Crise na Venezuela

Dezenas de milhares de venezuelanos cruzam a fronteira com a Colômbia

Mais de 500.000 pessoas solicitam o cartão fronteiriço para entrar no país vizinho. Oposição planeja greve geral "cívica" de 48 horas em protesto contra Maduro

Fila de venezuelanos aguardam para entrar na Colômbia na fronteira de Cúcuta
Fila de venezuelanos aguardam para entrar na Colômbia na fronteira de CúcutaLUIS ACOSTA (AFP)

A sociedade venezuelana precisará lidar com as eleições da Assembleia Nacional Constituinte, fixadas pelo Governo de Nicolás Maduro para esse domingo, submersa em um clima de enorme tensão. A situação se refletiu no começo da semana em uma imagem eloquente, que se repetiu em vários pontos da fronteira com a Colômbia. Dezenas de milhares de pessoas – 33.000 na segunda-feira – cruzaram a fronteira ao país vizinho diante da incerteza e do desabastecimento que atinge a Venezuela, no que significa um aumento do fluxo migratório que costuma ocorrer nos momentos de maior crise.

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A passagem de fronteira que recebeu a maior quantidade de gente foi a de Cúcuta, capital do departamento do Norte de Santander, por onde passaram mais de 26.000 pessoas. Milhares delas retornaram no mesmo dia após comprarem alimentos e produtos básicos. Por volta de 2.000 venezuelanos, de acordo com as autoridades colombianas, entraram com a intenção de viajar ao Equador, Peru e Chile.

Os residentes na Venezuela que já solicitaram um documento chamado Cartão de Mobilidade Fronteiriça, criado recentemente para regular a imigração, chegam a 560.000 aproximadamente. O regime de Maduro fechou a fronteira em agosto de 2015 e a reabriu um ano depois. Em 2016 já ocorreram em momentos pontuais grandes êxodos à Colômbia. Durante um final de semana de abertura temporária entraram no final do ano passado por volta de 150.000 pessoas.

Agora a incerteza volta a se espalhar pela Venezuela pelas circunstâncias políticas. Na quarta e quinta-feira ocorrerá uma “paralisação cívica” de 48 horas convocada pelos partidos da oposicionista Mesa de Unidade Democrática (MUD) contra o processo constituinte levado a cabo por Maduro. A greve deve paralisar parte do país durante dois dias, como já aconteceu na semana passada em uma primeira paralisação de 24 horas. As autoridades da Colômbia, que tentam minimizar o ocorrido, atribuem a essas circunstâncias o aumento do trânsito na fronteira terrestre.

Tensões e insultos

Partidos de oposição convocam uma “paralisação cívica” de 48 horas em protesto contra o Governo Maduro

As relações entre os dois países não atravessam o seu melhor momento. O Governo venezuelano acusou abertamente essa semana o Executivo de Juan Manuel Santos de conspirar, com a CIA e o México, para derrubar Maduro. E o sucessor de Hugo Chávez se dirige cada vez mais frequentemente ao seu homólogo colombiano com impropérios e insultos. “O presidente Santos precisa me pedir a benção, compadre, porque somos seus pais. Santos, peça a benção, compadre. Incline-se, ajoelhe-se diante de seu pai. Sou seu pai”, afirmou recentemente.

A chancelaria colombiana negou taxativamente a existência de um plano de ingerência e que tenha a intenção de intervir de alguma forma na Venezuela no futuro. Mas Maduro não gostou do fato de Santos pedir expressamente, em pelo menos duas ocasiões, o cancelamento das eleições da Assembleia Nacional Constituinte, alinhando-se à oposição ao Governo e com setores do chavismo críticos com os rumos do regime.

O complexo controle de uma fronteira complicada

A fronteira entre a Colômbia e a Venezuela foi diversas vezes motivo de disputa entre os dois países. Ao longo dos 2.200 quilômetros não ocorrem somente dezenas de milhares de deslocamentos diários.

Em março, o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, enviou um protesto ao seu homólogo venezuelano, Nicolás Maduro, pela incursão de uma centena de militares que se instalaram por dois dias às margens do rio Arauca. "Para a Colômbia é totalmente inaceitável essa situação", disse à época o mandatário. Agora seu Governo reforçou os controles na fronteira para enfrentar um surto de febre aftosa detectado no final de junho e com origem na Venezuela. As medidas incluem uma presença militar maior na fronteira, o fortalecimento da vigilância aérea e até mesmo recompensas para quem denunciar o contrabando de gado na região. O plano tenta proteger por volta de 450.000 cabeças de gado afetadas, informa a AFP.

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