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Manifestantes voltam às ruas para pedir saída de Dilma de ‘qualquer jeito’

Lideranças querem reunir multidão domingo para aumentar pressão sobre presidenta

Atos vão poupar Cunha, acusado de corrupção, por ele ter ensaiado apoiar queda da petista

'Panelaço' na última sexta-feira.
'Panelaço' na última sexta-feira. AP

Movimentos de oposição ao Governo irão às ruas pela terceira vez neste ano para pedir a saída de Dilma Rousseff do poder na esperança de manter a presidenta, que ganhou nesta semana um respiro com apoios políticos e de movimentos sociais, nas cordas. As manifestações ocorrerão neste domingo 16 e pedirão a saída de Dilma 'de qualquer jeito': por impeachment, cassação ou renúncia. Segundo o grupo Vem pra Rua, um dos organizadores do ato, 257 cidades confirmaram a participação no domingo. A prévia é bem menor do que a de 10 de abril, dois dias antes da última grande manifestação, quando mais de 400 cidades confirmavam presença nos protestos —São Paulo, uma vez mais, deve liderar os atos, com presença maciça de pessoas na avenida Paulista.

A expectativa dos organizadores era ampliar a adesão aos atos anti-Dilma, já que a crise econômica se aprofundou de abril para cá. Já a preocupação do Governo, que monitora o tema, era ver crescer os atos no Nordeste, base do PT onde a popularidade de Dilma também despencou. Mas uma pista para o número menor de cidades confirmadas vem das dúvidas da população em geral sobre os riscos, inclusive econômicos, de um eventual impeachment. "Aos poucos, os brasileiros começam a se perguntar se a saída de Dilma Rousseff traria uma solução melhor, num momento em que nem Governo e nem oposição apresentam perspectivas de futuro", acredita Renato Meirelles, do instituto Data Popular.

Outro fator que tem limitado a adesão é a indignação seletiva dos organizadores. Embora os organizadores cravem a luta contra a corrupção como tema central para derrubar o Governo, nomes que estão em evidência na mídia por denúncias de corrupção, como o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), têm sido poupados. "Temos prioridades. Neste momento, é o impeachment de Dilma Rousseff", afirmou Fabio Ostermann, um dos líderes do Movimento Brasil Livre (MBL). O grupo tem um pedido de impeachment da presidenta protocolado, baseado nas  'pedaladas fiscais', as manobras contábeis utilizadas para fechar as contas do Governo em 2014, sob análise do TCU (Tribunal de Contas da União). As lideranças se reuniram algumas vezes com Cunha, que é quem pode na Câmara dar início à tramitação de pedidos de impugnação.

Mas nem esse tratamento cuidadoso com o presidente da Câmara, que dirige uma instituição nesse momento tão rejeitada pela população quanto Dilma segundo as pesquisas, pode garantir êxito na aliança tática ansiada pelos radicais anti-PT. Cunha voltou a adotar, em entrevista ao jornal Valor Econômico, um discurso mais moderado em relação ao impeachment, numa inflexão desde que se declarou inimigo do Planalto. Ele acaba de sofrer um revés no Supremo Tribunal Federal, que determinou que será o Congresso, e não só a Câmara, quem votará o crucial relatório do TCU sobre Dilma. Caberá ao neoaliado do Planalto, Renan Calheiros, decidir quando essa votação acontecerá.

O papel do PSDB

O PSDB, o principal partido da oposição, anunciou seu apoio à marcha de domingo no programa do partido veiculado em rede nacional de televisão na semana passada. O senador Aécio Neves, derrotado na eleição do ano passado, assim como a bancada jovem do partido no Congresso, têm gravado vídeos incentivando as pessoas a saírem às ruas no domingo. O apoio do partido, porém, nem é consenso entre os tucanos nem comemorado de maneira unânime pelas lideranças dos protestos. “Ter o apoio do PSDB é bom, porque convoca mais gente para as ruas", diz Rogerio Chequer, porta-voz do Vem pra Rua. Já para Renan Santos, do MBL, o apoio dos tucanos não faz tanta diferença. "Se eles não atrapalharem, já está bom", diz. "Na verdade, se o Aécio se calar, será mais profícuo".

Carla Zambelli, porta-voz do movimento Nas Ruas, vê o apoio partidário com cautela. “O PSDB tem o direito de chamar para a manifestação e para nós é apenas mais uma forma de divulgação”, diz. “O evento é apartidário. Não pode levar bandeira de partido algum e se alguém levar, pediremos para baixar”. Segundo ela, o mote da manifestação é a luta contra a corrupção. "Esse tema é o pano de fundo para abordarmos a saída de Dilma da presidência", diz. "Seja por impeachment, ou por cassação ou por renúncia". Zambelli também não menciona outros partidos além do PT.

O Vem pra Rua fala em três frentes: 'fora corruptos', 'fora Dilma' e 'Lula nunca mais'. Não há nenhuma menção a outros partidos ou políticos. "Com o PT no Governo, a corrupção, que sempre existiu, passou a ser mais institucionalizada. Por isso, clamamos para que Dilma renuncie, para que essa transição seja a menos danosa possível para o país", afirma Rogerio Chequer.

Para alguns observadores, essa possibilidade é, por ora, remota. "O perfil da presidenta, que é uma mulher vaidosa e com muita empáfia, não me faz crer que ela renunciará", afirma David Fleischer, cientista político. "Ela não admitiu ainda nem os erros do primeiro governo. Acho muito difícil uma renúncia".

"Estamos vendo agora os efeitos das principais políticas do PT nos últimos anos", diz Rogerio Chequer, um dos que aposta que a crise econômica pode somar mais manifestantes aos atos. "O isolamento do Brasil, o descontrole da inflação e a alta dos juros, o excesso de gastos públicos, tudo isso não é coincidência", diz. Por causa do descontentamento com a economia, lideranças creem que o perfil econômico e social dos manifestantes pode mudar. "É um processo gradativo, mas já estamos observando a participação de classes mais populares nas manifestações", diz Chequer.

O cientista político David Fleischer compartilha dessa opinião." O descontentamento da população cresceu. A situação econômica está muito pior desde abril [data da última manifestação], e a insatisfação está bem maior do que em junho de 2013", diz."Por isso, pode ter mais gente de classe media baixa e, principalmente, da classe D, que são os grupos que estão sofrendo mais".

Renato Meirelles, do Data Popular, avalia que esse argumento faz sentido, mas apenas na teoria. "O descontentamento econômico atinge todas as camadas da população. Mas, na prática, depende da capacidade da oposição propor algo que vá além do impeachment", diz.

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