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O vídeo que complica a situação da argentina que assassinou seu namorado

Imagens registram uma mulher se afastando da zona quando Fernando Pastorizzo ainda agonizava

Nahir Galarza, detida em Gualeguaychú, província de Entre Ríos.

A imagem é em preto e branco e meio desfocada, mas é possível perceber que uma jovem de saia branca curta caminha de noite por uma rua de Gualeguaychú, na província argentina de Entre Ríos. Passavam poucos minutos das 5h de sexta-feira, 29 de dezembro. Meia hora depois da passagem da mulher, um taxista encontrou a alguns metros dali, estendido no chão ao lado de sua moto, Santiago Pastorizzo. Estava agonizando, vítima de dois tiros. “Ainda estava vivo, mexia a boca”, disse o homem à polícia. Mas, quando chegou a ambulância, Pastorizzo já tinha morrido. A Justiça tenta determinar agora se a mulher do vídeo era sua namorada, Nahir Galarza, de 19 anos, assassina confessa de Pastorizzo e protagonista de um caso que tem causado comoção neste início de ano na Argentina.

O vídeo pode ser uma prova fundamental na investigação. Galarza confessou o crime e está presa em uma delegacia para mulheres. Chorando, contou aos investigadores que roubou a pistola de seu pai, um policial, encontrou-se com seu namorado e atirou nele quando passavam de moto por uma rua de terra na periferia da cidade. Na manhã seguinte, postou no Instagram uma foto em que Pastorizzo aparece beijando seu ombro, acompanhada de uma mensagem: “Te amo para sempre”. Não restam muitas dúvidas, mas para a Justiça argentina não basta a confissão do crime. A defesa se apoiou nisso e, em sua estratégia para evitar a prisão perpétua, encheu o caso de dúvidas.

A autópsia determinou que Pastorizzo recebeu dois disparos, um deles pelas costas. “Os ferimentos correspondem a orifícios de entrada e saída [de bala] de arma de fogo, no total, duas, uma delas causou uma lesão broncopulmonar direita, provocando a morte”, diz o relatório. Mas no exame dermatológico nas mãos de Nahir não foram encontrados restos de pólvora. Seu advogado, Víctor Rebosio, pôs em dúvida então que sua cliente seja a autora dos disparos. O promotor Rondoni Caffa, que comanda a investigação, reagiu rapidamente: “O teste dermatológico pode dar negativo mesmo tendo disparado. A perícia foi feita seis horas depois do fato e a pessoa pôde lavar as mãos”. Caffa também disse que a arma do crime, uma pistola de 9 milímetros, expulsa a pólvora para um lado e não para trás, como ocorre com um revólver.

O detalhe da pólvora foi só uma das idas e vindas da investigação, noticiadas todos os dias na mídia. Com toda a atenção voltada para o caso, a televisão e os jornais são o cenário dos debates. Tanto que a família de Nahir decidiu encarregar um especialista em relações públicas muito midiático, especializado em escândalos amorosos, de falar por ela. Enquanto isso, o pai da jovem instalou a ideia de que sua filha era vítima de maus-tratos por parte de Pastorizzo. Disse que o jovem batia nela e, principalmente, que já não estavam namorando. O detalhe não é insignificante e nele está baseada toda a estrutura defensiva: se eram namorados, a acusação contra Nahir será de “homicídio duplamente agravado pelo uso de arma de fogo e pelo vínculo”, um crime que pode ser punido com prisão perpétua. Caso contrário, a acusação será de “homicídio simples”, com sentenças a partir de oito anos de prisão.

Santiago Pastorizzo, a vítima.
Santiago Pastorizzo, a vítima. Facebook

“Para o advogado de defesa, seria um golaço se retirassem os agravantes, e é por isso que em sua estratégia ele lança toda essa série de hipóteses, das quais não compartilho, mas respeito”, disse Sebastián Arrechea, o advogado da família da vítima. “O que me interessa acima de tudo é manter a qualificação legal e os agravantes, para, dessa maneira, sustentar a pena máxima”, acrescentou.

Uma relação conflituosa

Nahir e Santiago tinham um relacionamento tumultuoso havia cinco anos. Os pais da vítima asseguram que a violenta era ela. Os pais dela garantem que o violento era ele. O promotor Caffa descobriu que na véspera de Natal, cinco dias antes do homicídio, os dois brigaram na porta de uma boate. Segundo testemunhas, “ela bateu nele, mas ele também tinha batido na cabeça dela, houve uma situação de violência de ambas as partes. Tem de haver alguma explicação para que tenham voltado a se ver” em 29 de dezembro, quando ocorreu o crime.

Para reconstituir a história, Rondoni confiscou os celulares do casal. Os peritos procurarão nos arquivos do WhatsApp, Facebook e Instagram dados que permitam reconstruir o estado real da relação. “Se ele [Pastorizzo] sofria alguma violência, pode ter dito aos amigos”, especulou o promotor. “Por enquanto, tenho as declarações do pai da vítima, que me disse que havia uma relação de namorados muito turbulenta, com idas e vindas, na qual Fernando era vítima da violência permanente de Nahir”, acrescentou.

De qualquer forma, Pastorizzo deixou no Twitter algumas pistas da relação que mantinha com Nahir. Em uma conta de acesso restrito, publicou regularmente mensagens nas quais se lamentava da relação. “Está louca, doente da cabeça, mal, nunca vai me deixar tranquilo”, escreveu ele no dia de Natal. Um mês antes, tinha celebrado o que pareceu um rompimento: “Que alívio tirar algo tão pesado de cima”.

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