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Operação Carne Fraca: o esquema podre que ronda os frigoríficos no Brasil

A investigação que abalou o setor revela a irresponsabilidade de fiscais ao dar brechas para que produtos insalubres entrem em linha de produção em troca de propina

Clientes compram carne num agouçe em São Paulo.
Clientes compram carne num agouçe em São Paulo. EFE

A Operação Carne Fraca, deflagrada no último dia 17 e que desvendou um esquema corrupto entre fiscais e frigoríficos para burlar os devidos controles sanitários, já é considerada a de maior envergadura da Polícia Federal. Ela mobilizou cerca de 1.100 agentes para cumprir 309 mandados de prisão, condução coercitiva e busca e apreensão. A operação, no entanto, acabou recebendo críticas, precisamente, pela sua espetacularidade, que repercutiu negativamente nas exportações de carne do Brasil sem que as autoridades tenham sido capazes de dimensionar o alcance das irregularidades.

As 353 páginas do despacho do juiz que autorizou as prisões, Marcos Josegrei da Silva, revelam que não há indícios de que as práticas corruptas sejam comuns em todo o país e limita os tentáculos da trama aos Estados de Paraná, Minas Gerais e Goiás e a 21 frigoríficos, que incluem unidades, isso sim, das gigantes da carne JBS e BRF, donas das marcas Friboi Seara e Big Frango e da Sadia e Perdigão, respectivamente. O juiz tampouco menciona a existência de papelão usado para rechear o frango, como foi divulgado pela Polícia Federal inicialmente, mas sim conta com detalhes de como fiscais e empresários fraudavam o processo de qualidade dos alimentos e recebiam, em troca, de grandes e pequenas quantidades de dinheiro a asinhas de frango.

O relatório, por exemplo, contempla o testemunho de uma ex-funcionária do frigorífico Peccin que assegura que a empresa, com a aprovação dos fiscais responsáveis do Ministério da Agricultura, reaproveitava partes de animais mortos e usava muito menos carne do que a necessária para a elaboração de seus produtos e a substituía por “outras substâncias”. O frigorífico ainda faria uso de carnes estragadas na composição de salsichas e linguiças e mascarava os alimentos estragados com produtos químicos como o ácido ascórbico e sórbico. O problema, nesses casos, não é tanto a composição dessas sustâncias autorizadas mas sim sua utilização para disfarçar carne em mau estado. Há conversas interceptadas que falam do reaproveitamento de carne caducada três meses antes.

É notória também a cumplicidade dos fiscais em casos em que a empresa deve dar saída a lotes infestados com salmonela, por exemplo. Essa bactéria que pode provocar problemas gastrointestinais é motivo de várias conversas entre servidores públicos e funcionários dos frigoríficos. Em um dos casos, um fiscal diz a outro que com a carne com salmonela dá para fazer mortadela.

O decorrer dos fatos relatados pelo juiz demonstra também a facilidade com que os fiscais corruptos se desfaziam dos colegas que sim cumpriam com a sua obrigação. Esta operação, aliás, teve seu origem dois anos atrás a partir da denúncia de um fiscal, Daniel Teixeira, que acabou sendo afastado do seu local de trabalho após identificar e perseguir irregularidades em frigoríficos. Outros fiscais que colocavam travas ao fácil funcionamento das empresas envolvidas eram alvo das conversas entre empresários e servidores que discutiam como dar um jeito neles. Uma fiscal que empenhou-se em fiscalizar o frigorífico Peccin, era chamada de “vaca” e “filha da puta” pelos donos da empresa.

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