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A literatura brasileira muito além do futebol e do samba

Brasil é uma ilha cultural cuja literatura transcende seus estereótipos

Seus escritores e escritoras têm o desafio de refletir a imensa diversidade do país em suas páginas

Em meados de julho, todo ano, a linda cidade de Paraty, no estado do Rio de Janeiro, abriga o festival literário mais importante do Brasil. Os casarões de mais de 300 anos da época do comércio do ouro e as ruas de traçado colonial, calçadas de pedras quase assassinas para os tornozelos dos transeuntes, se transformam em uma espécie de radiografia não de todo infiel do panorama do livro brasileiro. É o melhor lugar para tentar descobrir para onde vai a literatura brasileira —se é que vai para algum lugar. Também para saber se os romances e ensaios de hoje ou de depois de amanhã refletem ou refletirão o convulso e depressivo estado que atravessa o país: às portas dos Jogos Olímpicos, com uma presidenta, Dilma Rousseff, afastada de seu cargo por um processo ainda em andamento de impeachment e semi-exilada em seu próprio palácio residencial, e outro presidente em exercício, Michel Temer, à espera de tomar as rédeas do poder de forma definitiva em um mês. Quando a história entra pela porta, a literatura se joga pela janela?

Rodrigo Lacerda (Rio de Janeiro, 1969), editor, historiador e escritor, é um dos romancistas que passeiam por Paraty. É autor, entre outros, de um romance celebrado, Outra vida, no qual relata o desmoronamento de um casamento enquanto espera um ônibus que vai levá-los para fora de São Paulo. Lacerda afirma que o chacoalhada político e social do Brasil “é muito recente para que já apareça nos romances”. Mas acrescenta: “Apesar disso, hoje há um interesse pelos tempos da ditadura, e isso sim se pode aproximar do tema da crise que estamos vivendo, como se se sobrepusessem”. E acrescenta: “Nesta nova queda de autoestima que agora estamos sofrendo, os dois temas se unem na sensação de que estivemos perto de chegar lá, mas que o chão voltou a se abrir e caímos de novo no inferno. O trem passou. Temos que esperar outro. Não tem jeito”.

A enfermeira Bruna Siqueira lê um livro no Aterro do Flamengo, no Rio. ampliar foto
A enfermeira Bruna Siqueira lê um livro no Aterro do Flamengo, no Rio.

O escritor acrescenta então outra característica da atual literatura brasileira: “Há alguns anos, uma especialista elaborou um censo dos personagens de ficção e 90% eram homens, universitários, que moravam em grandes cidades (Rio de Janeiro e mais ainda São Paulo) e que tinham problemas típicos dessa classe social. Ou seja: escrevemos sobre nós mesmos”.

Isso é especialmente cruel em um país tão diverso social, racial, geográfica e até climaticamente como o Brasil: uma geografia cruzada de mundos e até de épocas diferentes que se justapõe e se retroalimenta em um território mágico. A vida de um professor da Universidade de São Paulo não tem absolutamente nada a ver com a de um trabalhador sem terra do estado do Maranhão, nem a deste com a de um índio de um dos mil rios amazônicos ou com a de um boiadeiro do Sul ou do Oeste do país.

Luiz Ruffato, de 55 anos, escritor e articulista na imprensa, autor, entre outros, de Eles eram muito cavalos, um romance experimental que descreve, em capítulos curtos e eletrizantes, a vida na interminável São Paulo, tem uma explicação triste: “A ficção atual brasileira reflete os problemas, a vida e as preocupações da classe social que teve acesso aos estudos no Brasil. Cada um escreve sobre sua aldeia, sua cidade, seu entorno, e com isso tenta ser universal. Mas no Brasil, no entanto, não há escritores vindos de outro mundo além do nosso e isso diz muito sobre a desigualdade que impera do país”.

O estudante Victor Caplin lê um livro nas pedras do Arpoador, na praia de Ipanema (Rio). ampliar foto
O estudante Victor Caplin lê um livro nas pedras do Arpoador, na praia de Ipanema (Rio).

Alguma coisa se move, no entanto, em algumas favelas do Rio ou de São Paulo. Incipiente ainda, carente segundo alguns de autêntico fôlego literário, um grupo de escritores nascidos e criados ali começam a publicar e a viajar por aí mostrando sua obra. Um de seus expoentes é Reginaldo Ferreira da Silva, Ferrez, de 40 anos, morador do bairro periférico do Capão Redondo, em São Paulo. Seu último livro é o volume explosivo e combativo de contos Os ricos também morrem, no qual narra as histórias de seus vizinhos. Em uma entrevista a este jornal, explicou: “É um livro pensado para ser comentado na rua, para que riam quando comentam. Eu não tenho mais nada além das pessoas lendo minhas histórias e comentando comigo, rindo quando conto para elas. Não são histórias reais, mas o tom e o modo de falar são. São daqui”.

A música como modelo

90% dos personagens de romances são homens, urbanos e universitários, algo cruel em um país tão diverso e  desigual socialmente

Há também um elemento que pode intimidar os escritores brasileiros na hora de abordar um tema mais amplo que o de sua própria vida e o dos que rodeiam o escritor: a realidade brasileira costuma com frequência derrotar qualquer um que a enfrente a partir da ficção. Em O dono do morro, um livro sobre a vida do narcotraficante Nem da Rocinha, o jornalista britânico Misha Glenny conta a história, entre outras incríveis, de Chico-Bala, o macaco mascote do líder que passeava vestido de caubói e acabou sequestrado pela política.

A estudante universitária Jessica Rabelo lê um livro na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. ampliar foto
A estudante universitária Jessica Rabelo lê um livro na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Já a blogueira e escritora Julia Wähmann, de 35 anos, cita a votação do impeachment na Câmara como exemplo de algo inimaginável para um escritor de ficção. “A abordagem de conceber em um romance a votação do Congresso que afastou Dilma Rousseff do poder, com os políticos votando pela mãe, pela esposa, pela tia... não ia passar pela cabeça de ninguém”, explica. “Em meu primeiro livro escrevi uma história muito pouco brasileira, centrada na dança contemporânea. Mas, por outro lado, também é a história de uma brasileira que viaja.”

O escritor e professor de literatura Flávio Carneiro, de 54 anos, concorda com essa desvantagem diante da realidade extraordinária de todos os dias no Brasil, mas alerta para o reducionismo: “Desde os anos 80, há muitas literaturas brasileiras, incluindo uma literatura de entretenimento, herdeira de Machado de Assis, do folhetim, que eu defendo”. Carneiro é autor de uma série de romances policiais que se passam no Rio de Janeiro. “Até há alguns anos, no Brasil, o escritor Ruben Fonseca, autor de romances policiais, era considerado subliteratura. Agora é um clássico”, acrescenta.

Imagens da seção de literatura brasileira da Libreria Cultura. ampliar foto
Imagens da seção de literatura brasileira da Libreria Cultura.

Carneiro tem razão. É perigoso tentar reduzir a literatura de um país-continente, onde se produzem muitas novelas urbanas paulistas como as de Ruffato, mas que também produz joias estranhas como A queda do céu, escrito pelo antropólogo francês Bruce Albert sobre o que lhe contou seu amigo de anos, o xamã da tribo indígena yanomami Davi Kopenawa, um texto citado por algum escritor como um volume imprescindível para compreender a realidade brasileira.

No que todos os escritores concordam é com a pouca repercussão internacional da literatura brasileira. O primeiro prêmio Nobel em língua portuguesa (e único até agora) é do escritor português José Saramago. Não houve nenhum brasileiro. As traduções dos romances brasileiros são raras e difíceis de encontrar na Espanha, Estados Unidos ou França. Ou, pelo menos, muito mais difíceis de encontrar do que as de seus contemporâneos hispano-americanos. Todos têm consciência de que vivem em uma ilha linguística enorme, mas uma ilha, afinal. E todos criticam a bastante escassa e contraditória promoção cultural dos sucessivos governos brasileiros. Há quem aponte também, como a escritora Noemi Jaffe, que muitas vezes as editoras estrangeiras buscam um conjunto de estereótipos (futebol, samba, favela...) dos quais muitos escritores justamente tentam escapar.

Livros, leitores e analfabetos

-Habitantes do Brasil: 205 milhões.
-Índice de analfabetismo: o Brasil é o oitavo país do mundo com mais analfabetos (cerca de 14 milhões, segundo dados da Unesco de 2014). 38% dos analfabetos latino-americanos são brasileiros.
-Número de títulos editados: 60.829 em 2014 e 52.427 em 2015 (uma redução de 13,81%).
 -Tiragem média: 4.500 cópias para uma tiragem média inicial a nível nacional.
 -Porcentagem de traduções de línguas estrangeiras: 4.781 títulos traduzidos; 47.646 nacionais (9,11% do total em 2015).
 -Número de editoras: Mais de 750 segundo o último estudo da Câmara Brasileira do Livro.
 -Número de livrarias: 3.095, uma por cada 64.954 habitantes em 2014 (a Unesco recomenda 1 pela cada 10.000). 55% estão no Sudeste, 19% no Sul, 16% no Nordeste, 6% no Centro-Oeste e 4% no Norte.
 -Número de bibliotecas públicas: 6.949 espalhadas nos 26 Estados e no Distrito Federal.
 -Títulos mais vendidos em 2015: ­Ficção: Cinquenta Tons de Cinza , de E. L. James (174.796 cópias). Não ficção: Jardim secreto, de Johanna Basford (719.626 cópias).

Todos esses autores olham com uma ponta de inveja para a proteção universal da música brasileira, essa contínua fonte popular de ritmo e harmonia que a cada geração vê brotar um ou vários gênios. Ricardo de Carvalho, o Chacal, velho poeta que ia à agora bela cidade de Paraty nos tempos em que por lá não havia “senão cachorros vagabundos e bêbados no porto”, recorda que boa parte da cultura brasileira, a que vem dos índios que estavam ali e a dos negros que chegaram nos navios de escravos “é uma cultura eminentemente oral, focada na música”. “Houve um funcionário português encarregado de civilizar os indígenas brasileiros dos primeiros tempos que escreveu que a metrópole teria de fazê-lo com a música, porque sem ela não conseguiria nada. ‘Sem tam-tam não dá’, dizia.”

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