O maior escândalo da América

Odebrecht abriu conta milionária em Andorra para os pais de um ex-ministro panamenho

A família de Papadimitriu, ministro da Presidência do governo Martinelli, escondeu 10 milhões de dólares no Principado

Da esquerda para a direita: o ex-presidente do Panamá Ricardo Martinelli com os ex-ministros José Raúl Mulino (Governo e Justiça) e Demetrio Papadimitriu (Presidência)
Da esquerda para a direita: o ex-presidente do Panamá Ricardo Martinelli com os ex-ministros José Raúl Mulino (Governo e Justiça) e Demetrio Papadimitriu (Presidência)Alejandro Bolívar (EFE)

A Banca Privada d’Andorra (BPA) e também o Meinl Bank de Antigua e Barbuda foram os bancos que a construtora brasileira utilizou para o pagamento de comissões ilegais a chefes de Estado e funcionários de uma dezena de países da América, entre os quais o Panamá, onde obteve contratos milionários de obras públicas. A BPA sofreu intervenção das autoridades de Andorra depois de se descobrir que fornecia dinheiro a cartéis de droga e políticos corruptos de vários países. Até o mês de janeiro passado, em Andorra, vigorava o sigilo bancário.

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Uma ata do Departamento de Compliance da Banca Privada d’Andorra registra a abertura da conta dos pais de Demetrio Papadimitriu. A ata os apresenta ao banco e expõe os planos dos novos clientes. Segundo o documento, “vão ultrapassar a carteira de que dispõem no Credit Andorra e em outros bancos. No total, cerca de 10 milhões de dólares”. A nota afirma que “são os pais do ministro da Presidência do Panamá” e que a nova conta “é apresentada pelo grupo Odebrecht”. “Os clientes são empresários panamenhos de origem grega. São os pais do ministro da presidência do Panamá”, insiste o redator do documento interno da entidade.

Sobre a origem dos depósitos, a BPA destaca que “receberão transferências pela consultoria de projetos do grupo Odebrecht”. “Até o momento foram recebidos 5 milhões de uma empresa, a Consult Risk LLC”, acrescenta.

A ata confirma que a operação foi “aceita e depende de receber os contratos em fevereiro”.

Medo de serem descobertos

O relatório confidencial reforça o temor dos novos clientes de serem descobertos e a cautela necessária que deve ser adotada para evitar vazamentos. “A documentação será levada em mãos por Cristina em fevereiro porque os clientes tiveram acesso não autorizado a seu computador e têm muito medo de enviar informações”, afirma a ata.

Documento interno da Banca Privada d’Andorra (BPA) do departamento de compliance que menciona a conta bancária dos pais do ex-primeiro ministro da Presidência do Panamá, Demetrio Papadimitriu. EL PAÍS
Documento interno da Banca Privada d’Andorra (BPA) do departamento de compliance que menciona a conta bancária dos pais do ex-primeiro ministro da Presidência do Panamá, Demetrio Papadimitriu. EL PAÍSEL PAÍS

Demetrio Papadimitriu nega ao EL PAÍS ter recebido pagamentos da Odebrecht, mas reconhece, pela primeira vez, que seu pai, já falecido, teve uma conta em Andorra, fruto “de uma atividade comercial lícita”, apesar de não especificar valores nem em que banco. Além disso, revela que seu pai teve negócios com a Odebrecht.

Papadimitriu foi acusado no mês de julho passado de ter recebido quatro milhões de dólares [cerca de 12,8 milhões de reais] da construtora brasileira. A denúncia foi feita por Luiz Antonio Mameri, um dos delegados da Odebrecht no Panamá, que também apontou o pai do ex-ministro como receptor das comissões ilegais. Aquele que foi o homem forte do ex-presidente Ricardo Martinelli respondeu que “Tudo é falso em toda falsidade”. Desde então, sua figura está sob suspeita.

Rodrigo Tacla Durán, advogado da Odebrecht acusado de realizar os pagamentos ilegais, revelou em julho passado a este jornal que o gigante da construção brasileiro pagou as campanhas presidenciais de vários candidatos na América. E afirmou que a construtora custeou festas “com mulheres” frequentadas por representantes públicos panamenhos.

Papadimitriu foi o encarregado de pilotar a campanha que levou ao poder Ricardo Martinelli e a ele é atribuída a estratégia eleitoral do partido Cambio Democratico, vencedor das eleições. “Entram ricos e saem milionários”, foi uma das mensagens que mais eco obtiveram naquela campanha, em alusão ao governo de Martín Torrijos. Não obstante, Papadimitriu se uniu a seu adversário e colaborou no desenvolvimento da campanha que levou Juan Carlos Varela à presidência. “Reconhecer é próprio dos homens. Papadimitriu fez uma campanha melhor, com uma mensagem clara e repetitiva”, escreveu Martinelli em sua conta do Twitter em alusão a seu ex-homem de confiança.

Papadimitriu: “A conta de Andorra foi usada para transações lícitas"

Demetrio Papadimitriu, ministro da Presidência do Panamá com Ricardo Martinelli (2009-2014), reconhece que seu falecido pai, Diamantis Papadimitriu, teve uma conta em Andorra. Justifica que o depósito foi usado para guardar fundos de “transações comerciais lícitas”. E que sua mãe, María Bagatelas de Papadimitriu, participou da abertura, segundo explica ao EL PAÍS o ex-ministro.

“Meu pai sempre agiu com honestidade”, responde Papadimitriu em um questionário, no qual afirma não saber quanto dinheiro seus familiares ocultaram no Principado.

Aquele que foi o homem forte do Governo de Martinelli afirma desconhecer se a construtora Odebrecht foi a intermediária da abertura da conta de seus pais na Banca Privada d’Andorra (BPA). Admite, no entanto, que eles tinham vínculos com a empresa, envolvida na maior trama de propinas da América. “Entre a Odebrecht e meu pai houve uma relação comercial para o fornecimento de areia para a segunda fase da rodovia Madden-Colón e para o projeto da Faixa Costeira. Além disso, houve acordos de negócios para a dessalinização da areia”, responde.

Papadimitriu nega que o dinheiro de seus pais em Andorra tenha sido destinado a custear a campanha presidencial de Ricardo Martinelli. “Os fundos de investimento [no Principado] da construtora foram para a compra do equipamento de dessalinização da areia e não para a campanha eleitoral de Ricardo Martinelli”, argumenta.

O ex-ministro apresenta seus pais como empresários bem-sucedidos com quatro décadas de experiência. Afirma que a fortuna da família começou com um restaurante que o patriarca abriu em 1967 graças a 20 milhões de dólares [cerca de 62 milhões de reais] que recebeu de seu pai (o avô do ex-ministro). A atividade evoluiu depois — segundo o ex-político — para um negócio de pesca e exportação de mariscos por meio das empresas Sea Deli Panamá e Deli Fish Panamá.

As sociedades do clã, com uma frota de 44 barcos, estão avaliadas “em 70 milhões” [cerca de 224 milhões de reais], segundo Papadimitriu. “Entre seus clientes estão o Exército norte-americano, comissariados, supermercados, hospitais...”, acrescenta.

O ex-ministro reconhece que seus pais administraram “mais de 10 milhões de dólares”. Papadimitriu nega ter pedido dinheiro à Odebrechet.

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