Crise na Venezuela

Dia de greve geral na Venezuela tem dois mortos e 367 detidos

Movimento da oposição uma semana antes das eleições para Constituinte esvaziou as ruas do país

Opositores protestam nesta quinta-feira, em Caracas.
Opositores protestam nesta quinta-feira, em Caracas. RONALDO SCHEMIDT (AFP)

Caracas e outras cidades da Venezuela, como Maracaibo, Barquisimeto, Valencia, San Cristóbal e Maracay, amanheceram nesta quinta-feira como se fosse dia de Ano Novo. O chamado da oposição a uma paralisação nacional “cívica e ativa” de 24 horas começava a ser cumprido com sucesso. Ruas desertas e barricadas comprovavam essa afirmação, quando falta pouco mais de uma semana para a data das eleições de deputados à Assembleia Nacional Constituinte às quais o Governo não está disposto a renunciar. As forças de oposição, que se opõem a essa convocatória, iniciaram o embate crucial com o Executivo de Nicolás Maduro.

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Duas pessoas morreram em confrontos com as forças de segurança em Los Teques, a sudoeste de Caracas, e no Estado Carabobo, segundo informações do Ministério Público. Diversas fontes relataram outras duas mortes, mas até a noite desta quinta-feira elas não haviam sido confirmadas pelo MP. Além disso, pelo menos 367 pessoas foram presas, o dia com mais detenções desde 19 de abril. Os números foram divulgados no Twitter do diretor-executivo da organização pró-direitos humanos Foro Penal, Alfredo Romero.

Desde as seis horas da manhã, a paralisação de atividades foi total no leste de Caracas, tradicional bastião antichavista. No centro e oeste da cidade, a afluência de veículos e transeuntes era nitidamente menor do que em dias normais. Era impossível precisar quanto do apoio à greve estava relacionado com uma vontade genuína de protestar contra o Governo, e o quanto tinha a ver com o medo de eventuais incidentes nas ruas, como os que ocorreram em Los Teques, um subúrbio de Caracas, nos quais um jovem de 24 anos morreu e três pessoas ficaram feridas. Outra morte por disparo também foi registrada na cidade de Valencia.

A paralisação dos transportes acertada pelos sindicatos que os representam, para forçar as autoridades a um aumento nas tarifas, também ajudou a dissuadir as pessoas a saírem às ruas.

“As ruas desertas são também um protesto que se aproxima muito do ditador”. Esse foi o comentário publicado no final da manhã por Freddy Guevara em sua conta do Twitter, dirigente do partido Vontade Popular e um dos porta-vozes da Mesa de Unidade Democrática (MUD), com uma fotografia de O Silêncio de Caracas, geralmente cheio de gente, mas solitário na quinta-feira. É um bairro comercial e de escritórios da burocracia estatal localizado a quatro quarteirões do palácio presidencial de Miraflores, em pleno centro da capital venezuelana.

No dia anterior, o novo presidente do sindicato Fedecámaras, Carlos Larrazábal, ordenou aos seus afiliados que permitissem que os trabalhadores se ausentassem se assim o decidissem. “Isso não é de maneira nenhuma uma paralisação sindical”, esclareceu em um programa de rádio. Disse que se a maioria das empresas privadas já estava paralisada ou trabalhando com uma pequena parte de sua capacidade, não se devia à greve, “mas ao fato do Governo não fornecer os recursos e as matérias-primas”.

O Governo, entretanto, parece decidido a não dar atenção às evidências do sucesso da oposição. Em seus veículos de comunicação eletrônicos se empenhou em mostrar imagens de pessoas trabalhando e fazendo filas para comprar alimentos e remédios. Para combater a greve, colocou em funcionamento o Metrô de Caracas, que normalmente fecha quando ocorrem manifestações. Disponibilizou também para quinta-feira o pagamento em agências bancárias das aposentadorias dos trabalhadores aposentados e até se especulou que, para obrigar as pessoas a saírem para sacá-las, colocaria em circulação as notas de 100 bolívares, medida já adotada em dezembro passado, mas cuja entrada em vigor vinha sendo adiada desde então.

Ordem de prisão

Até o meio-dia ocorreram choques isolados em Caracas e outras cidades, causados por divisões de agentes da Polícia Bolivariana e da Guarda Nacional ao retirarem os bloqueios nas ruas. Manifestantes em Los Ruices, no nordeste de Caracas, queimaram uma agência dos correios. Maduro denunciou que na realidade os “terroristas” pretendiam incendiar a sede da Venezolana de Televisión, a principal rede de televisão do Estado, localizada próxima à agência incendiada. O presidente ordenou a prisão não só dos supostos incendiários, como também do prefeito oposicionista da região, Carlos Ocariz, que foi responsabilizado pelo ocorrido.

A greve é o primeiro grande evento do calendário do que a MUD chamou de Hora Zero, a ofensiva final para impedir a instalação da Assembleia Constituinte que a situação pretende realizar para combater os poderes contrários a ela, como a Assembleia Nacional e a Promotoria, e confeccionar uma nova lei de acordo com seus interesses. Em 30 de julho devem se realizar as votações para a eleição de mais de 500 deputados entre 6.000 candidatos uniformemente pró-chavismo.

“Não é o momento de paralisação, não é o momento de sabotagem, é hora de trabalhar”, foi o ataque de Maduro à oposição em um discurso durante um ato de apoio aos candidatos jovens à Constituinte realizado no Círculo Militar de Caracas, um clube para os oficiais das Forças Armadas. “Em 30 de julho vamos acertar todas as contas”. Quase ao mesmo tempo sua esposa, Cilia Flores, explicou em um ato que a sorte do regime estará em jogo nos próximos dias: “Restam dez dias à anarquia. A Constituinte irá colocar ordem e o presidente Maduro poderá continuar governando em paz”.

O COMEÇO DA HORA ZERO

A paralisação nacional convocada na quinta-feira pela oposição venezuelana é o começo da chamada Hora Zero, uma nova fase de protestos contra o regime de Nicolás Maduro.

Faltam nove dias para a realização, em 30 de julho, das eleições de uma Assembleia Nacional Constituinte. A votação, também criticada por parte do chavismo, foi projetada para favorecer a situação.