Entrevista | Paul E. Steiger

Paul E. Steiger: “Os poderes escondem o mal cada vez melhor”

O jornalista, que dirigiu por 15 anos 'The Wall Street Journal', é o fundador do ProPublica, um site revolucionário de investigação

Bernardo Pérez

No começo de sua carreira, os conhecimentos de economia e o talento lhe abriram caminho no mundo dos repórteres políticos, apaixonados pelos corredores da Casa Branca, mas que temiam os números. Paul Steiger acabou dirigindo a redação de The Wall Street Journal (WSJ), um templo do jornalismo financeiro, durante 15 anos.

Assim estavam as coisas quando Steiger completou 65 anos. Foi informado de que as regras do Journal não perdoam nem as grandes estrelas, e o convidaram a aposentar-se. Steiger não resistiu. Pegou suas tralhas e partiu com suas obsessões para outro lugar. Estava preocupado com o declínio do jornalismo, a crise do modelo de negócio que obrigou uma legião de órgãos da mídia a fechar e muitos a prescindirem da investigação por causa de seu elevado custo. Para remediar isso, fundou em 2007 o ProPublica, uma empresa de investigação jornalística sem fins lucrativos, empenhada em defender o interesse público e desvendar os abusos do poder. É um modelo inovador, que nada contra a corrente da velocidade e os 140 caracteres de um tuíte. Dois Pulitzer – um deles, o primeiro da história para uma mídia digital – são um reflexo do profundo impacto do invento.

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Steiger fala sem pressa, como se tivesse toda uma vida pela frente. Suas reflexões são um combinado de conhecimentos de primeira mão, processados com grandes doses de senso comum e potencializados com a liberdade concedida pela vasta experiência e por não ter chefes.

Durante uma hora e meia ele fala de sua trajetória, dos poderes e suas manobras para se perpetuarem, e até da morte. Veio à Espanha ensinar jornalismo a convite da Universidade de Navarra e da Fundação Rafael del Pino. Todos lhes pedimos receitas mágicas que resolvam os dilemas existenciais da imprensa. Não as tem, porque provavelmente não existem.

“Haverá um 'revival' do jornalismo baseado nos fatos”

Pergunta. O senhor esteve no topo da elite do jornalismo financeiro. Foi testemunha privilegiada das maracutaias do poder. O que viu ali que o estimulou a fundar um órgão decidido a desvendar os abusos do poder?

Resposta. O que vi é que a indústria (da informação) estava sob imensa pressão. A princípio acreditei que seria cíclico, mas em seguida ficou claro que iria ser uma transformação total e senti que havia duas áreas especialmente vulneráveis: o jornalismo internacional e o de investigação, porque ambos são muito caros; Já fazia tempo que eu tinha recebido um telefonema dos Sandler, um casal de amigos milionários que eu conhecia havia alguns anos. Nos anos cinquenta compraram uma pequena empresa de poupança e crédito que depois venderam a um banco, e se tornaram milionários. A primeira vez que me contataram, oferecendo-me investir parte de seu dinheiro em um projeto jornalístico, lembro que relacionei um par de ideias em uma carta. Quando me aposentaram no Journal, recuperei aquele envelope e fundei o ProPublica.

P. Não acredita que a mídia tradicional seja capaz de investigar?

R. Nem de longe na medida em que era capaz de fazer antes. É preciso haver mais investigação porque as pessoas poderosas e as instituições se tornaram mais sofisticados vendendo o que fazem bem e escondendo o que fazem mal.

P. Que meios utilizam para intoxicar os jornalistas?

R. O nível de sofisticação das relações públicas, o marketing e a propaganda são infinitamente maiores do que eram. Quando se exige das empresas que tornem públicos os seus dados e suas contas, respondem publicando uma quantidade muito grande de informação para te obrigar a encontrar a agulha no palheiro.

P. Há menos transparência.

R. Exato. Por um lado, há mais leis que garantem a transparência e mais declarações e compromissos, mas ao mesmo tempo há mais esforços para evitar a transparência.

Paul E. Steiger nasceu no Bronx e cresceu em Connecticut, onde também estudou Economia na Universidade de Yale. Neste triângulo geográfico passou a maior parte de sua vida e de lá subiu até o cume do jornalismo financeiro mundial. Passou quase meio século informando. Foi diretor de informática do The Wall Street Journal (1991-2007) e fundou ProPublica depois. Aos 73 anos, este fã de esportes quer defender o interesse público e mostrar os abusos de poder. Aqueles que trabalharam com ele dizem que gosta mais de ouvir que de mandar.

P. De quem recebeu mais pressões durante sua carreira?

R. Dos políticos, porque têm muito mais ferramentas. Lembro que há alguns anos Los Angeles Times e The New York Times preparavam uma reportagem sobre como a espionagem dos EUA trabalhava em uma base de dados internacional para tentar retardar a lavagem de dinheiro de grupos terroristas. Primeiro, o Governo tentou impedir que a escrevessem, mas não conseguiu. Depois, alguém do Tesouro vazou a história para nós do Journal e, no final, publicamos os três. Desencadeou-se a tempestade. Houve congressistas que quiseram julgar-nos por traição. Imagine, por publicar uma história que o próprio Governo havia vazado para nós.

P. O ProPublica é o primeiro órgão informativo que passa para a dark web, a Internet subterrânea. Por que fizeram isso?

R. Porque a vigilância dos Governos pode pôr em perigo nossas fontes, ou pode hackearnos. Isso nos obriga a utilizar novos meios. Nós recebemos informação de fontes oficiais. No passado, os seus chefes só podiam tentar averiguar quem tinha sido o responsável pelo vazamento, mas agora os chefes têm meios técnicos para saber quem telefonou para quem ou quem enviou um correio eletrônico a outra pessoa ou quem pesquisou na Internet determinada informação. Se queremos que as pessoas nos mandem informação de forma confidencial, se queremos fazer fontes, temos que criar os mecanismos que permitam que essas conversas sejam secretas.

P. O senhor tem sido muito duro com o Governo Obama e sua perseguição aos vazadores.

R. É irresistível para um presidente querer impedir que certas coisas sejam publicadas. No WSJ, quando havia problemas dentro da redação, às vezes nossos jornalistas falavam com a concorrência e eram publicados artigos embaraçosos para nós. Os grandes chefes se irritavam e gritavam: “Quem foi? Como isso pode estar acontecendo?”. Mas eu lhes dizia: “Vejam, não vou pôr em andamento uma caça às bruxas. Nós vivemos de pessoas que nos contam coisas e não vou marcar ninguém na minha empresa por falar com gente de fora”. Quando um subordinado faz coisas que te expõem ao ridículo, é uma reação natural querer detê-lo, mas o fato é que, além de tudo, agora você pode. As técnicas que a Agência de Segurança Nacional (NSA) desenvolveu para controlar terroristas podem ser usadas para vigiar os funcionários do Governo. Sempre houve documentos secretos, outros muito secretos e outros supersecretos, mas os Governos tinham consciência de que, de vez em quando, havia alguém pensando que o que estava sendo feito não estava certo, e por isso vazava. Durante a maior parte da minha carreira os Governos não fizeram esforços sérios para saber quem vazava.

P. Donald Trump ascendeu à margem da mídia tradicional. Ela importa cada vez menos?

R. Conheço Donald há muitos anos. É uma máquina de gerar audiência. Ele sabe disso e a mídia sabe. Ele não precisa que The New York Times ou The Wall Street Journal escrevam sobre ele. Agora já não há uma barreira para entrar. Costumo dizer que as melhores decisões que tomei como diretor foram sobre histórias que decidi que não seriam publicadas, não sobre as que de fato foram publicadas. Mas, agora, se os políticos não têm acesso a um órgão da mídia, vão para qualquer outro. Antes precisavam de dezenas de milhares de dólares em jornais e televisões se quisessem que sua voz fosse ouvida. Agora, você só precisa de um computador e você mesmo pode se transformar em um meio de comunicação. Os Donalds se gravam, se tuitam e chegam a muitos lugares, e acredito que isso seja bom. Na América acreditamos em que as pessoas digam o que quiserem. Ele pode expressar-se com tal mau gosto que seria capaz de destroçar qualquer outro candidato, mas, como se esperam essas coisas dele, não têm consequências, pelo contrário. Isso significa que o poder da mídia diminuiu? Sim.

P. Os senhores pagam 2.800 dólares (10.600 reais) a seus bolsistas porque acreditam que o jornalismo de qualidade custa dinheiro, mas, como fazer com que o leitor entenda que é preciso pagar pela qualidade? O ProPublica vive da filantropia, mas esse é um modelo que dificilmente pode ser extrapolado para outros países.

R. Há alternativas, e as fundações sem fins lucrativos têm de ser uma delas. É possível que as receitas da publicidade na Internet se recuperem em algum momento e que os órgãos da mídia sejam finalmente capazes de sobreviver. Alguns com assinaturas digitais e outros, não. Mas, claro, haverá um abalo. No início do século XX havia uns 1.000 fabricantes de carros nos EUA e só restaram três. Não foi de um dia para o outro, mas aconteceu. A bolha das pontocom em 2001 obrigou muitas empresas de Internet a fecharem, mas as que sobreviveram são mais bem-sucedidas. Apesar de haver muitas variáveis, encontraremos o caminho graças a uma combinação de fórmulas que tornem possível financiar o jornalismo de investigação. Veja o BuzzFeed. Começaram fazendo listas de gatinhos e agora fazem coisas muito sérias.

P. O que acontecerá com os grandes órgãos tradicionais nessa corrida pela fragmentação?

R. São ciclos. Em algum momento haverá um revival do jornalismo baseado nos fatos, mas isso não vai acontecer de um dia para outro. Os órgãos que publicam informação coexistirão com os muito partidários, e os consumidores terão de ter muito cuidado com o que leem e com aquilo em que acreditam.

P. Apesar de tudo, o senhor considera que hoje se faz muito bom jornalismo.

R. Sim, o que mudou é o panorama. Antes, o acesso à mídia era muito restrito, estava dominado por um número relativamente pequeno. Agora há novos órgãos com diferentes estruturas e formas de fazer chegar a mensagem. Pense, por exemplo, na quantidade de informação que você recebe de um telefone. Há dezenas de anos você as recebia dos jornais, depois dos computadores e agora dos telefones.

P. Como o uso dos telefones inteligentes muda a maneira de escrever notícias?

R. Não sei o que é melhor, mas sei que há coisas que quero saber de forma imediata. Esta semana, voando de Nova York a Madri, havia uma grande partida de futebol americano que seguia muito equilibrada e eu não queria esperar até chegar a Madri para saber o resultado. A aeromoça me presenteou com um cartão para navegar com meu telefone durante meia hora.

P. Nós nos tornamos mais impacientes.

R. Sim, claro. E às vezes isso é bom porque você pode agir para que as suas necessidades sejam logo satisfeitas.

P. Agora, volta-se a falar do colapso financeiro de 2007. O sistema entrou em colapso e os jornalistas não previram nada. Não foi investigou ou publicado o suficiente ou foi publicado, mas ninguém deu importância?

R. Foram escritas muitas histórias sobre os excessos no mercado de hipotecas, mas não entendemos a magnitude da história. Nem soubemos explicar as técnicas complexas que permitiam a criação dos produtos financeiros sofisticados, que por sua vez eram muito tóxicos. Sabíamos que havia gente que contratava hipotecas lixo e não eram capazes de pagá-las. E que quem vendia as hipotecas falava para comprarem casas que não teriam como pagar. Imaginem, assinavam uma sexta-feira e na segunda-feira colocavam as hipotecas em Wall Street, saíam de sua contabilidade e empacotavam como produtos financeiros que revendiam a aposentados na Alemanha ou no Japão, ou a bancos na Escócia. Os empacotadores ganhavam centenas de milhões de dólares.

P. No filme A Grande Aposta são mostradas as relações tóxicas entre jornalistas e empresários, também no Journal.

R. Não há nenhuma maneira de que o jornalismo mais perfeito – e este certamente não foi – possa impedir recessões e crises. Passei 41 anos cobrindo estes assuntos, vi muitos altos e baixos. Lembro uma vez no WSJ, quando a Bolsa começou a subir. O Dow Jones disparou e na redação alguns disseram que aquilo era uma barbaridade. Eram os anos noventa, depois veio a queda e o mercado perdeu 20% do seu valor, mais do que tinha perdido na segunda-feira negra da Grande Depressão. Mas depois se recuperou e os preços se estabilizaram. Também me lembro uma vez que uma amiga que trabalhava no Citibank me disse que achava que as ações estavam grotescamente infladas. E estavam, mas seus colegas não paravam de comprar e estavam ganhando. Se você não comprava, parecia um estúpido. O que quero dizer é que existe a ideia de que alguém sempre vai assumir a responsabilidade, o Federal Reserve [Fed] vai acabar tomando as decisões certas, que haverá resgates e que o Fed vai inundar o mercado com dinheiro. E isso é exatamente o que aconteceu em vários episódios nos anos noventa. Quando chegamos a 2006-2007, ainda havia gente que achava que o Governo ajudaria e que apostava que as ações dos bancos subiriam. E depois estavam os caras inteligentes que aparecem em A Grande Aposta, aqueles que sabiam que não ia ser assim. Você pode lançar anúncios, mas as pessoas vão dizer: “É, mas, logo vem o Fed e tudo vai ficar bem”.

P. Inventamos novos produtos financeiros. Se der errado, eles vêm nos resgatar. Não vamos para a cadeia. Não aprendemos nada? Poderia acontecer de novo?

R. Exatamente. Só que da próxima vez vai ser ainda pior. Não teremos as mesmas bolhas, serão outras.

P. Por um lado, há uma certa demanda por jornalismo investigativo. Mas, por outro, não está claro que revelar um abuso terá consequências nem entre a opinião pública nem entre os políticos. Houve grandes revelações de torturas, escutas ilegais... E na manhã seguinte, o mundo continuou igual, nada mudou.

R. Uma de nossas primeiras histórias no ProPublica, a das enfermeiras [descobriram que enfermeiras com sanções disciplinares e inabilitadas em um estado burlavam os registros e trabalhavam em outros estados], causou demissões e fez com que o governador da Califórnia reagisse. É verdade que o jornalismo investigativo não vai resolver todos os problemas, mas sem ele, as pessoas tentarão cometer abusos que não se atreveriam se achassem que tem alguém observando.

P. As redações diminuem e há menos pesquisa, mas, ao mesmo tempo, há intensa atividade nas redes sociais. Cada vez mais conteúdo é produzido, essa palavra tão adorada agora.

R. Conteúdo e inventário [publicitário] são as duas palavras de ordem. A rede fornece uma grande variedade de opiniões, algumas delas muito valiosas, mas isso é diferente da publicação de dados, isto é, quando alguém descobre algo. Se você quer fazer algo como a matéria das enfermeiras, ou como a do doping que fizemos com a BBC, ou como a que fez agora a BuzzFeed sobre as partidas de tênis com resultados manipulados – também com a BBC –, precisa de uma boa equipe de jornalistas e advogados. O risco para um indivíduo que tentasse fazer algo semelhante seria excessivo. As redes sociais não são suficientes, investigar custa dinheiro. É verdade, no entanto, que para o ProPublica as redes foram fundamentais para nossa expansão, especialmente o Twitter.

P. Você conta que foi mandado para casa pelo The Wall Street Journal quando fez 65 anos. Em seguida, criou o ProPublica, talvez o projeto mais ambicioso de sua carreira. O que há de errado com a aposentadoria?

R. Quando se aproximava a idade da aposentadoria no WSJ, minha esposa me disse o primeiro dia que me visse de moletom em casa depois das 10h30 não ia significar o divórcio, mas diretamente assassinato. Além disso, gosto de fazer coisas. Tenho 73 anos, quem sabe o que vai acontecer. Existem leis complexas que acabam de ser aprovadas, mas temo que há uma que nunca será aprovada: a abolição da morte. Eu só sei que agora estou me divertindo.

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