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Flip 2016 chega ao fim com mulheres e poesia no pódio

Evento reuniu 23.000 pessoas ao redor de grandes autores, como Svetlana e Karl Ove, e certas surpresas

Balanço Flip 2016
Encontro com Svetlana Aleksiévitch.

Chegou ao fim mais uma edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a de número 14, que com o menor orçamento (6,8 milhões de reais) da última década – em vista da crise econômica – trouxe a essa parte do litoral brasileiro mais de 23.000 pessoas interessadas em acompanhar 131 autores convidados e espalhados em 158 eventos da Flip, Flipinha, FlipZona e FlipMais.

Foi um ano em que os debates na tenda dos autores, a principal, a circulação de pessoas na rua e a ocupação parcial das pousadas delataram menos engajamento nessa que se tornou a mais famosa festa literária do Brasil. Mesmo assim, houve destaques importantes, protagonizados por escritores do porte da Nobel Svetlana Aleksiévitch e do norueguês Karl Ove Knausgard e por outros convidados que brilharam mais do que o esperado.

Desde o anúncio da programação deste ano, a proposta principal era falar de poesia, homenageando Ana Cristina César, e dar às mulheres o maior espaço que lhes cabe na cena literária. A missão foi cumprida, e não só pelas atividades oficiais, mas inclusive pela farta lista de atividades paralelas – que, na opinião de muitos dos presentes, neste ano cresceu.

O discurso político, ainda que não oficial, deu o tom da festa. Muitos autores abriram suas falas com a saudação “primeiramente…”, cristalizada no discurso dos que se opõem ao Governo de Michel Temer, e aproveitaram perguntas pertinentes e até mesmo brechas para se posicionar contra a legitimidade da gestão atual e questionar medidas como a extinção do Ministério das Mulheres e ameaças como o fim do Sistema Único de Saúde (SUS). Na maioria dos casos, eles foram aplaudidos, mas houve quem se manifestasse, inclusive diretamente ao curador da festa, Paulo Werneck, pelos “gritos desagradáveis de ‘Fora Temer”.

Algumas das mesas imperdíveis foram, além dos encontros exclusivos com Svetlana e Knausgard, fartamente comentados pela imprensa, a que reuniu a rapper e escritora inglesa Kate Tempest e o poeta Ramón Nunes Mello (O palco é a página) e a conversa com o poeta Leonardo Fróes. Na primeira, os dois transformaram as leituras de trechos de seus livros de poemas em um show instigante, fazendo o público pedir mais. Kate Tempest, que tem 31 anos mas compõe e escreve seriamente desde os 15, foi ovacionada de pé. Na segunda, Fróes comoveu os presentes com falas amorosas e auto-centradas de sua poesia tão ligada à observação da natureza. Foi também aplaudido de pé, e muitas das pessoas que o celebraram deixaram a tenda principal sorrindo e chorando.

Também agradaram mesas como Breviário do Brasil, que reuniu os brasilianistas Benjamin Moser e Kenneth Maxwell, A história da minha morte, com o escritor carioca J.P. Cuenca e a escritora mexicana Valeria Luiselli, e a mesa A teus pés, que discutiu o legado da homenageada, Ana C., a partir das obras de jovens poetas mulheres – Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia – que transportaram a ideia do mito ao redor de Ana C. (morta em 1983, com pouco mais de 30 anos) aos aportes concretos da escritora à poesia contemporânea. Vale ressaltar que funcionaram muito melhor as mesas que tinham bons mediadores – eles fizeram a diferença especialmente nesta edição.

A decepção maior talvez tenha sido a mesa Sexografias, da cronista peruana Gabriela Wiener e da romancista Juliana Frank, que provocou vergonha alheia e dominou as rodas de conversa depois de acontecer. Performática e desconexa, Frank não encadeava ideias em um discurso e preferia brincar com a plateia – dificultando que Wiener, esforçando-se para compartilhar sua experiência, pudesse falar. Muitos se levantaram antes do fim da conversa, coisa que também aconteceu na primeira mesa deste domingo, do “poeta acidental” Abud Said com a jornalista Patricia Campos Mello, Síria mon amour.

Por fim, a lista dos livros mais vendidos, divulgados neste domingo pela organização da Flip, está encabeçada não por um título de poesia, como nos dois anos anteriores, mas pelo relato de não ficção de Svetlana sobre a bravura de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial, A guerra não tem rosto de mulher (Companhia das Letras). O outro título dela já publicado no Brasil, Vozes de Tchernóbil, apareceu no terceiro lugar do ranking. Em segundo, aparece a poesia de Ana C., com o primeiro livro que ela publicou A teus pés. Dá para dizer, sem medo de errar, que a poesia venceu. E as mulheres ocuparam seu espaço, cuja ampliação será cada vez mais cobrada.

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