O senador fez questão de destacar que o partido continuaria a fazer oposição ao presidente Michel Temer, pese a visita feita por ele a Lula, no hospital Sirio-Libanês, onde Marisa Letícia estava internada. 

Mais positivo, o vereador petista Eduardo Suplicy dizia acreditar que a morte da ex-primeira-dama poderia servir para pacificar o país. Ele destacou que o ex-presidente Lula se colocou à disposição de Temer para ajudá-lo, se preciso. "Neste momento de desavenças tão profundas, a morte de dona Marisa criou essa vontade de se conversar sobre o Brasil", destacou o ex-senador.

Mas o ex-presidente aproveitou seu discurso emotivo, em frente ao caixão da mulher, para acusar seus oponentes de perseguição. "Dona Marisa morreu triste com a maldade que fizeram com ela", afirmou. "Que os fascistas que fizeram isso com ela tenham coragem de pedir desculpas", afirmou, enquanto fazia pausas para beijar o rosto da mulher. "Não sou eu quem tenho que provar que sou inocente. Eles que vão ter que parar com as mentiras. Descanse em paz, que seu lulinha paz e amor vai continuar brigando", concluiu para depois cair em lágrimas novamente.

Arquivado Em: