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Morre Simone Veil, sobrevivente do Holocausto e ícone da luta pelos direitos das mulheres

A europeísta convicta, que foi a primeira presidenta do Parlamento Europeu, morreu aos 89 anos

Simone Veil em fotografia de 2009.
Simone Veil em fotografia de 2009.

A vida intensa de Simone Veil, sobrevivente do Holocausto, figura-chave da vida política francesa, referência do feminismo e uma defensora convicta do europeísmo, chegou ao fim nesta sexta-feira, aos 89 anos completos.“Minha mãe morreu nesta manhã em sua casa”, em Paris, confirmou o filho, Jean Veil, à agência France Presse. Simone Veil faria 90 anos em 13 de julho.

O mundo político francês reagiu com consternação à perda de uma figura que marcou boa parte da política do século XX na França e na Europa e que se manteve como referência no século XXI. “Que o seu exemplo sirva de inspiração aos nossos compatriotas, que encontrarão nela o melhor da França”, disse o presidente do país, Emmanuel Macron depois de tomar conhecimento da morte daquela que, como ministra da Saúde, defendeu e instituiu a descriminalização do aborto, por meio da “Lei Veil”, cuja defesa diante de uma Assembleia Nacional composta quase exclusivamente por homens se transformou em uma das imagens icônicas da política francesa.

Mas essa não foi a primeira nem a última batalha de uma mulher que desde muito jovem se viu arrastada, não apenas envolvida, pela história. Simone Jacob, seu nome de solteira, nasceu em 13 de julho de 1927 em Nice, no seio de uma família judaica laica. Todos os seus membros – seus pais, seu irmão e suas duas irmãs — foram deportados em 1944. Ela acabou, junto com a mãe e sua irmã Milou, em Auschwitz. Somente as três irmãs sobreviveram ao Holocausto. “Creio que sou uma otimista, mas, desde 1945, não alimento mais ilusões. Daquela experiência terrível eu guardei a convicção de que alguns seres humanos são capazes do melhor e do pior”, disse Veil em uma entrevista, dez anos atrás.

Ela afirma que ter sobrevivido ao Holocausto a fez “querer viver” e também contar aquilo que viveu, para que jamais fosse esquecido, razão pela qual decidiu não retirar o número de prisioneira (78651) tatuado em seu braço pelos nazistas na sua chegada ao campo de concentração. Simone cumpriu totalmente essa promessa, como presidente da Fundação para a Memória do Holocausto e com seu trabalho à frente do fundo para as vítimas, vinculado ao Tribunal Penal Internacional (TPI).

<blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="fr" dir="ltr">Très vives condoléances à la famille de Simone Veil. Puisse son exemple inspirer nos compatriotes, qui y trouveront le meilleur de la France</p>— Emmanuel Macron (@EmmanuelMacron) <a href="https://twitter.com/EmmanuelMacron/status/880713591300796417">30 de junho de 2017</a></blockquote>

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Veil também teve uma vida intensa marcada por um forte e diversificado engajamento político. Magistrada, ela empreende uma virada definitiva em sua vida em 1974, quando o então primeiro-ministro Jacques Chirac a convidou para ser ministra da Saúde, posto a partir do qual enfrentou até mesmo uma parte de seus amigos com sua proposta de legalização do aborto. “Não podemos continuar de olhos fechados diante dos 300.000 abortos que ocorrem todos os anos, que mutilam as mulheres deste país, passam por cima de nossas leis e humilham ou traumatizam aquelas que são obrigadas a recorrer a eles”, declarou ao defender uma lei que lhe valeu até mesmo comparações com Hitler, segundo lamentaria anos depois.

“O combate que ela liderou pelo direito ao aborto sem nunca abandonar seu objetivo nem ceder um milímetro de espaço para os reacionários continuará a ser uma inspiração para gerações inteiras”, disse nesta sexta-feira Marlène Schiappa, secretária de Estado para a igualdade entre homens e mulheres do Governo de Macron.

Em 1979, com o apoio de Valéry Giscard d’Estaing, Veil se tornou a primeira mulher a presidir o Parlamento Europeu, posto que manteve até 1982. “O fato de ter construído a Europa me reconciliou com o século XX”, afirmou a europeísta convicta, que, em 2005, deixou o seu crescente afastamento da vida pública – mesmo continuando politicamente ativa – para defender o “sim” no referendo sobre a Constituição Europeia. Um europeísmo que naquele mesmo ano lhe valeu o prêmio Príncipe de Astúrias de Cooperação Internacional, em reconhecimento “aos ideais e realizações de uma Europa Unida e a projeção dos valores europeus para o restante do mundo” de Veil, assim como “pela sua coerência, força e constância na defesa de valores e objetivos em um momento histórico no qual surgem algumas dúvidas e hesitações em relação ao futuro da Europa e sua própria identidade”.

O atual presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, disse à agência France Presse que a vida de Veil é “um exemplo a ser seguido”, lamentando que, depois da morte do ex-chanceler alemão Helmut Khol, “tenhamos perdido mais uma grande europeia”.

Incansável, Veil voltou ao Governo no começo dos anos 90 como ministra encarregada de Assuntos Sociais e Saúde do Governo de Édouard Balladur. Em 1997, passou a presidir o Alto Conselho de Integração e, um ano depois, entrou para o Conselho Constitucional da França, no qual permaneceu até 2007. A partir de 2008, passou a ser membro da Academia Francesa.

Para o ex-presidente François Hollande, Veil “encarnou a dignidade, a coragem e a retidão”. Com sua morte, acrescentou, “a França perde uma de suas grandes consciências”.

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