FESTIVAL DE CINEMA DE MAR DEL PLATA

‘Aquarius’ e Sonia Braga também conquistam a Argentina

Filme de Kleber Mendonça Filho repete o sucesso de Cannes e é ovacionado em Mar del Plata

Sonia Braga e o edifício Aquarius, os grandes protagonistas. Em vídeo, trailer MDPIFF

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Clara é viúva. Tem 65 anos e desfruta com prazer sua aposentadoria de frente para a praia na cidade do Recife, graças aos cinco apartamentos que lhe permitem viver de renda e uma prolífera vida como jornalista, o que, além disso, lhe outorga certo prestígio social. No entanto, a voracidade imobiliária – inimiga silenciosa dos povos da América Latina – interromperá sua agradável vida e a levará a enfrentar suas contradições. Isso é o que conta Aquarius, o segundo longa-metragem de ficção de Kleber Mendonça Filho, que nasceu nessa cidade e a adotou como eterno set de filmagens, depois de O Som ao Redor, que estreou em mais de 40 países e foi incluído na lista dos 10 melhores filmes de 2013 pelo The New York Times, e os curtas-metragens Recife Frio (2009) e Noite de Sexta-feira, Manhã de Sábado (2007), entre outros trabalhos. Aquarius foi exibido a uma sala lotada no Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata e já se tornou um dos favoritos do público, que o ovacionou de pé. Uma vez mais, Sonia Braga encantou os argentinos.

Em uma imaginária tabela de avaliação deveriam ser incluídos Dona Flor e seus Dois Maridos e Cidade de Deus como pontos altos de aceitação de um filme brasileiro na Argentina. Nesse lugar é preciso colocar Aquarius. Não é a primeira vez que a película do diretor de 48 anos goza de tal privilégio: o pernambucano marcou o regresso dos diretores brasileiros ao Festival de Cannes e recebeu numerosos elogios. Depois disso, o filme disparou em todo o mundo, a ponto de a Netflix já ter adquirido os direitos para incluí-lo entre suas ofertas de 2017 e contar com quatro indicações aos prêmios Fênix do cinema ibero-americano.

Clara é a última moradora de Aquarius, um edifício original de dois andares erguido em 1940 na Avenida Boa Viagem, uma área de classe alta junto ao mar no Recife. Todos os apartamentos vizinhos foram comprados por uma empresa que tem outros planos para esse terreno. Uma construtora que, paradoxalmente, se chama Bonfim. Mas a mulher, que teve câncer de mama, resistirá a uma forma de despejo psicológico desencadeado pela empresa. O resultado é uma espécie de guerra fria, um confronto que se transforma em disputa entre dois distintos estilos de vida: de um lado, a vida contemporânea, marcada pelo consumo de ostentação; do outro, a que busca um senso de comunidade. Clara se verá confrontada em suas contradições, marcadas pelo respeito de sua liberdade e, ao mesmo tempo, pelos próprios refúgios burgueses e o simples acesso ao conforto de que desfruta, seja para que outra mulher faça os serviços de casa, como para satisfazer algum desejo sexual.

“Acho interessante que meus protagonistas sejam uma pessoa e um edifício que têm mais ou menos a mesma idade, e de algum modo ambos se sintam ameaçados. O filme surgiu de uma série de eventos, incluindo um exagero bastante corriqueiro de ligações telefônicas que recebi em casa: chamadas de telemarketing para a venda de todo tipo de assinaturas, cartões de crédito e obras sociais, TV a cabo e jornais. Senti-me sob o ataque do mercado, que tenta obrigar as pessoas a comprarem coisas que não querem”, explicou o diretor em uma entrevista a EL PAÍS.

A exposição em Cannes também lhe trouxe inimigos. Parte principal do elenco e o diretor exibiram cartazes no tapete vermelho do festival com os dizeres “O mundo não pode aceitar este governo ilegítimo”, “O Brasil já não é uma democracia”, “Machistas, racistas e caloteiros como ministros” e “Um golpe ocorreu no Brasil”. Faziam referência ao impeachment de Dilma Rousseff e ao novo Governo que assumiu em seguida, o de Michel Temer – a ex-presidenta até agradeceu o gesto em sua conta no Twitter: “Obrigada Kleber Mendonça Filho, Sonia Braga e Maeve Jinkings – o talento do Brasil em Cannes. Ao elenco extraordinário do filme Aquarius, um beijo em nome da democracia”. A resposta do novo Governo não tardou a chegar: a escolha de Pequeno Segredo, de David Schurmann, como candidato do país na disputa pelo Oscar, passando por cima da obra de Mendonça Filho, foi muito criticada no Brasil e muitos sustentam que se tratou de punição. A escolha havia começado mal, com a decisão de muitos diretores de retirarem seus filmes depois que o crítico de cinema Marcus Petrucelli foi designado para o comitê de seleção, já que antes de assumir o posto ele havia criticado a equipe de Aquarius por sua reprovação de Temer. “Vai ser muito difícil para eles porque o filme está basicamente em todos os lados”, respondeu Kleber.