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Ex-alto funcionário kirchnerista é o primeiro detido por corrupção da era Macri

Ricardo Jaime é investigado pela compra fraudulenta de trens em péssimo estado da Europa

Ricardo Jaime, em uma foto de arquivo.
Ricardo Jaime, em uma foto de arquivo.

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Ricardo Jaime, que foi secretário de Transporte da Argentina entre 2003 e 2008, transformou-se neste sábado no primeiro alto funcionário kirchnerista detido na era Macri por corrupção. Jaime se entregou à polícia depois que um juiz federal argentino ordenou sua detenção por supostas irregularidades em uma compra de trens. Na segunda-feira, deverá responder nos tribunais pela aquisição de material ferroviário em péssimo estado da Espanha e de Portugal em 2005 por um valor superior a 100 milhões de euros (405 milhões de reais).

O juiz Julián Ercolini solicitou a detenção de Jaime por considerar que “os fundos pagos pelo material rodante adquirido eram de uma desproporção exorbitante em relação à sua qualidade e à sua funcionalidade real, o que leva a presumir que grandes somas de dinheiro foram subtraídas da esfera da administração pública”. Jaime, que já acumula três condenações, negou ter cometido algum delito antes de se entregar.

Nessa suposta manobra, a administração do então presidente Néstor Kirchner supostamente pagou um valor superfaturado e grandes comissões a uma empresa argentina por sua assistência na compra de trens que não foram utilizados nem mesmo para o aproveitamento de peças de reposição.

Jaime é o ex-funcionário kirchnerista que acumula mais processos de corrupção. Sua detenção deve significar um alívio para o presidente argentino, Mauricio Macri, depois de uma semana centrada nas más notícias dos aumentos de luz, gás, água, transporte e gasolina. Nada esquenta mais o debate e atrai a atenção do que os escândalos de corrupção do kirchnerismo, que estão debilitando muito a imagem desse grupo, principalmente agora que foi divulgado um vídeo de um filho do empresário Lázaro Báez contando até 5 milhões de dólares (17,7 milhões de reais) em sua financeira.

Nos ambientes políticos argentinos, e em especial dentro do Governo, há um assunto que monopoliza as conversas e provoca intensos debates: Cristina Fernández de Kirchner acabará na prisão? E seu entorno mais próximo? E seus amigos empresários? A resposta mais frequente é que ela não será presa, mas algum empresário próximo, sim. “Parece que Cristóbal López [principal empresário do kirchnerismo, agora em apuros fiscais] tem todas as probabilidades de ser o Odebrecht argentino”, assinala um macrista em referência ao empresário brasileiro Marcelo Odebrecht, preso no ano passado.

O debate dentro do Executivo vai além: será que Macri deve pressionar para que a ex-presidenta seja presa, como pedem muitos dos eleitores macristas? Em plena polêmica por causa das demissões e principalmente dos enormes aumentos de tarifas e da inflação desenfreada, a pressão política para encontrar algo que sirva para desviar a atenção é crescente dentro do Executivo.

A tensão é tão grande que o presidente se viu obrigado a desmentir publicamente que esteja tentando pressionar os juízes que tratam os distintos casos envolvendo a família Kirchner e seu entorno. No entanto, enquanto prometia que não se intrometerá e respeitará a independência judicial, Macri intensificava sua ofensiva contra os Kirchner e seu entorno por meio de Laura Alonso, que chefia o Escritório Anticorrupção e é uma pessoa da máxima confiança do presidente. Alonso, que foi diretora da seção argentina da Transparência Internacional, decidiu pedir que o juiz Daniel Rafecas se una como querelante à ação judicial que mais preocupa a ex-presidenta: o chamado “processo Hotesur”, na qual se investiga uma possível lavagem de dinheiro nos hotéis da família Kirchner.

A decisão é estratégica, porque o processo está praticamente parado desde que, em julho, um tribunal o transferiu do juiz Claudio Bonadío, muito duro, para o juiz Rafecas, até agora mais brando. Esse caso inquieta a ex-presidenta porque, segundo fontes judiciais, com as provas que Bonadío já recolheu, parece muito evidente que a empresa de Cristina Kirchner, que possui três hotéis em El Calafate, um paraíso turístico ao lado da geleira Perito Moreno, faturou centenas de quartos para a empresa de Lázaro Báez − o principal construtor da província da Santa Cruz e íntimo dos Kirchner − que na verdade nunca foram ocupados, e isso em plena temporada de inverno, quando em El Calafate há pouquíssimos turistas. A presença do Escritório Anticorrupção e portanto do Governo na causa, se for aceita pelo juiz, pode não só oferecer informação e capacidade de manobra ao Executivo, como também enviar uma mensagem política muito clara: Macri quer ir até o fundo.

Os tribunais têm grande importância política na Argentina, ainda mais agora que todos olham o exemplo do Brasil, onde os juízes podem levar à queda do Governo. Muitos macristas pressionam para que os juízes acabem com a possibilidade de que a ex-presidenta volte para a primeira linha da política. De fato, ela continua em silêncio e seu regresso será precisamente no tribunal, em 13 de abril, para quando está convocada como acusada pelo juiz Bonadío em outro caso − não de corrupção, mas de suposta má gestão das reservas do Banco Central.

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